CINEMA NACIONAL
Ex-colegas revelam: como o jovem Wagner Moura da Facom virou estrela de cinema
Formação em jornalismo dialoga com o professor vivido no novo filme de Kleber Mendonça Filho

Por Beatriz Santos

Neste domingo, 11, todos os olhares do mundo se voltam ao cinema nacional com as indicações de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, ao Globo de Ouro. O longa concorre em três categorias: Melhor Filme de Drama, Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, para o baiano Wagner Moura.
Antes de se tornar um dos atores brasileiros mais reconhecidos internacionalmente, Wagner foi estudante de jornalismo da Universidade Federal da Bahia, na Faculdade de Comunicação (Facom). Ele, inclusive, credita a sua carreira profissional, em parte, à sua experiência universitária. Em meados da década de 1990, a Cantina de Vovô, na Facom, era frequentada por nomes como o escritor e ex-deputado federal Jean Wyllys, o cineasta Sérgio Machado, que depois dirigiria Wagner no filme Cidade Baixa, a cineasta Liliane Mutti, a fotógrafa Sandra Delgado – companheira de Wagner – o cineasta Lula Oliveira e a dramaturga Manuela Dias, autora da versão atual da novela Vale Tudo.
A passagem pela universidade pública, marcada por debates políticos, cultura e vivências coletivas, também é apontada por ex-colegas como decisiva para a formação humana e artística do ator, e ajuda a compreender camadas do personagem que ele interpreta em O Agente Secreto, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme se passa no Brasil de 1977 e acompanha Marcelo, um professor universitário especializado em tecnologia que tenta reconstruir a vida em Recife enquanto é atravessado por vigilância, violência e tensões políticas em plena ditadura.
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O longa já soma mais de 30 prêmios na atual temporada pré-Oscar, consolidando-se como um dos títulos brasileiros mais celebrados do período.
Para ex-colegas de faculdade, a construção desse personagem dialoga diretamente com a trajetória de Moura na Facom, na qual a mesma turma ainda vê no ator traços preservados daquele jovem universitário.
“Sempre soube o que queria”

Jornalista e ex-colega de Wagner na Facom, Flávio Oliveira descreve o ator na época da universidade. “Um jovem universitário, que sempre soube o que queria, muito dedicado a seus sonhos, carismático, amigo, engraçado, inteligente e leitor voraz".
Segundo ele, o humor era um dos traços mais marcantes, mas não o único. “Era reconhecido pelo humor, com certeza, mas também pela abertura e disposição em ajudar os amigos, pela inteligência, pela bagagem cultural bem acima da média, pela curiosidade intelectual e paixão pelo conhecimento",
Esse espírito inquieto se refletia até mesmo nas aulas práticas. Flávio relembra um episódio que, para ele, revela um traço central da personalidade de Wagner. “Éramos colegas do curso de Fotografia. Eu gostava de fotografar monumentos e natureza. Ele reclamava, dizia que as fotos sempre tinham de ter um elemento humano, e sempre em primeiro lugar", afirmou.
"O episódio certamente reflete não só uma preocupação estética, mas também o seu humanismo, a sua preocupação com o ser humano, que ficou mais forte com o passar dos anos”, completa.
A Facom como ponto de partida
Também ex-colega de Wagner, Jussilene Santana amplia o retrato daquele período e destaca como jornalismo e teatro se cruzavam na rotina do ator e afirma que ele é um amigo querido. “Fomos colegas na Facom, colegas do teatro, colegas na vida, colegas na luta dessas duas profissões que não são fáceis".
Ela lembra que Wagner se formou em 2000 e seguiu rapidamente para o Rio de Janeiro, enquanto ela permaneceu em Salvador por mais alguns anos. Nesse percurso, uma figura é central na trajetória do ator: Sandra Delgado, fotógrafa, esposa de Wagner e também egressa da Facom.
“Minha grande amiga, colega do Programa Especial de Treinamento, que é esposa dele, fotógrafa, parceira de projetos, de ideias, e que não pode faltar nessa trajetória de vida, é a Sandra Delgado. Sandra é uma grande parceira, de cumplicidade criativa”, disse.
Segundo Jussilene, desde cedo Wagner tinha clareza de seus objetivos. “Wagner sempre me pareceu um cara muito focado, muito objetivo. Ele me parecia um cara que pisava na Facom querendo ser ator de cinema".
"Por onde a gente andava, jornalismo e teatro viviam muito próximos. O pessoal de cinema e de teatro andava muito pensando as mesmas coisas e trocando ideias. E ele fazia teatro, ensaiava até tarde e chegava com sono", completa.
Ela contextualiza esse desejo dentro de um momento específico da universidade. “A Facom dos anos 90 era um polo do audiovisual. E isso estava começando no Norte e no Nordeste. Era uma onda muito frágil, que não estava acontecendo em lugar nenhum. E eles pegaram esse balão enchendo, essa onda surgindo, e se inflaram, fizeram com que a coisa toda surgisse para o Brasil. Foi muito lindo ver".

Do jornalismo ao cinema político
Para Jussilene, a dimensão política da universidade pública foi determinante na formação de Wagner, e ajuda a compreender personagens como o professor de O Agente Secreto.
“Eu acho que Wagner sempre teve uma consciência social muito grande. Participando da universidade pública, ele sempre esteve envolvido com as questões da consciência. Ele sempre esteve envolvido com as instituições sociais e, dentro da universidade pública, não poderia se afastar delas”, afirma a jornalista.
Ela lembra que esse ambiente atravessava as salas de aula. “Os nossos professores sempre foram pessoas de esquerda, ligadas a movimentos sociais, pessoas com consciência de classe. Então eram pessoas que colocavam em sala problematizações sobre o mundo. E todos nós ouvíamos".
Esse caldo político não passou despercebido pelo ator. “Ele não escapava a esse movimento. E muitos dos nossos colegas foram até para a política partidária, entraram para partidos e se elegeram. Então Wagner acompanhou tudo isso, e nós todos acompanhamos tudo isso".
A formação em jornalismo não ficou restrita à universidade. Entre 2000 e 2002, Wagner Moura chegou a atuar como repórter no programa Michelle Marie Entrevista, exibido pela TV Bahia.
Em entrevista à The Hollywood Reporter em 2024, ele afirmou que o contato com o jornalismo e com amigos da profissão foi fundamental para trabalhos recentes, como Guerra Civil, de Alex Garland, em que interpreta um jornalista em zona de conflito.
Diante disso, não é difícil traçar paralelos com O Agente Secreto. Professor universitário perseguido durante a ditadura, Marcelo carrega inquietações, senso crítico e um olhar político que ecoam a vivência de Wagner na universidade pública.
Como afirma Jussilene, “a Facom dá uma visão privilegiada desse mundo político e desse mundo político-partidário que acontece no Brasil dos últimos 20 anos, que passa pela política e pela cultura também, pela política cultural e pela cultura política do país".
O humor, a música e o vídeo que virou símbolo
Entre os registros mais curiosos da época de faculdade está um vídeo em que Wagner aparece cantando 'I Will Survive' nos corredores da Facom, gravação que anos depois se tornou viral e passou a simbolizar o lado mais performático do ator. Para Flávio, aquilo não foi exceção.
Questionado sobre situações inusitadas, ele desconversa com a ironia de quem viveu intensamente o ambiente universitário: “Você fez Facom? Se fez, sabe que o que acontece na Facom fica na Facom”.
Ainda assim, ele ressalta que, apesar da projeção internacional, pouca coisa mudou. “Para mim, ele continua sendo o mesmo Wagner que era na faculdade. As mesmas brincadeiras, piadas, músicas.”
A percepção é compartilhada por Jussilene, que destaca que esse lado performático sempre esteve presente, mas de forma íntima e restrita ao círculo de amizades. “Bom humor sempre, uma gargalhada, uma alegria. O lado performático, brincalhão dele era sempre comum, mas entre os amigos. Ele não era uma coisa geral, sabe, para todo mundo. Era uma coisa mais fechada para os amigos dele".
Veja o vídeo:
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