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Quando Orlando (re)encontrou Conceição

O amor dentro e fora da câmera: uma homenagem à vida e obra de Orlando Senna

João Paulo Barreto | Especial A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE
A inesquecível história de Orlando e Conceição Senna
A inesquecível história de Orlando e Conceição Senna - Foto: Divulgação

Com a passagem de Orlando Senna na última ter-feira, 9, aos 86 anos de idade, uma lembrança de suas próprias palavras em uma das entrevistas concedidas a esse escriba foi inevitável. Na conversa de 2022, Orlando conversava sobre O Amor Dentro da Câmera, documentário de Lara Beck e Jamile Fortunato que foi lançado no ano anterior. No papo, o co-diretor de Iracema - Uma Transa Amazônica (1975) e Diamante Bruto (1977), falava sobre a perda de sua parceira de vida, Conceição Senna, que o deixara dois anos antes, e sobre a certeza que teve, ao conhecê-la ainda na juventude, que ela seria, de fato, a sua parceira em uma longa e proveitosa vida.

“Foi na hora. Eu tinha feito vestibular e estava com a cabeça raspada por causa de um trote. Lembro que peguei um ônibus em Salvador e lá dentro estavam uns amigos, uns colegas de cursinho fazendo algazarra. No fundo do ônibus tinha aglomeração desses colegas. Fui até lá e eles estavam conversando com Conceição. Eram colegas conhecidos dela. Pessoas do interior, da cidade dela, que estavam chegando a Salvador. Ela, inclusive, também estava chegando. Fomos apresentados e foi neste momento que eu soube. A gente se deu as mãos e ficamos nos olhando, como se estivéssemos 'bobando'. Causamos uma impressão muito forte um no outro. Eu, a partir daí, fiquei obcecado”, relembrou Orlando, frisando, também, que logo aquela paixão avassaladora cedera lugar ao pânico.

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“Logo depois aconteceu uma coisa que me obcecou ainda mais: a ausência dela. Eu não a vi mais nesse ônibus, que era um que nós dois costumávamos pegar diariamente para ir pra casa. Perguntei aos colegas, mas eles não sabiam. Apenas me disseram que, possivelmente, ela havia voltado para o interior. Na minha cabeça, ela tinha voltado para lá e nunca mais viria a Salvador e eu nunca mais iria vê-la. E foi um tempo que levou. Umas duas semanas muito fortes em relação a isso. Algo relacionado à perda. E isso já levando para um lado, assim, definitivo, louco”, comparou Orlando, exibindo um brilho nos olhos, ao falar de Conceição.

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A angústia de rever a garota por quem seu coração foi arrebatado, ainda bem, não durou muito tempo. “Eu acabei a reencontrando de novo no ônibus. Mas aí já foi outro tipo de coisa. Foi como se eu suspirasse. Como se eu tivesse um alívio: ‘Aqui está ela! Ela não desapareceu. Não foi embora para sempre’. Mas foi essa sensação maluca que eu tive. Como se ela tivesse sumido e nunca mais fosse vê-la. Algo que trouxe uma confusão emocional enorme ao pensar que eu a tinha perdido. Ela contava sobre esse nosso segundo encontro de outra maneira. Eu não me lembro exatamente como foi”, pontuou o cineasta, utilizando uma proposta analítica típica de quem viveu pelo cinema quase toda a vida.

“Montar a cena desse momento eu não conseguiria. Eu ia fazer uma ficção. Mas ela dizia que não foi nada disso. Que ela estava sentada, veio o cobrador do ônibus, que passou por ela, mas ela apresentou o dinheiro. Ele disse: ‘não precisa. Aquele menino já pagou o seu’. E aí ela começou a brincar com isso. Toda vez que a gente se encontrava nesse ônibus... Na verdade, nem era um ônibus. Era algo pequeno. Tinha um nome para isso em Salvador. Algo tipo uma ‘marinete’. Não sei se você conhece essa palavra. É um ônibus pequeno. Era algo para ver quem pagava a passagem do outro primeiro”, explicou ao falar sobre esses primeiros momentos ao lado daquela que viria a ser a pessoa que o acompanharia.

Tempo, tempo, tempo

Na ocasião dessa conversa, há quatro anos, Orlando falou sobre a longevidade da vida e de seu relacionamento com o ato de envelhecer. “Eu senti e sinto isso, essa relação com o tempo, essa relação com a longevidade, da maneira mais natural possível. De vez em quando, eu penso na longevidade. Às vezes, eu me assusto com a longevidade. Eu me assusto na brincadeira comigo mesmo. Mas o fato de estar vivendo um tempo tão longo, não me causa medo, não me causa espanto, me causa só isso de às vezes até achar engraçado. Tem um lado muito incrível, que as coisas e as pessoas vão desaparecendo. Eu sinto muito que estou vendo o final do século XX. Que ainda é o final do século XX. Isso porque pessoas do século XX ainda se dão comigo. A gente ainda conversa, a gente é amigo. Também tenho amigos velhos. Mais velhos do que eu. Parece incrível que se tenha”, pontuou Orlando entre sorrisos e sem se preocupar em transparecer seu senso de humor.

“Isso me lembra uma anedota do Austregésilo de Athayde, grande escritor que foi presidente da Academia Brasileira de Letras por trinta anos ou mais. Ele dizia que não ia a enterros porque se fosse se dedicar a ir aos enterros dos amigos, não faria outra coisa na vida. É isso. Nós que temos mais de 80 anos, também vemos a vida com essa coisa de brincadeira. Isso é uma piada do velho Austregésilo, evidentemente. Mas o único lado doloroso é essa perda constante”, explicou o diretor.

“A partir dos 65, dos 70 anos, essas perdas se aceleram. Mas fora isso, esse dado de perder amigos, de perder coisas, de perder lugares, você só percebe após os setenta anos. E tem outras percepções, também. Na verdade, você só vê o correr da vida, a vida passar de verdade, você sentir que ela está passando, a partir dos 60. Tem alguns velhos que dizem que começaram a ver a vida passando aos 40. Não é verdade. 'A vida recomeça aos 40 anos'. Também não é verdade. Ela passa e a gente a vê passando”, cravou Orlando em sua fala.

Relembrando essa conversa, é confortável pensar em Orlando reencontrando Conceição Senna em alguma marinete cósmica após seis anos separados e perceberem que apenas alguns dias se passaram.

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Orlando Senna

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