CINEMA NACIONAL
Para a criançada: Amazônia vira palco de aventura em novo filme
Esta é a primeira adaptação live-action da obra de Flávia Lins e Silva

Por Beatriz Santos

A personagem Pilar, criada por Flávia Lins e Silva e conhecida de milhares de crianças brasileiras, ganhou as telas de cinema em O Diário de Pilar na Amazônia. O longa estreounesta quinta-feira, 15.
Primeira adaptação live-action da franquia literária, o filme leva a jovem exploradora para o coração da floresta amazônica em uma aventura que mistura fantasia, humor, folclore e uma mensagem clara sobre a urgência ambiental.
Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, a autora do livro e o diretor, Rodrigo Van Der Put, falaram sobre o processo criativo, os desafios da adaptação e as expectativas para o público infantil e familiar.
A decisão de ambientar a história na Amazônia não é recente, mas ganhou novos contornos diante do cenário ambiental atual. Segundo Flávia Lins e Silva, a relação com a floresta vem de longa data.
“Eu sou uma grande entusiasta da Amazônia. Já escrevi muitos livros ambientados lá. Pilar na Amazônia eu escrevi em 2011 e reescrevi em 2020, porque a questão ficou muito urgente".
A autora conta que o livro nasceu de uma experiência direta com o território amazônico, percorrido de forma lenta e atenta. “Quando fiz a primeira viagem para escrever esse livro, desci o Rio Amazonas no barco gaiola. Fui de Manaus a Santarém, Alter do Chão, Belém… tudo isso para escrever essa história. Eu queria que todo mundo se encantasse com a Amazônia, que tivesse vontade de visitar, que colocasse no radar e conhecesse a Amazônia".
Com o avanço do desmatamento, a narrativa precisou ser atualizada. “Quando reescrevi, foi porque ficou realmente muito urgente. O desmatamento não para, é algo que não é sustentável. As árvores demoram cem anos para crescer. Então, mudei um pouco a história para que fosse a Pilar contra uma turma de madeireiros que estava desmatando. E foi isso que a gente decidiu levar para o filme".
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Uma aventura brasileira no cinema
Dirigido por Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put, o longa foi produzido por Juliana Capelini e Renata Brandão, com roteiro assinado por Flávia Lins e Silva e João Costa Van Hombeeck. Para Van Der Put, assumir o projeto foi também um gesto afetivo e simbólico.

“Foi um grande presente poder contar essa história. Eu tinha lido o livro da Grécia, não tinha lido o da Amazônia, e fiz questão de ler o roteiro sem olhar as ilustrações”, disse.
O diretor destaca o caráter nacional da produção. “É uma aventura brasileira que se passa na Amazônia. E respeitando o Rodrigo Van Der Put de oito anos, que assistia Goonies, Indiana Jones, Os Garotos Perdidos — aventuras que eram americanas, mas que formaram a minha cinefilia — eu pensei: ‘que oportunidade incrível de contar uma história brasileira, que fala do nosso folclore, que acontece no nosso quintal’".
As gravações aconteceram em Belém, Alter do Chão (Santarém) e no Rio de Janeiro, reforçando a conexão do filme com a paisagem e a cultura amazônica. Para o diretor, era essencial estar fisicamente no território. “A Amazônia está aqui. Vamos lá filmar. Foi uma experiência inesquecível".
Flávia acompanhou a equipe durante as visitas às locações, algo que, segundo Van Der Put, foi decisivo para o longa. “Uma coisa que não é muito comum é que a Flávia viajou com a gente para ver as locações. Isso foi importantíssimo, porque ela dizia: ‘vamos botar o breu branco, vamos trazer isso aqui’".
A autora, por sua vez, reforça o fascínio constante pelo lugar. “A Amazônia é um mundo dentro do nosso mundo. Tem comidas muito especiais, como açaí, tambaqui, peixes incríveis, frutos que às vezes não chegam ao Sul e ao Sudeste. Tem o muiraquitã, as lendas, as histórias. É um lugar tão fascinante que, toda vez que vou à Amazônia, volto com um livro novo".
Do papel para a tela: desafios da adaptação
Transformar um universo já consagrado entre as crianças em cinema exigiu cuidado redobrado. “A gente brinca que precisava colocar no contrato seguranças para nos acompanhar, porque as crianças não querem tirar satisfação. É uma fanbase gigantesca, de várias idades. Então, tivemos essa responsabilidade e esse cuidado de adaptar como se forma o mundo da Pilar”, afirma Rodrigo Van Der Put.
Um dos desafios foi adaptar elementos imaginativos recorrentes nos livros. “Dentro da nossa realidade cinematográfica, tivemos que adaptar algumas coisas. A Flávia coloca o Samba em todo lugar. E a gente pensou: ‘meu Deus, não dá para esquecer que o Samba está ali do lado dela. Como vamos criar isso?’ Então pensamos: ‘o Samba vai pular para o bolso’, para conseguir escondê-lo um pouquinho".
Flávia aprovou as soluções encontradas. “Eu amei o bolso mágico que vocês fizeram. Saindo todas as coisas de dentro do bolso mágico… Minha filha ficou louca para saber como fizeram aquela cena dentro da rede, a Pilar girando. Está muito mágico, está maravilhoso".
Elenco, personagens e narrativa
O filme apresenta Lina Flor como Pilar, Miguel Soares como Breno, Sophia Ataíde como Maiara, ribeirinha que teve sua comunidade destruída, e Thúlio Naab como Bira, garoto da região. No elenco adulto estão Nanda Costa, Rocco Pitanga e Roberto Bomtempo, além dos vilões interpretados por Marcelo Adnet, Emílio Dantas, Rafael Saraiva e Babu Santana.

Segundo Van Der Put, a fidelidade ao universo original também aparece nos detalhes. “É uma pressão muito grande, mas fizemos questão de colocar muitos easter eggs. O cenário está muito parecido, a roupa está igual. Tem uma linha que ela não leva na viagem, mas ela está ali, escondida no cantinho do cenário. Foi um prazer enorme recriar esse mundo e levá-lo para a tela.”
Para Flávia, mais do que ensinar, o filme busca provocar curiosidade e empatia.“Espero que elas se interessem pelo mundo, pelo outro, pelo diferente. Por outras culturas, outras comidas, outras formas de se alimentar, de estar no planeta, de se vestir.”
Ela reforça a importância da identificação cultural.
Essas histórias são todas nossas. A gente precisa trazê-las para perto, ouvir a floresta, estar mais na floresta. Espero que pais e filhos saiam com esse desejo de estar mais perto da natureza e de conhecer a Amazônia, que é um lugar muito, muito maravilhoso e encantador.
Rodrigo Van Der Put destaca a recepção do público infantil. “Na Amazônia, acho que o mérito do filme é envolver as crianças. Elas entram no filme e saem com a mensagem, sem que isso seja jogado nelas, mas de forma orgânica".
Inclusive, há possibilidade de novas adaptações já está no horizonte.
Vontade é o que não falta. Inclusive, tem um pequeno spoiler no final que já aponta para esse universo. Mas tudo depende do sucesso do filme no cinema.
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