MIRANDO ALÉM
Ameaça humana ou alienígena? O enigma perturbador de Dia D
Steven Spielberg retorna à ficção científica especulativa em ‘Dia D’


Em 1982, Steven Spielberg deu forma, vida e sentimentos aos seres alienígenas. E. T.: O Extraterrestre foi um marco no cinema de ficção científica de entretenimento, mas, sobretudo, ampliou o imaginário sobre a existência de vida inteligente fora da Terra, além de criar uma imagem amigável e fraterna de uma interação entre seres distintos.
O cinema, de modo geral, sempre foi um veículo de especulação e imaginação sobre o tema, que ganha mais um capítulo agora, com o lançamento de Dia D. Só que dessa vez Spielberg abandona certa romantização sobre os aliens e, mais que isso, promove uma inversão de ponto de vista. Seu novo filme não versa sobre a mirada e as intenções dos extraterrestres, mas de como o ser humano supostamente tratou a existência deles ao longo do tempo, com medo, seriedade e senso de perigo.
O longa começa com uma fuga. Daniel (Josh O'Connor), que trabalhava para a misteriosa Corporação Wardex, está escapando justamente dos executivos e capangas do grupo, uma vez que roubou um poderoso artefato e possui dados confidenciais que aquela organização não quer que venham à tona.
O filme parte, portanto, de um mistério que vai sendo aos poucos revelado ao espectador e se torna menos especulativo sobre a existência dos extraterrestres e muito mais alarmante sobre os segredos e os contatos traumáticos – especialmente para os aliens – travados entre as raças.
Outro elo importante da trama é a meteorologista Margaret (Emily Blunt). Ela leva uma vida comum ao lado do namorado imaturo, mas tem um dia pra lá de estranho. Começa a falar fluentemente idiomas que desconhece, mostra-se capaz de conhecer detalhes da vida íntima das pessoas apenas ao olhá-las nos olhos, tal como uma vidente sensitiva, mas especialmente é tomada a falar uma língua alienígena em plena transmissão da previsão do tempo na emissora local onde trabalha.
Imediatamente, ela passa a ser alvo do chefe da Wardex (Colin Firth) no mesmo momento em que ele persegue Daniel e sua namorada. O trio, por sua vez, é também monitorado por Hugo (Colman Domingo), dissidente da Wardex que parece querer ajudá-los e levá-los a um empreendimento maior e definidor da experiência humana.
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Entendimento humano
Fica evidente no decorrer da narrativa que o risco aqui não provém dos alienígenas – não através daquilo que podemos vislumbrar deles no filme –, mas dos atos humanos. Apesar de não se enquadrar como um filme catástrofe, Dia D tem em Spielberg o encenador habilidoso para criar boas cenas de perseguição e mistério, injetando adrenalina em uma trama que também aposta no melodrama.
O fator fantasia se dá pela capacidade que os humanos desenvolveram nesse contato com a vida fora da Terra. Noah, o chefão da Wardex, aprendeu a utilizar um dispositivo trazido pelos aliens. Com ele, é possível entrar na mente das pessoas e controlar as suas atitudes, ainda que isso provoque um esforço mental e físico que poucos suportam.
Aos 79 anos de idade, o cineasta segue provando que ainda domina as regras de uma boa narrativa, buscando equilibrar a aventura com o viés conceitual da trama. Em Dia D, importa pensar qual é o entendimento humano sobre as consequências de não estar mais sozinho no universo.
A Wardex quer a todo custo esconder a verdade da população, supostamente por medo de uma calamidade – e também pela manutenção de um poder que se firma para além das forças políticas, estas que se alteram a cada nova eleição e mudança de governo federal.

A namorada de Daniel é uma ex-noviça e, em certo momento, eles se refugiam em um mosteiro. Diante das provas que o rapaz lhe revela, ela não tem outra saída senão desafiar a própria fé. Com isso, o filme revela não se tratar mais de uma ideia de crença – que passa por uma escolha, no fundo, muito subjetiva –, mas de entender a verdade como algo palpável e inescapável.
Maravilhamento
Com Guerra dos Mundos (2005) – filme um tanto subestimado à época do lançamento –, Spielberg redesenhou a calamidade de uma invasão alienígena, através do medo pela extinção da vida terrestre – no novo filme, se há um risco de destruição global, ele se dá muito mais pelos conflitos bélicos entre as potências do mundo do que pelas mãos de extraterráqueos.
Portanto, é com outro filme seu, esse sim um clássico absoluto, que Dia D possui maior filiação: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). Ali, Spielberg imaginou um grande encontro entre humanos e não-humanos a partir da chave do maravilhamento. As pessoas passavam a ficar encantadas com a possibilidade de conhecer e se conectar com alguma vida extraterrestre.

É esse mesmo tipo de encanto que Margaret experimenta aqui ao dominar cada vez mais as suas habilidades sobrenaturais, o que a aproxima dessas criaturas. Daniel, por sua vez, também revela uma estranha capacidade de compreender a língua extraterrena, traduzindo-a em fórmulas matemáticas.
O caos e a destruição, geralmente associados a filmes com aliens, ganha um outro subtexto aqui. O ponto central de Dia D não é mais a calamidade e o medo do desconhecido, mas sim a nobreza da comunicação.
Em tempos de fake news e inteligências artificiais bagunçando as fronteiras entre realidade e falsidade – e não há nada mais passível de mentira do que aparições e contatos com ETs ao redor do mundo –, é com uma narrativa fabular como essa que o cineasta resgata a importância de revelar e preservar a verdade.
“Dia D” (Disclosure Day) / Dir.: Steven Spielberg / Com Josh O’Connor, Emily Blunt, Eve Hewson, Colin Firth, Colman Domingo, Wyatt Russell / Salas e horários: cinema.atarde.com.br


