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AMIZADES E DESPEDIDAS

'A Natureza das Coisas Invisíveis' aborda luto pela ótica infantil

Filme brasiliense usa a inocência infantil para falar de morte, luto e identidade.

Rafael Carvalho

Por Rafael Carvalho

30/11/2025 - 3:01 h
Imagem ilustrativa da imagem 'A Natureza das Coisas Invisíveis' aborda luto pela ótica infantil
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Filmar com crianças e conseguir uma naturalidade na interpretação não é tarefa fácil. Falar de morte, luto e ainda de questões de gênero torna a tarefa ainda mais difícil. Pois A Natureza das Coisas Invisíveis, já em cartaz nos cinemas, consegue passar bem no teste, tendo como arma a sensibilidade através da inocência e da perspicácia infantis.

Dirigido por Rafaela Camelo, em seu primeiro longa-metragem, o filme brasiliense estreou mundialmente no Festival de Berlim, na seção paralela Generation Kplus, destinada ao público infanto-juvenil. No Brasil, competiu e foi premiado no Festival de Gramado, além de ter encerrado o Festival de Brasília.

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O filme começa acompanhando Glória (Laura Brandão), garota de dez anos que entra de férias na escola, mas precisa acompanhar a mãe que trabalha como enfermeira em um hospital. Ali, a menina cria laços afetivos com os doentes internados, em especial com os pacientes idosos cuidados por sua mãe. Volta e meia alguns desses pacientes morrem, e Glória precisa lidar com a ideia do fim repentinamente.

Um certo dia, ela conhece Sofia (Serena), da mesma idade que ela, garota que acompanha a mãe na internação da bisavó idosa que entrou em coma. Mais uma vez, a proximidade da morte paira no ar, mas dessa vez elas vão ter a companhia uma da outra, enquanto descobrem as coisas do mundo.

“Guardo uma lembrança muito nítida de, quando criança, sentir curiosidade sobre a morte e, ao mesmo tempo, me sentir estranha por ter esse interesse. Muitas perguntas passaram pela minha cabeça, perguntas que na época eu não tinha a liberdade de fazer”, revelou a diretora.

A Natureza das Coisas Invisíveis é fruto desses questionamentos. E, assim como as crianças conseguem lidar com assuntos dolorosos de forma muito mais fácil que os adultos, o filme se apropria desse olhar para criar uma atmosfera de descoberta, ao mesmo tempo em que tudo transcorre com muita tranquilidade e placidez, mesmo nos momentos de maior crise.

Crescimento

O filme é um coming of age (rito de passagem) delicado que se move entre a curiosidade infantil e as dores que fazem parte do mundo adulto, a que elas observam com atenção desproposital. Glória tem uma ótima relação de cumplicidade com a mãe, enquanto Sofia já demonstra suas rusgas com sua genitora que, por sua vez, já vinha de uma relação complicada com a própria avó, bisa da garota, agora em situação delicada.

O filme trabalha com essas gerações de mulheres que nem sempre se deram bem e possuem suas cicatrizes de formação – em especial a mãe de Sofia, que a teve quando era muito jovem e perdeu a própria mãe muito cedo, não tendo ela conhecido a neta. No entanto, elas irão descobrir também que precisam contar umas com as outras nos momentos de maior tensão.

No caso das crianças, o ambiente hospitalar não se mostra o mais propício para elas passarem as férias escolares. Vale destacar que as duas mães não contam com as figuras paternas presentes, o que coloca sobre seus ombros responsabilidades dobradas sobre a criação das meninas.

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Além do tema da morte e do luto, o filme ainda consegue tocar em outro tema sensível de forma muito madura. A identidade queer vai se revelar uma questão relevante para uma das personagens, sem que isso seja escancarado pelo longa. Rafaela Camelo, que também assina o roteiro do filme, encontra na cumplicidade infantil uma maneira de compreensão, sem nunca ter de questionar ou explicar demais as decisões sobre aquilo que se escolhe ser.

Sororidade e fábula

Apesar de focar na relação entre as duas crianças, A Natureza das Coisas Invisíveis também cria uma proximidade entre as duas mães. A de Glória (vivida por Larissa Mauro) vai acabar se aproximando das inquietações da de Sofia (Camila Márdila), que não sabe muito bem como lidar com sua própria mãe em estado vegetativo, entre a vida e a morte. Inesperadamente, as coisas tomam um rumo que surpreende a todas, e a bisavó da garota ganha a possibilidade de se recuperar em casa. A mãe de Sofia resolve levá-la para o pequeno sítio da família e vai contar com a ajuda da mãe de Glória para cuidar da mulher adoentada.

A partir de então, o filme entra em uma outra geografia e espacialidade. No campo, o clima sufocante dá lugar à simplicidade e ao contato com a natureza, o que acaba aproximando todas elas, de formas distintas. Nesse momento, a bisavó, interpretada por Aline Marta Maia – que venceu o prêmio de melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado – ganha certo destaque e sua presença modifica as relações que se dão ali.

Interessante pensar que, neste momento, uma inclinação para a fantasia e certa fabulação que já estavam presentes no filme desde o início, ganha ares mais fortes, especialmente pela dimensão religiosa que pertence àquele lugar e às crença cultivadas pelos mais velhos.

Com todos esses elementos reunidos, A Natureza das Coisas Invisíveis consegue aglutinar diversas questões e conflitos de forma harmônica e delicada, colocando aquelas mulheres em confronto com seus próprios dilemas e questões existenciais, mesmo as duas crianças a seu modo.

E ainda que o campo apresente ares de cura e saúde, é ali que o confronto com a morte se torna mais latente, mas sem o peso da dor e do drama choroso. Ao fim, o longa aponta para a despedida como ideia de autoperdão e também como forma de deixar ir e abraçar novas maneiras de ser e estar no mundo.

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