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DIA DO CINEMA BRASILEIRO

Streaming e preguiça cultural: estamos matando o cinema brasileiro de fome?

Cinema nacional acumula prêmios no exterior, mas ainda luta para conquistar visibilidade em casa

Beatriz Santos
Por
Cena de Ainda Estou Aqui, que trouxe o primeiro Oscar da história do país
Cena de Ainda Estou Aqui, que trouxe o primeiro Oscar da história do país - Foto: Divulgação
O cinema brasileiro vive um de seus momentos mais vitoriosos no cenário internacional. Nos últimos anos, produções nacionais conquistaram o primeiro Oscar da história do país, levaram prêmios nos festivais de Cannes e Berlim e colocaram cineastas, atores e histórias brasileiras no centro das atenções mundiais.

Mas, enquanto o reconhecimento cresce fora das fronteiras, o cinema brasileiro ainda enfrenta um desafio histórico dentro do país: conquistar o público nacional.

A discussão ganha força justamente no Dia do Cinema Brasileiro, celebrado nesta sexta-feira, 19 de junho. A data faz referência às imagens registradas por Afonso Segreto em 1898 na Baía de Guanabara, marco considerado por muitos historiadores como o nascimento da produção cinematográfica no país.

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Mais de um século depois, a indústria nacional se consolidou artisticamente, formou gerações de realizadores e construiu uma filmografia reconhecida internacionalmente, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar prestígio em público.

Os números ajudam a ilustrar esse cenário. Dados da Ancine mostram que os cinemas brasileiros ultrapassaram R$ 1 bilhão em bilheteria até maio de 2026, registrando o melhor resultado desde a pandemia.

No entanto, entre os dez filmes de maior arrecadação do ano, apenas um é brasileiro: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. A lista é dominada por produções hollywoodianas que contam com campanhas milionárias de divulgação e ocupam grande parte das salas de exibição do país.

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Ao mesmo tempo, o cinema nacional vive um momento fértil de produção. Em 2025, o Brasil registrou recorde de investimentos públicos e lançou mais de 200 longas-metragens comercialmente. Apesar disso, mais da metade dessas produções não chegou sequer à marca de mil espectadores, evidenciando que produzir mais não significa necessariamente alcançar mais público.

Pesquisas também indicam que a resistência ao cinema brasileiro vai além de questões de mercado. Estudos apontam a existência de preconceitos historicamente construídos contra as produções nacionais, frequentemente associadas a estereótipos.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que problemas estruturais de distribuição, divulgação e acesso ajudam a manter muitos filmes invisíveis para grande parte da população.

Em entrevistas exclusivas ao Cineinsite A TARDE, críticos de cinema e profissionais do audiovisual apontam que o desafio envolve uma combinação de fatores: a concorrência desigual com Hollywood, o avanço das plataformas de streaming, a concentração das salas de exibição, a falta de investimentos em comunicação e a necessidade de formar novas gerações de espectadores.

Em meio a recordes, premiações e contradições, o Dia do Cinema Brasileiro se transforma também em um convite para discutir por que um cinema celebrado pelo mundo ainda encontra dificuldades para ser descoberto pelo próprio país.

O preconceito contra o cinema nacional ainda existe?

A dificuldade do cinema brasileiro em atrair grandes públicos não pode ser explicada apenas por fatores como distribuição ou concorrência com Hollywood. Para pesquisadores e profissionais do setor, ainda existe uma barreira cultural que antecede até mesmo a decisão de comprar um ingresso: o preconceito contra aquilo que é produzido no próprio país.

Esse fenômeno aparece em pesquisas recentes. O estudo A Invisibilidade do Cinema Brasileiro, desenvolvido pelo Centro Paula Souza em 2025, aponta que um terço dos brasileiros evita ou rejeita filmes nacionais, enquanto 19% afirmam nunca ter assistido a uma produção brasileira. O levantamento associa essa resistência à chamada "síndrome de vira-lata", conceito que descreve a tendência de valorizar produtos estrangeiros em detrimento das produções nacionais.

Além disso, o trabalho destaca que muitos espectadores ainda relacionam o cinema brasileiro a temas considerados repetitivos, como violência, pobreza e criminalidade, ignorando a diversidade de gêneros e narrativas produzidas atualmente.

Para o crítico de cinema João Paulo Barreto, membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), essa visão continua sendo um dos principais entraves para o fortalecimento do setor. “Infelizmente, a ignorância e o complexo de vira-lata que valoriza só o que vem de fora e difama o cinema brasileiro sem nem mesmo conhecê-lo ainda é um ponto que o prejudica muito.”

Segundo ele, essa resistência se manifesta inclusive quando produções nacionais alcançam reconhecimento internacional e sucesso de público. “Basta lembrar dos haters nas redes sociais falando mal do sucesso de O Agente Secreto e de Ainda Estou Aqui. E para piorar, ex-presidentes abrem a boca para falar mal publicamente de filmes bons como Bruna Surfistinha tudo no intuito de manter uma agenda política perante seus eleitores.”

Na avaliação do crítico, a questão ultrapassa o campo cinematográfico e revela uma dificuldade histórica de valorização da própria cultura brasileira. “Lembro-me da morte de Jean-Paul Belmondo, em 2021, e de como seu funeral foi comovente pela multidão de franceses em lágrimas, bem como atores e políticos que estiveram presentes para prestar uma última homenagem ao icônico ator da França.”

“Aquilo me impressionou porque, naquele ano de 2021, vi várias postagens de pessoas falando mal de atrizes como Fernanda Montenegro e de outros artistas por seus posicionamentos políticos. Esse comportamento delineia bem essa ideia de que o público brasileiro médio precisa aprender a valorizar o que temos como cultura”, completou.

Para o cineasta, diretor e roteirista baiano Pola Ribeiro, o preconceito contra o cinema brasileiro está diretamente ligado à formação histórica do país e não se restringe ao audiovisual.

Acredito que existe um preconceito historicamente construído contra aquilo que é brasileiro. As nossas histórias, a nossa cultura e tudo aquilo que é produzido pelo povo brasileiro são celebrados de certa forma, mas também carregam muito preconceito. É o preconceito contra o nordestino, contra a cultura popular e contra as nossas próprias histórias.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

Segundo ele, esse processo foi construído ao longo de séculos e continua influenciando a forma como parte da população enxerga a produção cultural nacional. “Então, há preconceito, sim. O Brasil é um país que foi colonizado de uma forma marcada por mais de 400 anos de escravidão e pela invasão dos territórios indígenas. Isso gera preconceitos que permanecem até hoje.”

Apesar disso, o diretor rejeita a ideia de que exista uma rejeição generalizada ao cinema brasileiro e lembra que o público já demonstrou diversas vezes interesse por histórias nacionais.

O cinema brasileiro é muito querido pelo povo, que acompanha nossas histórias na televisão e gosta das nossas novelas e dos nossos filmes. Mas o cinema brasileiro sempre viveu muitos ciclos. Houveram períodos mais comerciais, em que o próprio público brasileiro sustentou o cinema nacional.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

Para Rafael Carvalho, também crítico da Abraccine, o preconceito ainda existe, mas precisa ser analisado em conjunto com outras fragilidades da indústria audiovisual brasileira. “Eu acho que existem as duas coisas. Tem muita gente que segue rejeitando o cinema brasileiro, seja por um viés político ou por desinteresse.”

Ainda assim, ele acredita que o principal desafio é fazer com que o público descubra a diversidade existente na produção nacional. “O público brasileiro ainda precisa descobrir o cinema nacional. Existem momentos de maior destaque quando um filme fura a bolha e passa a ter um reconhecimento maior, mas esses são casos específicos.”

Precisamos caminhar muito para uma formação de público consistente que faça com que o brasileiro enxergue o cinema nacional como uma força produtiva de qualidade e diversidade.

Rafael Carvalho - Crítico de cinema

A percepção dos especialistas aponta que a resistência ao cinema brasileiro não nasce apenas da qualidade das obras ou da preferência individual dos espectadores. Ela é resultado de fatores históricos, culturais e simbólicos que ajudam a explicar por que um cinema premiado nos maiores festivais do mundo ainda encontra dificuldades para conquistar público dentro do próprio país.

Divulgação, distribuição e o desafio de chegar ao público

Se o preconceito contra o cinema nacional ajuda a explicar parte da resistência do público, os especialistas ouvidos pelo Cineinsite A TARDE são unânimes ao afirmar que existe um problema ainda mais concreto: muitos brasileiros simplesmente não ficam sabendo que determinados filmes existem ou encontram dificuldades para acessá-los.

A questão aparece em pesquisas acadêmicas e nos números do próprio mercado. A dissertação da pesquisadora Carla Pacheco Zaniratti, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), aponta a distribuição como um dos principais gargalos do audiovisual brasileiro. Entre os problemas identificados estão a concentração das salas de cinema em poucos municípios e a predominância dos filmes norte-americanos na programação das redes exibidoras.

Os dados recentes ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo informações da Abraplex, embora os filmes brasileiros tenham representado 15,7% das sessões exibidas em 2025, eles responderam por apenas cerca de 10% do público total. No mesmo período, dos 203 longas-metragens lançados comercialmente, aproximadamente 80% não ultrapassaram 10 mil espectadores e 111 produções não chegaram sequer a mil ingressos vendidos.

Para Rafael Carvalho, crítico de cinema e membro da Abraccine, a dificuldade não está necessariamente na qualidade das obras, mas no caminho que elas precisam percorrer até encontrar seu público.

Chegar ao público é o grande desafio. Fazer com que esse público compreenda que o cinema brasileiro possui opções para muitos gostos é uma grande questão. Tornar o cinema brasileiro uma possibilidade na hora de escolher um filme para assistir, seja no cinema ou no streaming, é uma virada que a gente precisa dar

Rafael Carvalho - Crítico de cinema

Segundo ele, o setor historicamente concentrou esforços na produção, enquanto áreas fundamentais para o sucesso comercial receberam menos atenção. “Fala-se muito da importância de incentivar a produção, mas pouco se investe na divulgação e distribuição dos filmes. Isso tem que mudar urgentemente. É preciso investir cada vez mais em estratégias de propagação dos filmes e que eles estejam presentes nos mais variados setores do mercado, seja nas salas de cinema, seja na ambiência digital.”

O cineasta Pola Ribeiro compartilha da mesma avaliação. Para ele, o cinema brasileiro já provou que possui qualidade técnica, artística e capacidade de conquistar reconhecimento internacional. O problema é fazer com que as pessoas saibam que esses filmes estão disponíveis.

“O que influencia o espectador, em qualquer lugar do mundo, é a informação de que o filme existe. É a comunicação construída em torno daquela obra que desperta o interesse e gera a atração do público", afirma o cineasta.

Pola afirma que o setor precisa compreender a comunicação como parte essencial da cadeia audiovisual, e não apenas como uma etapa complementar do lançamento.

A divulgação é fundamental porque comunicação é tudo. Não adianta produzir um filme se as pessoas não recebem a informação de que ele existe, de que é interessante, atrativo e foi feito para elas. O cinema brasileiro é feito para ser visto.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

Segundo o diretor, estudos internacionais mostram que a decisão de assistir a um filme costuma ser resultado de uma exposição repetida às campanhas de divulgação. “Para que as pessoas se interessem por um filme, estudos internacionais apontam que elas precisam ter contato com a divulgação daquela obra pelo menos sete vezes antes de desenvolver o desejo de assisti-la.”

“Precisamos estar presentes em todas as telas, em todos os meios e em todas as plataformas, ampliando as formas de acesso e divulgação do cinema brasileiro”, completou.

Para João Paulo Barreto, o sucesso de determinados filmes demonstra justamente a importância de campanhas de marketing bem estruturadas. “Campanhas de divulgação e uma boa distribuição, obviamente, sempre vão ajudar no alcance de um amplo público.”

“Temos sucessos incríveis de público em filmes oriundos das globochanchadas muito por conta de uma boa distribuição e campanhas de marketing bem financiadas”, completa.

O crítico cita como exemplo recente o desempenho de O Agente Secreto, que conseguiu ampliar sua visibilidade por meio de uma estratégia intensa de comunicação. “Uma boa divulgação com campanhas de marketing para determinadas obras é um exemplo. Vide o sucesso de O Agente Secreto, que teve uma ação massiva em redes sociais por parte da Vitrine Filmes.”

Cena de O Agente Secreto
Cena de O Agente Secreto - Foto: Divulgação

Para Pola Ribeiro, a discussão também passa pela criação de políticas públicas capazes de fortalecer não apenas a produção, mas a circulação das obras. “Os investimentos no Brasil sempre foram muito direcionados para a produção. Durante muito tempo, o principal desafio era produzir, e era necessário, de fato, ampliar a capacidade de produção.”

Hoje, segundo ele, o cenário exige uma mudança de foco. “Agora, precisamos vencer um enorme desafio de comunicação. É um enfrentamento muito difícil, mas temos um público brasileiro que gosta do Brasil, que torce pelo Brasil e que voltará às salas de cinema.”

Sabemos que temos um produto de interesse, com qualidade reconhecida internacionalmente. O que precisamos é garantir que o público saiba que ele existe. Quando isso acontecer, as pessoas voltarão a ocupar as salas de cinema.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

Muitos filmes e poucos espectadores

Se há um consenso entre pesquisadores, críticos e profissionais do audiovisual, é que o cinema brasileiro vive um momento de contrastes. Nunca se produziu tanto no país, nunca houve tantos investimentos públicos no setor e poucas vezes o cinema nacional recebeu tamanho reconhecimento internacional. Ao mesmo tempo, grande parte dessas produções encontra dificuldades para alcançar o público brasileiro.

Dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) mostram que a participação dos filmes nacionais nas salas cresceu nos últimos anos. Em 2023, as produções brasileiras representavam 7,5% das sessões e apenas 3,3% do público.

Em 2024 e 2025, a presença nas salas mais que dobrou, alcançando 15,7% das sessões exibidas. Ainda assim, o avanço não se refletiu proporcionalmente na ocupação das cadeiras: os filmes brasileiros responderam por apenas 10,1% do público em 2024 e 9,9% em 2025.

Os dados da Abraplex ajudam a explicar essa discrepância. Embora tenham ocupado quase 16% da programação dos cinemas em 2025, os filmes nacionais atraíram apenas cerca de 10% dos espectadores.

Dos 203 longas-metragens lançados comercialmente no período, aproximadamente 80% não ultrapassaram a marca de 10 mil espectadores. Desses, 111 produções não chegaram sequer a mil ingressos vendidos. A mediana de público foi de apenas 719 espectadores por filme.

Infográfico com dados da Ancine
Infográfico com dados da Ancine - Foto: Cineinsite A TARDE | Infográfico

O cenário também aparece na arrecadação. Apesar do histórico Oscar conquistado por Ainda Estou Aqui e do reconhecimento internacional alcançado por produções brasileiras ao longo do ano, a bilheteria nacional caiu 14,77% em 2025, mais que o dobro da retração registrada pelos filmes estrangeiros, que tiveram queda de 7,14%.

A série histórica da Ancine mostra que o cinema brasileiro ainda tenta se recuperar dos efeitos da pandemia. Após atingir R$ 319 milhões em bilheteria em 2019, o setor despencou para R$ 16 milhões em 2021. Houve recuperação nos anos seguintes e um salto expressivo em 2024, quando a arrecadação chegou a R$ 252 milhões. Em 2025, porém, o valor voltou a cair para R$ 215 milhões.

Infográfico com dados da Ancine
Infográfico com dados da Ancine - Foto: Cineinsite A TARDE | Infográfico

Parte desse resultado foi sustentada por poucos sucessos de público. Sozinhos, Ainda Estou Aqui e O Auto da Compadecida 2 concentraram cerca de metade da bilheteria nacional registrada em 2025. Enquanto os dois filmes somaram R$ 107 milhões em ingressos vendidos, os outros 201 títulos lançados dividiram pouco mais de R$ 108 milhões.

Infográfico com dados da Ancine
Infográfico com dados da Ancine - Foto: Cineinsite A TARDE | Infográfico

Ao mesmo tempo em que as bilheterias enfrentam dificuldades, os investimentos atingem níveis recordes. Em 2025, o Brasil lançou 203 filmes nacionais, o maior número da série histórica. O setor recebeu cerca de R$ 546 milhões da Ancine, além de R$ 437 milhões por meio de leis de incentivo e R$ 411 milhões em linhas de crédito, totalizando um aporte público superior a R$ 1,4 bilhão.

Infográfico com dados da Ancine
Infográfico com dados da Ancine - Foto: Cineinsite A TARDE | Infográfico

Sob a perspectiva artística, os resultados são inegáveis. Além do Oscar conquistado por Ainda Estou Aqui, o cinema brasileiro foi premiado nos principais festivais do mundo.

Em Cannes, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho venceram os prêmios de melhor ator e melhor diretor por O Agente Secreto. Em Berlim, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, conquistou o Urso de Prata, segundo maior prêmio do festival.

Hollywood, streaming e a disputa pela atenção dos brasileiros

A dificuldade do cinema brasileiro em ampliar seu público também passa por uma disputa cada vez mais intensa pela atenção dos espectadores. Nas salas de cinema, os filmes nacionais competem com grandes produções hollywoodianas que contam com orçamentos bilionários e campanhas globais de marketing.

Fora delas, enfrentam ainda a concorrência das plataformas de streaming, das redes sociais e das inúmeras opções de entretenimento disponíveis em poucos cliques.

Para Rafael Carvalho, o problema não está na coexistência entre diferentes cinematografias, mas na desigualdade econômica que marca essa disputa. “A indústria hollywoodiana é forte porque é uma máquina econômica gigante. Em termos estéticos, essa presença estrangeira não seria um problema porque as propostas desses filmes são bem diferentes do cinema brasileiro.”

Segundo ele, existe espaço para que ambas as produções convivam dentro do mercado. “Ou seja, em tese há público para as duas coisas e elas podem coexistir muito bem dentro de um mesmo mercado.”

O desafio surge quando a diferença de investimento em divulgação passa a determinar a visibilidade das obras.

O problema é que o volume financeiro que eles investem na propagação de suas obras é altíssimo e de difícil concorrência, fazendo com que o mercado seja sufocado por suas produções. E isso é injusto.

Rafael Carvalho - Crítico de cinema

Para o crítico, a experiência internacional mostra que países que fortaleceram suas indústrias audiovisuais adotaram mecanismos de proteção ao conteúdo nacional. “Por isso é importante cada vez mais proteger o mercado nacional, como é feito hoje na Europa e em países como Coreia do Sul e China, especialmente cobrando taxas justas pela ocupação do mercado local.”

João Paulo Barreto observa que a concorrência não se limita às salas de cinema. Os hábitos de consumo mudaram profundamente nos últimos anos, especialmente após a consolidação do streaming. “O apelo do streaming e o conforto de assistir a filmes em casa não colaboram tanto com frequência de idas ao cinema.”

Na avaliação do crítico, a velocidade com que os filmes chegam às plataformas digitais também reduz o incentivo para que parte do público vá ao cinema. “E as curtas janelas de tempo entre os lançamentos comerciais em cinemas para a chegada do filme às TVs afastam esse potencial público, que muitas vezes sabe que logo poderá assistir do próprio sofá.”

Barreto destaca ainda que fatores econômicos ajudam a explicar o esvaziamento das salas. “Outro aspecto que afasta o público, claro, são os preços dos ingressos. Isso, ainda bem, é um ponto que diversas salas em Salvador, como o Cine Glauber Rocha e o CineMAM, do Circuito Saladearte, ajudam a contornar ao aplicar preços populares em diversas sessões e tendo um grande foco nos filmes brasileiros.”

Para Pola Ribeiro, a concorrência internacional faz parte da dinâmica do mercado e não deve ser encarada como um problema em si. O desafio, segundo ele, está na falta de equilíbrio entre os diferentes agentes que disputam espaço pela atenção do público.

A concorrência sempre existirá, e ela é importante porque estimula o mercado. No entanto, há situações em que essa concorrência se torna desigual, funcionando quase como uma espécie de doping econômico.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

O cineasta avalia que Hollywood construiu uma lógica global que dificulta a circulação de cinematografias nacionais. “O que acontece é que Hollywood entende que é dona de um mercado mundial. E essa ideia de mercado mundial é uma ideia colonialista na contemporaneidade, que não dialoga com a realidade.”

Ele chama atenção para uma contradição frequentemente ignorada no debate. “Os próprios Estados Unidos são um mercado extremamente provinciano: o público americano gosta, principalmente, de assistir ao que é produzido nos Estados Unidos.”

“Até filmes produzidos na Inglaterra têm dificuldade para fazer sucesso nos Estados Unidos. Ou seja, eles são muito provincianos, mas mantêm essa ideia colonizadora de que podem distribuir seus filmes para o mundo inteiro”, completa.

Cena de O Último Azul
Cena de O Último Azul - Foto: Divulgação

Para o diretor, a discussão sobre o futuro do cinema brasileiro precisa ultrapassar as salas de exibição e alcançar também as plataformas digitais. “Quando falo disso, estou dizendo que também precisamos enfrentar, no Congresso Nacional, a questão do streaming. Portanto, o debate não se limita às salas de cinema.”

Segundo ele, a ampliação do espaço para produções nacionais passa por uma atuação conjunta entre exibidores, plataformas, meios de comunicação e poder público. “Todo filme tem o seu espaço. O que precisamos é encontrar os caminhos para que as pessoas interessadas naquele filme saibam onde ele está sendo exibido.”

Nós precisamos de pesquisa, de indicadores, de mais salas de cinema, de plataformas que tenham compromisso com o conteúdo nacional e também de meios de comunicação comprometidos com a cultura brasileira.

Pola Ribeiro - Cineasta baiano

O cenário evidencia que a disputa enfrentada pelo cinema brasileiro vai além da qualidade das obras produzidas. Entre blockbusters internacionais, algoritmos de streaming e mudanças nos hábitos de consumo, conquistar a atenção do público tornou-se tão importante quanto produzir bons filmes.

Em um momento em que o Brasil acumula prêmios, recordes de investimento e reconhecimento internacional, o grande desafio continua sendo transformar a visibilidade global em presença constante nas telas e na rotina dos próprios brasileiros.

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