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CRÍTICA

Vale o ingresso? Homem-Aranha 4 falha ao repetir a fórmula da Marvel

Quarto filme aposta em um novo começo para Peter Parker, mas sacrifica o desenvolvimento do herói

Beatriz Santos
Por
Cena de Homem-Aranha: Um Novo Dia
Cena de Homem-Aranha: Um Novo Dia - Foto: Divulgação

Depois do sucesso e do desfecho emocional de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, era natural esperar que Homem-Aranha: Um Novo Dia aproveitasse as consequências daquela história para construir uma narrativa mais intimista.

Pela primeira vez desde que ingressou no Universo Cinematográfico da Marvel, Peter Parker precisa reconstruir completamente sua vida. Sem amigos, sem família e sem que ninguém se lembre de sua verdadeira identidade, o personagem retorna ao ponto mais essencial de sua trajetória, vivendo sozinho em Nova York enquanto tenta conciliar a rotina com a responsabilidade de proteger a cidade.

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É uma premissa que recupera elementos clássicos das histórias do Homem-Aranha e que parecia oferecer ao personagem a oportunidade de amadurecer de forma mais consistente.

O isolamento, o sentimento de perda e a necessidade de encontrar um novo propósito poderiam resultar em um dos capítulos mais humanos da franquia protagonizada por Tom Holland. O filme, no entanto, abandona essa proposta logo nos primeiros momentos.

O roteiro rapidamente amplia sua escala e passa a dividir sua atenção entre novos personagens e conexões com outras produções da Marvel. Em vez de aprofundar o conflito de Peter Parker, a narrativa abre espaço para elementos que claramente servem mais à construção do futuro do MCU do que ao desenvolvimento do próprio longa.

Essa escolha acaba enfraquecendo justamente aquilo que fazia da premissa algo tão promissor. O filme nunca consegue decidir se pretende contar uma história sobre Peter Parker ou se deseja funcionar como mais uma peça dentro da enorme engrenagem narrativa da Marvel Studios.

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Um Peter Parker mais maduro, mas pouco transformado

Tom Holland entrega provavelmente sua atuação mais madura como Homem-Aranha, o que, por si só, não representa um grande avanço. Ainda assim, o ator demonstra empenho em transmitir o desgaste emocional de um personagem que perdeu praticamente tudo o que dava sentido à sua vida pessoal.

O Peter apresentado em Um Novo Dia já não possui o entusiasmo quase juvenil das produções anteriores e carrega uma melancolia que acompanha boa parte da narrativa. Ainda assim, essa evolução nunca se traduz em uma transformação significativa do personagem.

Apesar de o roteiro insistir na ideia de um Peter Parker transformado pelos acontecimentos recentes, suas atitudes, conflitos e até a forma como reage às situações permanecem muito próximas do que já havia sido apresentado nos filmes anteriores. O longa fala constantemente sobre amadurecimento, mas raramente consegue traduzir essa evolução de maneira convincente.

Entre o Homem-Aranha e a obrigação de expandir o MCU

Um dos maiores problemas de Homem-Aranha: Um Novo Dia está na dificuldade de funcionar como uma obra verdadeiramente independente. A impressão constante é que o filme existe menos para desenvolver seu protagonista e mais para reorganizar peças importantes do Universo Cinematográfico da Marvel.

Essa sensação se torna evidente na forma como novos personagens são apresentados. Diversas figuras importantes entram na narrativa sem uma construção que justifique sua relevância dramática, funcionando mais como promessas para futuras produções do que como peças fundamentais da história que está sendo contada.

Em vez de despertar curiosidade, muitas dessas introduções soam artificiais e excessivamente calculadas, reforçando a percepção de que o longa serve como preparação para acontecimentos posteriores.

Cena de Homem-Aranha: Um Novo Dia
Cena de Homem-Aranha: Um Novo Dia - Foto: Divulgação

O problema não está necessariamente na presença desses personagens, mas na forma como são incorporados ao roteiro. Em vários momentos, Peter Parker deixa de ocupar o centro da narrativa para dividir espaço com tramas paralelas que pouco acrescentam ao seu desenvolvimento. O resultado é um filme que frequentemente parece esquecer quem deveria ser seu verdadeiro protagonista.

Essa dependência das conexões com o restante do MCU também faz com que Um Novo Dia tenha dificuldade para construir uma identidade própria.

Enquanto Sem Volta Para Casa utilizava o fan service para fortalecer sua narrativa e explorar temas ligados ao legado e às consequências das escolhas do herói, o novo longa utiliza boa parte dessas conexões apenas como mecanismo para preparar o terreno para os próximos capítulos da franquia. A consequência é uma sensação constante de que a história nunca pertence inteiramente ao Homem-Aranha.

Ação grandiosa, mas sem o impacto de outras fases da franquia

Do ponto de vista técnico, Homem-Aranha: Um Novo Dia mantém o alto padrão de produção característico da Marvel Studios. As sequências de ação possuem grande escala, a movimentação do herói por Nova York continua sendo um dos aspectos mais divertidos da experiência e a direção de Destin Daniel Cretton consegue transmitir a velocidade e a agilidade que sempre fizeram do Homem-Aranha um dos personagens mais interessantes de acompanhar no cinema.

O espetáculo, no entanto, frequentemente esbarra em uma sensação de artificialidade. A dependência excessiva da computação gráfica compromete a fisicalidade dos confrontos e faz com que muitas sequências pareçam mais próximas da estética de um videogame do que de uma produção cinematográfica.

Embora o orçamento elevado esteja evidente na tela, a grandiosidade visual raramente se traduz em impacto dramático. Explosões, perseguições e confrontos impressionam pela escala, mas poucos permanecem na memória depois que a sessão termina.

Tom Holland como Homem-Aranha
Tom Holland como Homem-Aranha - Foto: Divulgação

A direção também exagera no uso da câmera lenta. O recurso é empregado com tanta frequência que perde sua função dramática e passa a comprometer a fluidez das cenas de ação. Em vez de valorizar momentos específicos, acaba tornando alguns confrontos desnecessariamente arrastados e reduzindo a intensidade de sequências que pediam um ritmo mais acelerado.

Ainda assim, o filme acerta ao explorar a geografia de Nova York. As perseguições por diferentes regiões da cidade e as tradicionais sequências de balanço entre os prédios reforçam a identidade urbana do personagem e resgatam a figura do "amigo da vizinhança", característica que parte do público sentia falta nas produções mais recentes.

Humor excessivo compromete os momentos mais importantes

O humor sempre foi uma das características mais marcantes da versão de Tom Holland como Homem-Aranha. Nos filmes anteriores, especialmente em De Volta ao Lar, esse tom descontraído dialogava com a juventude do protagonista e com a proposta mais leve da narrativa. Em Um Novo Dia, porém, essa fórmula chega claramente desgastada.

O roteiro parece incapaz de confiar na força dramática de suas próprias cenas e interrompe repetidamente momentos de maior carga emocional com piadas ou comentários espirituosos. O recurso, que antes ajudava a definir a personalidade do herói, passa a comprometer o ritmo da narrativa e impede que determinadas sequências tenham tempo suficiente para gerar impacto.

Como consequência, o filme evita assumir um tom mais sério mesmo quando sua própria história exige isso. Diálogos que poderiam aprofundar relações importantes acabam frequentemente substituídos por trocas de humor ou referências ao universo compartilhado da Marvel.

Embora algumas dessas piadas funcionem e provoquem boas risadas dentro do cinema, o excesso faz com que o longa pareça mais preocupado em preservar sua leveza do que em desenvolver seus personagens e seus conflitos.

Essa escolha parece dialogar também com as limitações do próprio Tom Holland. O ator continua carismático e convincente durante as cenas de ação, mas demonstra menos segurança quando o roteiro exige maior intensidade dramática. Não por acaso, as sequências mais sentimentais costumam ser interrompidas antes que a emoção consiga se estabelecer por completo, como se o próprio filme evitasse permanecer nesse registro por muito tempo, sugerindo uma certa falta de confiança na capacidade de Holland de sustentar esse tipo de cena.

Soma-se a isso uma interpretação que, em alguns momentos, soa excessivamente uniforme. Holland recorre repetidamente às mesmas expressões faciais para representar diferentes estados emocionais, reduzindo o impacto de cenas que discutem temas como luto, solidão e responsabilidade.

Uma narrativa que demora para engrenar

Outro aspecto que dificulta o envolvimento com a história é seu ritmo irregular. Apesar de partir de uma premissa bastante interessante, Homem-Aranha: Um Novo Dia demora a definir qual conflito realmente deseja desenvolver. A primeira metade alterna diferentes acontecimentos, apresenta novos personagens, introduz mistérios e distribui informações importantes, mas faz isso de maneira pouco orgânica, transmitindo uma constante sensação de dispersão.

O filme reúne ideias suficientes para sustentar mais de uma história, mas raramente aprofunda qualquer uma delas de forma satisfatória. Algumas subtramas surgem com potencial para enriquecer a jornada de Peter Parker, apenas para serem rapidamente abandonadas à medida que o roteiro precisa abrir espaço para novos acontecimentos.

Homem-Aranha 4: Um Novo Dia é uma das principais estreias de 2026
Homem-Aranha 4: Um Novo Dia é uma das principais estreias de 2026 - Foto: Divulgação

Essa dificuldade em estabelecer prioridades faz com que Homem-Aranha: Um Novo Dia pareça dividido entre diferentes objetivos. Ao mesmo tempo em que busca contar uma história sobre solidão, amadurecimento e responsabilidade, o longa também tenta expandir o universo compartilhado da Marvel, apresentar novos personagens e preparar acontecimentos que sequer pertencem a esta narrativa.

Quando tantas funções são concentradas em uma única produção, é inevitável que alguma delas fique pelo caminho. Nesse caso, quem mais perde é justamente Peter Parker, cuja jornada emocional raramente recebe o espaço necessário para alcançar todo o potencial sugerido pela premissa.

Vale a pena assistir?

Apesar das limitações, seria injusto afirmar que Homem-Aranha: Um Novo Dia deixa de funcionar como entretenimento. Quando concentra sua atenção em Peter Parker e nas consequências de Sem Volta Para Casa, o filme encontra seus melhores momentos e relembra por que o herói continua sendo uma das figuras mais populares da Marvel.

Ainda assim, fica a sensação de que havia potencial para muito mais. Em vez de transformar o isolamento do protagonista em um verdadeiro novo capítulo de sua trajetória, o longa prefere permanecer preso às necessidades de um universo compartilhado que já demonstra sinais de desgaste. Falta ousadia para romper com a fórmula e construir uma identidade própria. Também não apresenta ideias suficientemente novas para justificar o discurso de um grande recomeço, preferindo permanecer na zona de conforto construída pelo MCU ao longo dos últimos anos.

No fim das contas, Homem-Aranha: Um Novo Dia dificilmente ocupará um lugar entre os melhores filmes do personagem no cinema. Embora esteja longe do equilíbrio entre emoção, desenvolvimento e personalidade alcançado pela trilogia de Sam Raimi, o longa entrega uma experiência divertida para quem acompanha o herói e continua sendo uma boa opção para os fãs de super-heróis.

Não reinventa o personagem nem representa uma evolução marcante para Peter Parker, mas oferece entretenimento suficiente para justificar uma ida ao cinema, ainda que a impressão final seja a de um filme que poderia ter sido muito melhor.

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