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ANÁLISE

Entre o belo e o grotesco: Karim Aïnouz estreia filme que desafia o espectador

Cineasta aposta em imagens deslumbrantes e personagens complexos em longa que chega aos cinemas

Beatriz Santos
Por
Cineasta cearense Karim Aïnouz retorna às telas com Rosebush Pruning
Cineasta cearense Karim Aïnouz retorna às telas com Rosebush Pruning - Foto: Divulgação

O cineasta cearense Karim Aïnouz retorna às telas com Rosebush Pruning, uma sátira sombria que transforma uma família milionária em retrato grotesco das relações de poder, da hipocrisia e da violência escondida sob o verniz do privilégio.

Em seu segundo longa-metragem em língua inglesa, o diretor de A Vida Invisível (2019) e Motel Destino (2024) aposta em uma estética extravagante, cores fortes e uma fotografia impressionante para construir uma experiência cinematográfica que provoca, desconcerta e, por vezes, arranca risos incômodos do espectador.

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Em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE, Aïnouz falou sobre a vontade de se arriscar artisticamente, a necessidade de romper com a padronização do cinema contemporâneo e a atualidade de uma história concebida durante a pandemia de Covid-19. O diretor também explicou como buscou equilibrar o humor e a violência, além de revelar o processo de experimentação com o elenco internacional.

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Exibido na competição do Festival de Berlim, Rosebush Pruning chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 15 de outubro, com uma provocação que ultrapassa os limites da narrativa.

Em um momento no qual tantas produções parecem recorrer a fórmulas conhecidas, o longa se destaca pela liberdade visual e pela disposição de explorar o grotesco sem abrir mão da humanidade de seus personagens.

Karim Aïnouz quer bagunçar o cinema contemporâneo

A extravagância visual é um dos aspectos mais marcantes de Rosebush Pruning. O filme começa com uma tomada genuinamente deslumbrante, composta como uma pintura a óleo: o mar escaldante da Catalunha, na Espanha, desenhado como uma linha reta sob um horizonte ligeiramente mais claro.

A beleza da imagem antecipa a abordagem de Aïnouz, que utiliza a fotografia de Hélène Louvart para construir um universo de cores intensas, enquadramentos cuidadosos e composições que contrastam com a brutalidade da história.

O resultado é um filme que arrisca na forma e encontra na beleza visual uma maneira de ampliar o desconforto provocado pelos temas abordados. A extravagância não funciona apenas como um recurso estético, mas dialoga diretamente com a inquietação artística que moveu o diretor durante a realização do longa.

Ao comentar a escolha de seguir por um caminho menos convencional, Aïnouz lembrou que a busca por uma linguagem própria acompanha sua trajetória desde Madame Satã (2002).

“Eu faço isso há muito tempo. Vivi isso em Madame Satã (2002), um filme absolutamente iconoclasta, maluco e proibido. Acho que, principalmente depois de A Vida Invisível (2019), que é um filme de que eu adoro, que foi quase unânime, as pessoas adoram e teve um sucesso grande, fiquei com muita vontade de me arriscar mais e ir para lugares aonde eu não tinha ido, de pensar exatamente assim e de executar exatamente o que você coloca”, disse.

Para o cineasta, a disposição de surpreender o público se tornou ainda mais necessária diante de um cenário cinematográfico que, em sua avaliação, passou a privilegiar caminhos seguros e narrativas familiares.

Acho que fazer algo disruptivo, que faça com que as pessoas fiquem chacoalhadas, surpresas, é importante. O cinema, principalmente nos últimos anos, entrou em um lugar muito seguro. Existe um lugar da história clássica, dos personagens de quem você gosta, entende? Karim Aïnouz - Cineasta

A crítica encontra força na própria experiência de assistir a Rosebush Pruning. Em um cenário no qual parte do cinema contemporâneo parece apostar em fotografias dessaturadas, filtros acinzentados e uma estética cada vez mais associada à produção em massa para o streaming, o filme surge como uma experiência visual que se recusa a passar despercebida.

Mais do que oferecer uma alternativa estética, Aïnouz demonstra como a forma de filmar pode transformar a relação do espectador com uma história. A fotografia impressionante, a composição das cenas e a intensidade das cores tornam ainda mais perturbadora a violência que se esconde em meio à aparente perfeição daquele universo.

O diretor, no entanto, não reivindica para si a criação de algo inteiramente inédito. Sua preocupação está em recuperar a capacidade de inquietação que considera essencial à experiência cinematográfica.

“Para mim, isso me lembrava muito um momento do cinema de onde eu vim. Lembrava muito o cinema do John Waters. Quando vi os primeiros filmes dele, falei: ‘Jesus, o que é isso?’. Ele puxou meu tapete artisticamente, e são coisas absolutamente apaixonantes, assombrosas”, afirma.

A referência ajuda a compreender o espírito de Rosebush Pruning, que encontra na provocação uma maneira de questionar convenções. Mesmo os filmes de gênero, observa Aïnouz, nem sempre escapam de estruturas tradicionais.

Acho curioso que, no cinema contemporâneo, mesmo os filmes ditos de gênero, que são absolutamente perigosos, como os filmes de horror, sejam tão clássicos. Fico me perguntando: como é que a gente consegue renovar isso aqui, gente? Não que meu filme tenha nada de absolutamente novo, mas existe um desejo de revolucionar — não revolucionar, mas de bagunçar o coreto, de provocar. Karim Aïnouz - Cineasta

A inquietação também está ligada às referências que deram origem ao projeto. O longa parte de De Punhos Cerrados (1965), estreia do italiano Marco Bellocchio, obra que provocou controvérsia quando foi lançada.

“Nesse sentido, ele é inspirado em um filme que fez isso quando foi lançado. Quando você pensa no filme que o inspirou, De Punhos Cerrados (1965), de Marco Bellocchio, percebe que ele também foi um escândalo na época. Pasolini escrevia defendendo o filme.”

O desejo de romper com o esperado, segundo Aïnouz, atravessou todo o processo de criação. “Essa energia, quase de insurreição, estava muito presente quando comecei a pensar em fazer esse filme. Estava presente em tudo, no jeito como eu filmava, em uma certa inquietação”.

Uma família milionária e o horror por trás da beleza

Em Rosebush Pruning, a beleza da paisagem contrasta com a deterioração das relações familiares. Ambientada em uma mansão nas montanhas da Catalunha, a história acompanha quatro irmãos ricos que vivem isolados do mundo, sustentados por uma fortuna herdada e obcecados pelos lançamentos das grandes grifes.

Jack (Jamie Bell), Ed (Callum Turner), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) compartilham uma existência marcada pela falta de autonomia, pela dificuldade de construir relações saudáveis e pela dependência de uma estrutura familiar opressora.

O pai, interpretado por Tracy Letts, é cego e exerce uma influência violenta sobre os filhos. A mãe, vivida por Pamela Anderson, morreu devorada por uma matilha de lobos, e a ausência de seu corpo levou a família a venerar uma estátua no jardim.

O equilíbrio frágil começa a ruir quando Jack, o irmão mais velho e figura central da dinâmica familiar, decide abandonar a casa para viver com Martha (Elle Fanning), sua namorada. Estudante de música e adepta de roupas de fast fashion, ela representa um mundo exterior que contrasta com os valores e as obsessões daquela família privilegiada.

A chegada da jovem desencadeia conflitos, expõe segredos e conduz os personagens a uma espiral de violência. O roteiro de Efthimis Filippou, colaborador frequente do cineasta grego Yorgos Lanthimos em filmes como Dente Canino (2009), O Lagosta (2015), O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) e Tipos de Gentileza (2024), combina situações absurdas com relações de poder profundamente perturbadoras.

Apesar das aproximações com o universo de Lanthimos, Aïnouz imprime ao material uma identidade própria. Em vez de observar os personagens exclusivamente à distância, o brasileiro investe em uma abordagem que combina sátira, realismo psicológico e identificação ambígua.

Pamela Anderson em Rosebush Pruning
Pamela Anderson em Rosebush Pruning - Foto: Divulgação

Ao falar sobre a construção desse universo, o diretor destacou a importância de não transformar o filme em uma comédia convencional.

O filme não podia ser uma comédia. Senão, eu estaria rindo daquelas pessoas, e estou incomodado com aquilo. O riso tem algo muito impressionante: é um jeito de se expressar, acho que a sátira tem uma coisa de crítica muito interessante, porque faz você criticar a si mesmo. Karim Aïnouz - Cineasta

A proposta é fazer com que o público questione a própria reação diante do absurdo. Em determinadas situações, o riso surge quase involuntariamente, mas logo dá lugar ao desconforto de perceber o que está sendo representado. “Você pensa: ‘Gente, estou achando isso engraçado. Tem alguma coisa errada comigo se estou achando isso engraçado, mas isso é engraçado’”.

Para Aïnouz, o desafio estava justamente em preservar a estranheza das situações sem permitir que a violência se tornasse banal.

Esse limiar entre o que é absurdo — porque a sátira também é muito pautada no absurdo — era muito delicado. A gente não podia se acostumar com o absurdo. A sátira faz com que ele não seja naturalizado. Você pensa: ‘Não, isso aqui tem alguma coisa estranha’. Karim Aïnouz - Cineasta

O cineasta resume a experiência como uma combinação deliberadamente contraditória de diversão e horror. “O que ela vai gerando é uma espécie de desconforto no público. Acho isso muito interessante. Fico sempre brincando: é um filme divertido, mas muito assombroso ao mesmo tempo”.

A experiência também representa uma novidade em sua filmografia, que agora se aventura por um gênero com o qual ainda não havia trabalhado dessa maneira. “Na verdade, nunca tinha feito nada assim. Nenhum dos meus filmes tem sátira, e estou muito encantado com isso. Gostaria de fazer outros”.

O grotesco também pode ser humano

Uma das decisões mais interessantes de Rosebush Pruning é não reduzir seus personagens a figuras simplesmente detestáveis. Embora sejam grotescos em muitos momentos, os irmãos também aparecem como pessoas marcadas por uma vida de isolamento, controle e abuso.

Essa ambiguidade afasta o longa de uma crítica ao privilégio que se limitaria a condenar a riqueza e a futilidade de seus protagonistas. O filme expõe a superficialidade de suas escolhas, mas também investiga as consequências de uma estrutura familiar que impediu o desenvolvimento emocional dos filhos.

Para Aïnouz, essa proximidade com os personagens era fundamental para que a sátira funcionasse. “Acho que existem jeitos e jeitos de fazer sátira. Há uma maneira clássica de fazer sátira em que você mantém distância dos personagens. Eles estão ali, você olha para eles de longe”.

O diretor optou por outra abordagem, permitindo que o público acompanhasse as contradições e fragilidades dos irmãos. “Aqui, para mim, era muito importante que estivéssemos com eles. O filme brinca um pouco com isso: é sátira, mas também tem certo realismo psicológico. Esses personagens existem. Para mim, isso era muito importante”.

A humanização não significa absolver os personagens de suas atitudes, mas compreender que a violência que atravessa a família não surgiu do nada.

Muita gente diz que esses personagens são horrorosos. Eu não acho. Acho que são personagens fraturados. É um povo todo quebrado, porque o que esse pai fez com a família é igual ao que alguns presidentes fazem com alguns países. As pessoas estão fraturadas. Karim Aïnouz - Cineasta

Anna, por exemplo, é uma mulher de pouco mais de 30 anos que parece ter permanecido emocionalmente presa à infância. Aïnouz aponta o isolamento como um dos elementos centrais para compreender essa condição.

“Você vê, por exemplo, a própria Anna, a filha. É uma personagem que parece ter 12 anos, mas está tão isolada ali. É uma mulher de 30 e poucos anos que parece uma criança. São personagens que foram distorcidos por viverem em uma situação de isolamento, opressão e domínio, que é o que acontece dentro daquela casa”, disse.

A escolha de se aproximar dessas figuras também se manifestou durante a montagem. O diretor conta que uma pessoa convidada para trabalhar na edição recusou o projeto por considerar os personagens repulsivos.

Lembro que, quando estávamos montando a equipe, havia uma pessoa que queríamos chamar para fazer a edição. Ela disse: ‘Não, não posso, Karim. Esse filme aqui eu não consigo, esses personagens são horrorosos’. Eu falei: ‘Hum, eu não acho eles horrorosos. Acho esses personagens muito comoventes’, claro, com exceção do pai. Karim Aïnouz - Cineasta

Essa perspectiva abre espaço para pequenos gestos de afeto em meio à brutalidade. A mãe, por exemplo, representa a possibilidade de romper com uma estrutura opressora e reconstruir a própria vida. “Acho que existem coisas muito lindas no filme. Apesar de ser uma história muito perversa e dolorida, acho tão bonita a mãe que rompe com tudo e vai construir uma vida para si mesma”.

Outro momento importante envolve um dos irmãos, que tenta salvar Jack dos abusos cometidos pelo pai. “Também acho muito bonito o personagem de um dos irmãos, que pensa: ‘Meu irmão mais velho está sofrendo um abuso gigantesco do meu pai. Vou salvá-lo, vou me sacrificar para salvar esse cara’”.

São essas pequenas insurreições que impedem o filme de se entregar completamente ao niilismo. Mesmo em uma família atravessada pela violência, há tentativas de cuidado, sacrifício e libertação.

Existem pequenos atos de amor entre esses personagens que me comovem. Jamais diria, com exceção do pai, que são personagens de quem você necessariamente gosta. Às vezes, são grotescos, mas acho importante entender que eles não nasceram assim. Karim Aïnouz - Cineasta

A atualidade de uma história sobre monstros e poder

Embora Rosebush Pruning tenha começado a ser concebido durante a pandemia, o filme chega ao Brasil em um momento de intensas tensões políticas. A concentração de renda, o isolamento social e as estruturas de poder que sustentam os privilégios atravessam a narrativa, que encontra paralelos inquietantes com o mundo contemporâneo.

Aïnouz, porém, destaca que a relação entre a obra e a realidade nem sempre nasce de uma intenção consciente do cineasta. “Na verdade, é curioso. O cinema tem uma coisa quase metafísica: às vezes, está falando do nosso tempo sem necessariamente ter planejado falar do nosso tempo”.

O diretor conta que começou a pensar no projeto diante das transformações provocadas pela pandemia e das questões que emergiam naquele período. “Esse é um filme que comecei a pensar durante a pandemia. Eu falava: ‘Gente, o que está acontecendo com o mundo?’. E não era só no sentido da pandemia, mas também da concentração de renda, do isolamento, de uma ideia de mundo que estava ali e que eu já não entendia muito bem”.

O intervalo entre a concepção e o lançamento acabou conferindo novos significados à obra. Ao chegar ao Brasil, a história passou a dialogar com uma realidade política que, segundo o cineasta, tornou essa aproximação especialmente marcante.

“Acho curioso como esse filme foi pensado naquela época e está sendo lançado no Brasil em um momento muito assombroso da nossa história. Foi muito maluco quando estreou no Festival do Rio. Fiz uma fala antes e disse: ‘Gente, esse filme está estreando na véspera da eleição mais importante da história do Brasil até hoje’”, disse o cineasta.

Sem transformar a narrativa em um comentário político direto, Aïnouz defende a capacidade do cinema de abordar questões complexas por meio de imagens, personagens e conflitos. “Sem querer entrar aqui em questões políticas diretas, acho muito interessante como esse filme fala. O cinema é bonito porque não fala frontalmente”.

Elle Fanning e Jamie Bell em Rosebush Pruning
Elle Fanning e Jamie Bell em Rosebush Pruning - Foto: Divulgação

A metáfora central da produção está na figura do pai, cuja autoridade destrói progressivamente a família. Para o diretor, a história ultrapassa a noção de uma família simplesmente disfuncional.

“Mas, falando do filme em si, ele é sobre um grande monstro, que é esse pai, que destrói essa família de maneira quase irreversível. O que ele faz com esses filhos? As pessoas dizem: ‘Ah, é um filho de uma família disfuncional’. Eu falei: ‘Não, toda família é disfuncional’. É um filme sobre personagens fraturados por um pai monstruoso”, afirmou o diretor.

A associação entre a dinâmica doméstica e as estruturas de poder também aparece na maneira como o filme representa as consequências da opressão. O que acontece dentro daquela casa não permanece restrito ao ambiente familiar: a violência exercida por quem concentra o poder afeta todos os que vivem sob sua autoridade.

Nesse sentido, acho bonito quando o cinema começa a conversar com o real sem necessariamente ter planejado fazer isso. Fico muito emocionado com o filme chegando ao Brasil exatamente neste momento em que estamos prestes a ser — torcendo para que não — talvez liderados por monstros. Tomara que não seja isso que aconteça. Karim Aïnouz - Cineasta

Ainda assim, a produção não se limita à destruição. Aïnouz chama a atenção para os pequenos movimentos de resistência que surgem quando os personagens tentam escapar de suas condições.

“O filme é isso: uma família cujo líder é um monstro, que vai destruindo tudo o que está ao redor. Mas achei muito interessante também, quando o roteiro chegou às minhas mãos e comecei a trabalhar nele, perceber que fala de insurreições, de pequenas insurreições”.

Ele cita tanto a decisão da mãe de abandonar aquela estrutura quanto a tentativa de um dos filhos de proteger o irmão. “A mãe diz: ‘Não quero mais isso, vou sair fora’. O filho tenta salvar o irmão que está sendo abusado pelo pai. Então, existe também uma coisa de esperança que, acho, está sempre no nosso DNA, especificamente no dos brasileiros”.

Liberdade de experimentar com elenco internacional

Além da proposta estética, Rosebush Pruning se destaca pelo elenco, que reúne Jamie Bell, Callum Turner, Riley Keough, Lukas Gage, Elle Fanning, Tracy Letts e Pamela Anderson. A diversidade de intérpretes e a natureza artificial dos personagens exigiram uma abordagem que permitisse explorar diferentes tons de interpretação.

Aïnouz descreve o processo como uma experiência de descoberta conjunta. Em vez de determinar antecipadamente todas as nuances das cenas, o diretor procurou criar espaço para que os atores experimentassem possibilidades e encontrassem organicamente o tom de cada situação.

É como se eu estivesse em um trapézio, era muito arriscado, porque, por um lado, eles não eram personagens exatamente reais. Os personagens que vemos são metafóricos, são todos meio inventados. Mas a gente ia testando, ia descobrindo aos poucos. Karim Aïnouz - Cineasta

A surpresa era parte essencial da proposta. “Era muito importante que o filme fosse surpreendente. Acho que foi isso que fizemos na direção: tentamos não saber de antemão o que aconteceria. Queria que os personagens fossem descobrindo as coisas durante as cenas, que não soubessem de tudo e que fossem também irônicos em relação à maneira como estavam interpretando”.

O trabalho conjunto começou nos ensaios, que tiveram papel decisivo na construção das performances. “Foi algo que pesquisamos juntos, que experimentamos juntos nos ensaios. Ensaiamos muito, passamos bastante tempo tentando encontrar o tom das cenas. Os ensaios foram muito úteis para isso”.

Lukas Gage em Rosebush Pruning
Lukas Gage em Rosebush Pruning - Foto: Divulgação

O diretor também reconhece que a experiência representou uma mudança em sua própria maneira de conduzir um filme. Pela primeira vez, ele assumiu abertamente diante dos atores que não tinha todas as respostas.

“Foi uma busca. É a primeira vez que dirijo um filme em que digo aos atores: ‘Não sei exatamente aonde estamos indo. Vamos tentar aqui, vamos tentar ali e entender organicamente como as coisas funcionam’”, disse.

Uma cena envolvendo Martha ajuda a ilustrar o método. Ao falar sobre a morte de seu cachorro, a personagem relaciona a perda ao sofrimento provocado pelo pai e sugere que um acontecimento no filme pode representar uma libertação para o namorado.

A reação de Jamie Bell foi explorada em diferentes versões, cada uma com um grau distinto de sinceridade e artificialidade. “Quando o Jamie Bell estava fazendo a cena, foi engraçado. Ele fez uma versão chorando de verdade, outra chorando de mentira e uma terceira chorando de maneira muito falsa. Então, estávamos sempre brincando com essa ideia de que o que vemos não é exatamente a verdade. O que vemos tem sempre um grau de artificialidade. Fomos experimentando isso cena a cena”.

A estratégia contribui para a atmosfera de Rosebush Pruning, em que as emoções nem sempre se manifestam de maneira previsível. O exagero, a ironia e a artificialidade fazem parte de um universo no qual os personagens parecem encenar a própria existência, sem conseguir escapar completamente da violência que os moldou.

Método de Karim Aïnouz além das fronteiras

Apesar de trabalhar com estrelas internacionais e em uma produção de língua inglesa, o diretor procurou preservar o método que desenvolveu ao longo de mais de duas décadas de carreira. A experiência, segundo ele, não exigiu abandonar a maneira de construir relações com os atores.

“Tenho um jeito de trabalhar que funciona em qualquer lugar do mundo. Tanto que levei muito tempo para querer fazer filmes fora do Brasil, porque acho que, aqui, tenho uma espécie de método de trabalho que dá certo, que tem dado certo e de que as pessoas gostam”, inicia.

Um dos principais desafios foi conciliar as agendas de um elenco internacionalmente requisitado. Para garantir a concentração necessária, Aïnouz estabeleceu condições que considera fundamentais para a realização do longa.

“O complicado, quando você filma com atores muito conhecidos, é que eles têm agendas muito difíceis, inclusive internacionalmente. Você está filmando com um, e ele precisa ir não sei para onde, fazer não sei o quê”, afirma.

“Então, minhas condições eram muito simples: não dava para fazer nenhum outro filme enquanto estivéssemos fazendo esse. Era preciso ter concentração total. Caso contrário, você acaba fazendo dois dias de uma série aqui, três dias de um filme ali e mais três dias de Rosebush Pruning”.

A intenção era construir uma dinâmica coletiva que aproximasse o elenco da própria família retratada na história, sem perder de vista a importância da preparação.

Queria que tivéssemos a sensação de que éramos uma família, como a que aparece no filme, de que estávamos juntos como um conjunto de atores e diretor fazendo uma obra. Era muito importante que houvesse concentração e dedicação exclusiva. Karim Aïnouz - Cineasta

Os ensaios foram outra exigência importante, especialmente em uma produção com intérpretes acostumados a trabalhar em grandes projetos internacionais. Esse cuidado também é perceptível no resultado final, em que as performances exploram nuances, alternam entre o exagero e a vulnerabilidade e contribuem para tornar os personagens humanos.

“Outra coisa fundamental era ter tempo para os ensaios. Isso normalmente não é exatamente a maneira como são feitos os filmes em língua inglesa com atores tão conhecidos, mas tentei garantir que meu método de trabalho continuasse o mesmo, não importasse onde estivéssemos”, disse.

O resultado, segundo o cineasta, foi positivo para todos os envolvidos. “Foi muito legal. Acho que eles também adoraram, porque é raro que, em um filme desse tamanho, os atores possam ensaiar, duvidar e brincar um pouco para descobrir como construir uma cena”.

Um filme que abraça o desconforto

A recepção inicial da crítica a Rosebush Pruning foi marcada por divisões, como costuma acontecer com produções que desafiam expectativas e abordam temas delicados por caminhos pouco convencionais. A avaliação inicial no Rotten Tomatoes também não refletiu, até o momento, o entusiasmo que o longa pode despertar em quem procura experiências cinematográficas menos previsíveis.

É justamente nessa disposição para provocar que está parte da força do filme. A comparação com Saltburn (2023), de Emerald Fennell, é inevitável pela crítica ao privilégio, pelo gosto pelo escandaloso e pela presença de situações extremas. Mas, enquanto o filme britânico frequentemente distancia o público de seus personagens, Aïnouz aposta em uma aproximação mais ambígua, que combina repulsa, humor e identificação.

A influência de Efthimis Filippou também pode levar a comparações com a filmografia de Yorgos Lanthimos. Entretanto, o diretor brasileiro imprime ao roteiro uma exuberância visual e uma sensibilidade que fazem de Rosebush Pruning uma obra com personalidade própria.

O filme alterna comédia, drama e suspense, mas mantém a sátira como fio condutor. Sua beleza visual contrasta com temas pesados, enquanto o grotesco convive com gestos de afeto. Ao provocar risos desconfortáveis e recusar respostas fáceis, o longa transforma o próprio desconforto em parte da experiência.

A ousadia de Rosebush Pruning pode, inclusive, fazer com que o longa seja reavaliado de maneira mais generosa nos próximos anos. A rejeição inicial a filmes provocadores nem sempre resiste ao tempo, especialmente quando se trata de obras que apostam em uma linguagem visual marcante e se recusam a reproduzir fórmulas conhecidas.

O mesmo debate pode ser observado em Digger, de Alejandro González Iñárritu, outro lançamento de 2026 que despertou discussões sobre suas escolhas estéticas e narrativas. Em ambos os casos, vale perguntar até que ponto a busca por novidades no cinema é acompanhada pela disposição de aceitar histórias que abordam questões incômodas de maneiras inesperadas, especialmente quando expõem problemas que acontecem no mundo real, mas que muitos preferem manter escondidos e longe dos olhos da sociedade.

Em um cenário no qual a repetição de fórmulas se tornou frequente, a capacidade de surpreender permanece um dos atributos mais valiosos de um filme. Rosebush Pruning não é uma experiência confortável, nem pretende ser. Sua provocação está tanto no que mostra quanto na maneira como escolhe mostrar.

Com cores fortes, fotografia impressionante, performances que transitam entre o cruel e o comovente e uma narrativa que não tem medo de exagerar, Karim Aïnouz reafirma a força de um cinema disposto a correr riscos. O diretor transforma uma história absurdamente perversa em um retrato cheio de nuances, no qual os personagens são capazes de despertar repulsa e compaixão quase ao mesmo tempo.

Mais do que condenar os privilégios, Rosebush Pruning investiga as estruturas que os sustentam e as marcas deixadas por quem exerce o poder sem limites. É uma sátira sombria, visualmente deslumbrante e provocadora que encontra justamente na inquietação sua maior qualidade, e que oferece um necessário respiro em meio a um cinema contemporâneo que nem sempre parece disposto a fugir do óbvio.

Veja o trailer!

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