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CINEMA NACIONAL

Hollywood brasileira: cidade gastou milhões em filmes e foi abandonada

Cidade do interior paulista investiu milhões para virar polo do cinema nacional, atraiu estrelas e grandes produções

Beatriz Santos

Por Beatriz Santos

20/02/2026 - 13:30 h

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A cidade do interior de São Paulo chegou a ser chamada de “Hollywood brasileira”
A cidade do interior de São Paulo chegou a ser chamada de “Hollywood brasileira” -

Há cerca de 20 anos, Paulínia, no interior de São Paulo, apostou alto para se transformar em um dos principais centros do audiovisual brasileiro.

Com investimentos milionários, festivais estrelados e estúdios modernos, a cidade chegou a ser chamada de “Hollywood brasileira”, mas o projeto perdeu força após mudanças políticas e hoje grande parte da estrutura permanece abandonada.

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O sonho de criar uma potência do cinema

Nos anos 2000, o município iniciou um plano ambicioso para diversificar sua economia. O projeto começou de forma modesta, com exibições gratuitas de filmes em DVD e cursos livres de cinema e teatro. Em pouco tempo, surgiram mostras, palestras com diretores consagrados e, logo depois, grandes obras de infraestrutura.

Um antigo supermercado foi transformado em estúdio de cinema. Em frente à nova Prefeitura, um terreno de 12 mil m² recebeu um imponente cubo de vidro com seis pilares clássicos e um letreiro inspirado na Roma Antiga: “Theatro Municipal de Paulínia”.

Localizada a 20 km de Campinas e a 117 km da capital paulista, Paulínia possuía cerca de 80 mil habitantes na época, hoje são 116 mil.

Impulsionada pela Replan, maior refinaria de petróleo do Brasil em capacidade de processamento, a cidade acumulava um dos maiores PIBs per capita do país, superando inclusive 17 capitais brasileiras em termos absolutos.

Um teatro milionário e a promessa de futuro

Inaugurado em 2008, o teatro simbolizava o auge do projeto. O então prefeito Edson Moura defendia a necessidade de preparar o município para um futuro pós-petróleo por meio da economia criativa.

O investimento foi elevado: R$ 89 milhões apenas na construção do espaço, cerca de R$ 281 milhões em valores atuais, além de recursos destinados a estúdios, festivais, cursos e editais de financiamento audiovisual.

Na noite de inauguração, o clima contrastava com a rotina pacata da cidade. Estrelas do cinema e da televisão brasileira desfilaram pelo tapete vermelho, impressionadas com o espaço de 1.300 lugares e sistemas acústicos considerados entre os melhores da América Latina.

A mestre de cerimônias, Fernanda Montenegro, disse: “Ainda que possua igreja, hospital, saneamento, uma cidade sem teatro não é cidade. Paulínia é Paulínia a partir deste teatro”.

Quando Paulínia virou “Pauliwood”

O projeto rapidamente colocou o município no mapa do audiovisual nacional. Festivais anuais atraíam público e profissionais do setor, com filmes concorrendo ao Troféu Menina de Ouro e prêmios em dinheiro que, no primeiro ano, somaram R$ 650 mil distribuídos em 41 categorias.

Quatro estúdios de gravação e um grande estúdio de animação foram construídos, incentivando trabalhadores da área a se mudarem para a cidade. Editais públicos distribuíam recursos para produções, exigindo que parte significativa das filmagens e dos gastos acontecesse em Paulínia, movimentando a economia local.

O primeiro edital destinou R$ 9 milhões a dez projetos. O dinheiro vinha do Fundo Municipal de Cultura, abastecido por 1,5% da arrecadação de ISS e ICMS, que chegou a R$ 15 milhões anuais em 2009, valor equivalente ao orçamento atual de importantes políticas públicas do audiovisual.

Tapete vermelho e sessões lotadas

O auge do polo foi simbolizado em julho de 2011, durante o 4º Festival Paulínia de Cinema. A estreia do filme O Palhaço, dirigido e estrelado por Selton Mello e parcialmente gravado na cidade, provocou tumulto diante do teatro lotado.

Sessões extras precisaram ser abertas após a grande procura. “Estou colocando um filho no mundo”, disse Selton Mello ao Correio Popular de Campinas. “Foi a melhor sessão de cinema da minha vida.”

O entusiasmo era compartilhado por outros nomes do cinema brasileiro. “É chato dizer isto, mas a cidade, pela riqueza, não parece estar no Brasil. É outro país, um Brasil que deu certo”, disse o cineasta Fernando Meirelles. Já Rodrigo Santoro afirmou: “Acho que não existe um teatro igual a este no Brasil”.

Como o cinema movimentava a economia

O plano municipal era fazer o audiovisual girar a economia local. Produções envolviam centenas de profissionais, figurantes e serviços indiretos. O cadastro de figurantes chegou a reunir mais de 2 mil pessoas, restaurantes passaram a atender equipes de filmagem e até um hotel começou a ser construído para atender à nova demanda.

A lógica seguia modelos internacionais de fomento cultural, semelhantes a políticas adotadas em países que fortaleceram suas indústrias audiovisuais para competir com Hollywood, incluindo incentivos fiscais e exigências de produção local.

Mudanças políticas e o fim do projeto

Apesar do crescimento, parte da população questionava os resultados imediatos do investimento. Em 2012, o novo prefeito, José Pavan Jr., adversário político de Edson Moura, anunciou a suspensão dos editais e do festival, alegando custos elevados e priorização de áreas como saúde e educação.

A decisão gerou críticas nacionais e mobilizou cineastas e produtores que tentaram manter o festival com recursos privados, sem sucesso.

Entre 2009 e 2019, Paulínia viveu intensa instabilidade política, com 16 trocas de prefeitos marcadas por investigações, cassações e disputas judiciais. Tentativas de retomada ocorreram, mas foram breves. Em 2015, as políticas de cinema foram suspensas de forma definitiva.

O que restou da “Hollywood brasileira”

Hoje, quem visita Paulínia encontra vestígios do que poderia ter sido. O teatro permanece fechado desde a pandemia, com vidros quebrados, infiltrações e sinais de deterioração. Escolas de cinema desapareceram, e alguns prédios planejados para o complexo audiovisual foram transformados em delegacia e unidade do Poupatempo.

Os estúdios, mantidos pela empresa Quanta, seguem operacionais, mas enfrentam dificuldades para atrair produções. Segundo o sócio-diretor Hugo Gurgel, as instalações continuam em plena condição de uso.

O hotel pensado para atender às filmagens só ficou pronto em 2015, quando o boom cinematográfico já havia acabado.

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