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FESTIVAL DE BRASÍLIA

Ela perdeu a casa, a paz e a família: o filme que expõe a verdade por trás da tragédia

Longa 'Xingu à Margem' estreia em Brasília denunciando a situação de Belo Monte

Rafael Carvalho | Especial para A Tarde*
Por Rafael Carvalho | Especial para A Tarde*
No Festival de Brasília, 'Xingu à Margem' foca na experiência humana com a barragem
No Festival de Brasília, 'Xingu à Margem' foca na experiência humana com a barragem - Foto: Divulgação

O Festival de Brasília segue até o próximo sábado, 20, e exibe diversos filmes baianos em várias mostras. No último final de semana, foi a estreia do longa Xingu à Margem, que participa da prestigiosa mostra competitiva do festival. Dirigido pelo baiano Wallace Nogueira e pela indígena paraense Arlete Juruna, o filme discute a situação dos moradores que sofreram com a construção da barragem de Belo Monte, em solo paraense.

Nogueira participa do projeto Vídeo nas Aldeias, que capacita indígenas para a produção audiovisual. Foi aí que ele conheceu Arlete no Pará. “Foi a pessoa que eu conheci com mais pesar por tudo isso que aconteceu em Belo Monte porque ela perdeu o amor entre os irmãos. Foi tudo muito manipulado pela promessas vazias de Belo Monte”, contou o diretor.

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Surge, desse encontro, a ideia de realizar o projeto. E a grande figura que ele conseguem para falar da situação é dona Raimunda, ribeirinha que perdeu casa e teve sua paz ceifada. Ela segue na luta por uma moradia digna e uma vida honrada, sem deixar de denunciar o jogo sujo dos poderosos que alteraram drasticamente as relações e a convivência daqueles povos que viviam em harmonia na região.

O filme não se pretende fazer um estudo histórico e contextual sobre Belo Monte. Ao invés disso, parte das vivências particulares de quem se atreve a confrontar o sistema. Na sua pesquisa, o diretor contou que poucos ribeirinhos quiseram falar sobre o acontecido, já que o clima entre muitos desses moradores não é dos melhores.

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Diferente dos demais, dona Raimunda não tem papas na língua. “Eu sabia que no começo estava tudo errado. Eu não tive o direito de dizer quanto valia minha terra. Nessa luta, me tornei polícia, me tornei investigadora, me transformei. Me mataram um pouco, mas não me derrubaram. E luto nessa vida para ter o Xingu vivo de volta”, sentenciou dona Raimunda.

O filme é um retrato duro dessa situação e deixa um gosto amargo, apesar da resiliência que faz parte da postura combativa da mulher. Sua presença no filme é marcante porque ela se posiciona e tem plena consciência do que isso significa, tanto em termos de denúncia do que precisa ser dito e revelado ao mundo, quanto em risco que ela sabe que corre por não esconder suas opiniões.

“Esse é um filme de guerrilha, de trincheiras. Portanto, não tem como ele nascer pronto”, destacou o diretor. E celebrou o encontro com dona Raimunda, de fato uma pessoa única, que faz de Xingu à Margem um forte produto de enfrentamento social e político.

*O jornalista viajou a Brasília a convite do Festival.

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