CINEMA NACIONAL
Aos 60, Glória Pires desafia o etarismo em sua estreia como diretora
Filme discute maturidade, desejo e preconceito contra mulheres acima dos 60 com leveza e olhar feminino

Por Márcia Moreira | Especial para A TARDE

Em cartaz no circuito nacional desde o dia 11, o filme Sexa marca a estreia de Gloria Pires na direção de longas-metragens. Atriz consagrada em 53 anos de carreira dedicados à tevê e ao cinema, Glória topou o desafio de assumir, aos 62 anos, um papel ainda inédito na sua trajetória: o de diretora.
O resultado é uma comédia romântica leve, sem grandes pretensões, mas que deve fazer sucesso entre o público feminino ao tratar de um tema relevante: etarismo. Sexa conta a história de Bárbara (interpretada pela própria Glória Pires), uma mulher que acaba de fazer 60 anos e está apavorada com o fato de estar envelhecendo.
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Para ela, tornar-se sexagenária – daí o título do filme – significa perder todos os direitos e ter de abrir mão do prazer de viver. Não que ela se sinta dessa forma, mas sabe que é isso que a sociedade que vivemos – sexista, machista e etarista – exige. Principalmente das mulheres.
Isso gera na personagem um conflito interno: fazer o que esperam dela ou enfrentar o preconceito? Em sua conta no Facebook, Gloria Pires escreveu sobre sua percepção de Sexa: “É um filme sobre maturidade, liberdade e o lugar do feminino”.
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Brasil grisalho
E que lugar é esse? Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é lugar de protagonista. Na última década, a população com mais de 60 anos no Brasil cresceu mais de 50%, superando, pela primeira vez na história, o número de jovens entre 15 e 24 anos.
Mas se os números comprovam que a sociedade brasileira está mais grisalha, o preconceito ainda persiste e no filme é representado pelo personagem Rodrigo (interpretado pelo ator baiano Danilo Mesquita), filho de Bárbara.
Em umas das cenas iniciais do filme, durante um jantar, o jovem de 35 anos dispara uma série de absurdos do tipo: “Uma mulher de 60 anos vai botar uma minissaia, um vestido vermelho?; a pessoa tem que se enxergar; isso que dá não aceitar a idade”.
Romance inesperado
Sim, Sexa tem vários estereótipos; diálogos um pouco clichês, mas o romance que surge entre Bárbara e Davi (Thiago Martins) consegue prender a atenção.
Ela, em plena crise dos 60 e ele, viúvo, 35 anos, uma filha pequena, e uma vontade de recomeçar a vida. As dúvidas surgem da parte dela por ser muito mais velha do que ele e ter plena consciência de toda a carga de olhares e comentários que isso acarreta.
Ele quer viver o momento e investir no romance. Mas o fantasma da idade continua rondando o casal.
Em uma cena emblemática do filme, Bárbara, sozinha no seu belo apartamento, chora e sofre, verdadeiramente, com a chegada aos 60. Se a mente quer refazer os valores e viver a vida, o corpo físico já revela que não é mais o mesmo. Numa consulta ao oftalmologista, ela recebe o diagnóstico de que está com catarata. A notícia funciona como uma espécie de atestado de velhice.
O filme foi exibido no Festival do Rio e, na ocasião, o roteirista de Sexa, o estreante Guilherme Gonzales, falou de suas motivações na criação do roteiro: “Esse filme nasceu de uma inquietação minha, porque quando alguém entra na categoria ‘idoso’, de repente passa a ser invisível. Como se a vida tivesse prazo de validade, e o desejo, prazo de vencimento. Esse filme fala, entre outras coisas, de reinvenção”, declarou.
Fora da coitadolândia
O contraponto de todos esses dilemas está na amiga e vizinha Cristina (Isabel Fillardis). Divertida e bem resolvida, é ela quem lembra a Bárbara os pontos positivos da nova fase: está aposentada, ganha bem como revisora de livros, tem casa própria e filho adulto, ou seja, não precisa provar mais nada pra ninguém.
Cabe a Cristina cutucar a amiga para cantar, dançar, ir a praia, namorar. E quando Bárbara insiste em se lamentar, Cristina dispara: ‘sai da coitadolândia, amiga’!
Sexa tem alguns problemas técnicos com o som, que em algumas cenas, torna o diálogo incompreensível. A direção de Glória é correta, mas com um enquadramento muito similar ao das novelas. Mas o filme vale a pena e propõe boas reflexões sobre o tema.
Para quem acha que chegar aos 60 é abrir mão de aventuras e levar uma vida mais comedida, Sexa traz um trecho da música Prudência, na voz poderosa de Maria Bethânia, cuja letra ensina: “Prudência, não me venha falar em prudência /As paixões que me descontrolaram/ São as que fizeram eu ser como sou”.
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