ESTREIA
Filme perturbador usa o terror corporal para falar sobre epidemia de Aids
Novo filme choca com terror corporal, mas perde o fôlego na reta final
Em 2021, quem acompanhava o Festival de Cannes foi surpreendido com a vitória da Palma de Ouro para Titane, um filme de horror fora dos padrões, dirigido por uma jovem realizadora em apenas seu segundo longa-metragem. Mas foi o suficiente para que Julia Ducournau imprimisse uma marca autoral que permanece acesa no seu filme mais recente, Alpha, já em cartaz nos cinemas.
O longa conta a história da personagem título (vivida por Mélissa Boros), uma adolescente que volta de uma festa regada a muito álcool e drogas com uma tatuagem marcada no braço, feita sem o seu consentimento. A letra “A” estampada na pele poderia identificar a inicial de seu nome, mas ela passa a sofrer a rejeição dos próprios colegas de escola.
Isso porque vive-se naquele momento uma paranoia em torno de uma doença misteriosa que ainda está sendo investigada, mas que se sabe ser transmitida através de sangue contaminado – e a tatuagem de Alpha continua a sangrar. “Você sabe do vírus por aí, não?”, alerta uma enfermeira. As pessoas acometidas pela enfermidade veem seu corpo se petrificar, até se desgastar em poeira.
É evidente que Ducournau faz aqui uma alegoria para o surto de AIDS, iniciado nos anos 1980, muito embora o tempo narrativo do filme nunca seja definido. A analogia, porém, torna-se muito explícita a partir da debilitação do corpo dos infectados e pela crise na saúde pública diante do número crescente de casos.
A mãe de Alpha (interpretada por Golshifteh Farahani) é uma médica que enfrenta essa situação no hospital onde trabalha. Além do abandono dos familiares de muitos pacientes contaminados, ela testemunha as mudanças grotescas nos corpos dos doentes.
Por isso mesmo, ela se assusta e segue em alerta com a possibilidade da filha estar também infectada.
Outro personagem importante na trama é Amin (Tahar Rahim), tio de Alpha, irmão de sua mãe, um viciado em drogas injetáveis que retorna ao ambiente familiar depois de ter desaparecido do lar – a ponto de Alpha sequer se lembrar dele, apesar de terem passado por um episódio emblemático quando ela era criança.
A família, de origem árabe, representa um elo de desconexão da garota, que não entende muito bem o idioma da avó e suas conversas com a mãe, mas tenta se encontrar naquele universo.
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Corpo em farelos
O body horror é um subgênero do horror em que as mutilações, desfigurações e a deformidade do corpo humano são usadas como fonte de impacto visual. Aqui, Ducournau utiliza este recurso não com o propósito de provocar medo, antes como forma de traduzir o horror da doença que enfraquece e faz ruir o organismo, até o corpo virar pó.
De certo modo, ela faz uma analogia ao desaparecimento de tantas pessoas que passaram a enfrentar a doença em um momento em que não havia tratamento nem remédios paliativos. Alpha passa a viver sob a ameaça da morte, e o retorno do tio, cada vez mais fraco, mas ainda assim ligado ao vício, intensifica ainda mais essa relação.
Somam-se a isso os dilemas da adolescência que a garota enfrenta. Na escola, tem interesse por um colega de classe, também próximo a ela, mas o sexo torna-se um fator de risco nesse caso. A tatuagem que ela carrega no braço e insiste em sangrar afasta-a dos demais e a torna figura a ser evitada, o que gera uma série de conflitos no colégio.
É interessante notar como a cineasta usa esse horror corporal aqui em prol de um debate social, sem medo de parecer chocante. É uma imagem realmente forte essa de um corpo que endurece – como se se transmutasse em gesso ou pedra –, pesasse sobre a pessoa e fosse endurecendo todos os seus órgãos até o esfarelamento total.
A diretora segue criando um cinema que caminha no trilho do excesso, pela via da tempestade interior que nasce não apenas da intransigência juvenil, neste caso, mas também das mazelas do mundo. É um processo similar ao que ela fazia em Titane, em que a protagonista batia de frente com a figura paterna e via seu próprio corpo mudar a fim de se reinventar.
Em Alpha, as transformações do corpo se dão por outros motivos, mas também assinalam o fim de uma era – não à toa, as imagens finais do filme apontam para um mundo em catástrofe, consumido em poeira e tristeza.
Autoralidade
Apesar de construir uma alegoria eficiente, e em certa medida bastante original, para tratar de um tema já muito explorado no cinema e na TV, Ducournau nem sempre consegue manter no alto as energias do filme.
Nesse sentido, Alpha representa um embate narrativo muito emblemático: por um lado, reforça as marcas autorais de sua diretora; por outro, não deixa de demonstrar certo cansaço quando precisa sustentar os dilemas de seus personagens. Isso porque até metade do filme, a narrativa é muito eficiente em construir esse universo de paranoias sociais e embates familiares.
Mas a trama também se perde com alguns personagens que ficam pelo meio do caminho – caso do professor de Alpha, ele que tem um namorado também infectado, corroído pela dor da perda iminente. Ou então nas voltas em torno dos mesmos dilemas que se repetem na trajetória dos protagonistas.
Alpha, sua mãe e seu tio repetem as mesmas discussões, as mesmas problemáticas e brigas que não fazem avançar a trama.
Eles apenas existem com suas posições diante da epidemia e da maneira de enfrentá-la, e isso torna o filme um tanto enfadonho, à espera do seu desfecho.
E esse desfecho, sim, recupera a veia criativa de sua realizadora. Ducournau não pode fugir da melancolia e da tragédia que se anuncia na vida daquelas pessoas, mas desenvolve um elo entre eles que se fortalece enquanto necessidade de união diante das desgraças do mundo.
Alpha (Idem) / Dir.: Julia Ducournau / Com Tahar Rahim, Golshifteh Farahani, Mélissa Boros, Emma Mackey, Finnegan Oldfield, Louai El Amrousy, Marc Riso, Jean-Charles Clichet, François Rollin / Salas e horários: cinema.atarde.com.br