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A TARDE MEMÓRIA

Criação da Ufba ocorre na renovação cultural após Estado Novo e II Guerra

Nos anos 1940, Edgard Santos descentralizou o ensino superior brasileiro para a Bahia

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Reitoria da Ufba ficou pronta em 1951
Reitoria da Ufba ficou pronta em 1951 - Foto: Cedoc A TARDE/22.11.1996

"Foi uma solenidade a todos os títulos brilhante, a realizada ontem, no salão nobre da Faculdade de Medicina, para a instalação da Universidade da Bahia. Brilhante pelo comparecimento de personalidades de relevo e brilhante também pela seleta e grande assistência, mas sobretudo, pela significação do ato, que era a chave magnifica de uma longa batalha, de história secular, pela criação, em nosso meio, de um instituto de cultura digno da inteligência bahiana".

A edição de A TARDE de 3 de julho de 1946 descreve o início das atividades da Universidade Federal da Bahia (Ufba), na época chamada apenas de Universidade da Bahia. Na página da cobertura da solenidade, imagens em clichê mostram as autoridades presentes, com destaque para Edgard Santos, o homem que articulou a criação da primeira universidade baiana, há 80 anos. A reportagem divide o alto da página com a cobertura do desfile cívico do 2 de Julho daquele ano.

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Na noite anterior, na data máxima para os baianos por marcar a conquista da independência, a Universidade da Bahia havia sido oficialmente fundada. Antes de 1946, conta o professor Paulo Costa Lima, doutor e professor da Ufba, o que prevalecia no Brasil era a ideia de que não havia necessidade de existirem universidades espalhadas pelo país, que bastavam as do Rio e São Paulo.

Até aquele período, existiam, basicamente, as Universidade do Brasil, futura Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fundada na década de 1920, e a Universidade de São Paulo (USP), criada nos anos 1930. Apenas com o fim tanto do Estado Novo, o governo ditatorial de Getúlio Vargas (1930-1945), quanto da Segunda Guerra Mundial é que se inicia o Sistema Universitário Brasileiro.

Não é como se não existisse ensino superior no país ou na Bahia antes da segunda metade dos anos 1940, até existia. Mas em faculdades isoladas, sem o conceito de universidade. A primeira faculdade do país, inclusive, foi criada aqui no Estado, ainda em 1808. Além disso, afirma o professor Paulo Costa, que também integra as academias de Letras da Bahia e Brasileira de Música, havia toda uma tradição baiana de saberes e uma rica cultura prévia às universidades.

"Nossa sociedade, mesmo sem uma instituição superior, não ficou apartada da produção de conhecimento. Houve uma intensa criação de saberes na sociabilidade, nas festas, no estar juntos. O São João, o Carnaval, a medicina popular, as artes e a música amadureciam e circulavam. E isso é uma coisa muito bonita e que qualquer universidade hoje no Brasil, especialmente as públicas, precisa levar em conta. Em cada grotão e lugar, houve produção de conhecimento", enfatiza o também compositor.

O que faltava era uma instituição capaz de formalizar e aprofundar conhecimentos difundidos de forma isolada. E a figura de um gestor que organizasse esse caminho. É aí que entra em cena o principal articulador da criação da Ufba, Edgard Santos, médico, professor e primeiro reitor da Universidade da Bahia. Visionário, ele tomou posse do cargo com o objetivo de integrar ciência, arte e cultura para construir uma universidade plural, unindo as faculdades e escolas superiores existentes desde o século XIX e convidando intelectuais de renome para liderar a criação de novos cursos.

Edgard Santos era médico e foi o reitor que articulou a criação da Ufba
Edgard Santos era médico e foi o reitor que articulou a criação da Ufba - Foto: Cedoc A TARDE

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Do século XIX à vanguarda

Um ponto importante que explica tanto a demora na criação de universidades federais no Brasil quanto o motivo que levou Edgard Santos a iniciar sua gestão com uma visão plural, voltada a atender diversas áreas de conhecimento, é a rigidez do sistema colonial português. Os portugueses proibiam a fundação de universidades, escolas superiores e até o uso de prensas domésticas, o que limitava a circulação de ideias até o começo do século XIX.

Publicar um livro no Brasil, aponta o professor Paulo Costa, exigia enviá-lo a Lisboa ou Coimbra. Essas restrições geraram uma demanda reprimida por instituições de ensino que só começou a ser parcialmente atendida com os colégios jesuítas, no século XVI.

"No século XVII, o colégio jesuíta de Salvador chegou a reunir mais de três mil livros em sua biblioteca e formou nomes como Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira. No século XVIII, com a expulsão dos jesuítas, houve uma ruptura e essa carência só encontrou resposta em 1808, quando Dom João VI, ao chegar à Bahia, autorizou a fundação da Faculdade de Medicina", explica o professor.

Faculdade de Medicina foi fundada em 1808 e incorporada à Ufba em 1946
Faculdade de Medicina foi fundada em 1808 e incorporada à Ufba em 1946 - Foto: Cedoc A TARDE

Algumas décadas após a criação da Faculdade de Medicina, vieram a Escola de Belas Artes, de 1877, e a Escola Politécnica e a Faculdade de Direito, ambas em 1897. Já no século XX, foi a vez da Faculdade de Ciências Econômicas (1905) e Filosofia (1941). O primeiro passo de Edgard Santos em 1946 foi reunir essas escolas, com exceção de Belas Artes, que foi incorporada mais tarde, para criar o núcleo inicial da Universidade da Bahia. No ano seguinte, anexou a recém-criada Escola de Enfermagem, que também é de 1946, mesmo ano da criação da Ufba.

O Hospital das Clínicas, que posteriormente se chamaria Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), foi inaugurado no final dos anos 1940 e, segundo o professor Paulo Costa, na época, toda essa movimentação apontava para uma sociedade que precisava se modernizar. “A base do ciclo de criação de Edgard era reunir o que já existia e, a partir desses embriões, criar outras coisas".

Nos 1950, o ciclo se expandiu com a criação das escolas de artes, tornando a Universidade da Bahia, na época, uma das poucas do país a oferecer cursos de música, teatro e dança. O professor Paulo acrescenta que Edgard Santos convidou intelectuais brasileiros e figuras da vanguarda europeia que viviam no Brasil e seguiam a mesma linha de pensamento inovador que ele próprio incutiu na instituição, para liderar essas iniciativas.

Atenderam ao chamado o compositor alemão Hans-Joachim Koellreutter, responsável pelos Seminários Livres de Música, que deram origem à Escola de Música; o cenógrafo e diretor teatral de Recife, Eros Martim Gonçalves Pereira, encarregado da Escola de Teatro; e a coreógrafa polonesa Yanka Rudzka, que assumiu a direção da Escola de Dança.

"Imagine o efeito disso tudo em uma cidade pequena como era Salvador, que na época tinha uns 500 mil habitantes. Passam a surgir espetáculos de enorme qualidade, completamente diferentes do que se via até então e que inauguraram um verdadeiro processo de formação. O que mais vemos nos escritos da época são comentários sobre a força da desprovincialização, como tudo isso foi um vetor cosmopolita que estava fazendo a Bahia deixar de ser província. Há quem diga, e eu concordo, que o modernismo chega, de fato, na Bahia a partir da criação da universidade", afirma Paulo Costa Lima.

É em 1950 também que a Lei 1.254 estabelece o funcionamento do sistema federal de ensino superior e a Universidade da Bahia é federalizada, mas a instituição só passa a se chamar Universidade Federal da Bahia em 1965. Em 1951, o prédio da reitoria é inaugurado ao lado do Hospital das Clínicas e, em 1959, o Museu de Arte Sacra da universidade, um dos maiores e mais importantes acervos de arte sacra cristã das Américas. O Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), um dos mais importantes espaços de pesquisa voltado para os estudos afro-brasileiros, africanos e asiáticos, também é dessa época.

Hospital das Clínicas é uma das estruturas da Ufba
Hospital das Clínicas é uma das estruturas da Ufba - Foto: Cedoc A TARDE

Ensino e pesquisa

O objetivo de ser a responsável por integrar e desenvolver o conhecimento baiano sempre foi o foco desde a origem da universidade e já aparecia na imprensa nos anos 1960. "É de justiça reconhecer que, se inicialmente muito se fez por ela na fase inicial de sua construção, inclusive física, é nesses últimos anos que a Universidade da Bahia assumiu seu verdadeiro papel de renovadora da cultura, de dinamizadora dos estudos novos, de preocupação com a investigação e interpretação da realidade baiana", como afirma reportagem na edição de A TARDE de 2 de julho de 1966, no aniversário de 20 anos da Ufba.

Nessa época, a universidade entrou em uma expansão acelerada e o professor Paulo Costa explica que várias pessoas apontam essas primeiras décadas como a "época de ouro" da UFBA, o que ele concorda, mas também pondera que antes não existia nada academicamente parecido com o que a instituição oferecia. "Acredito que o sonho de Edgard era muito mais do que a efervescência da década de 1950/60. Ele queria criar uma instituição que se tornasse centenária não apenas de idade, mas de experiência de produção de conhecimento. Ensino sem pesquisa é cópia. Só o professor que pesquisa tem dimensão crítica para acender a centelha da consciência crítica na cabeça dos estudantes", reflete o professor.

Uma centelha que, para seu primeiro reitor, deveria ser atiçada em toda pessoa que tivesse o mínimo de interesse em aprender. "Ele tinha uma grande preocupação para que existissem oportunidades para os estudantes que demonstravam capacidade, mas não tinham condições de se manter. Um aspecto importante da atuação dele foi o Serviço de Assistência ao Estudante. Ele criou a Residência Universitária, o Restaurante Universitário e o Serviço Médico da Universidade. Você dirá que isso não é uma filosofia de educação, mas é uma sensibilidade para a nossa realidade", afirmou seu filho, o médico, professor e político Roberto Santos, em entrevista ao A TARDE, em 5 de janeiro de 1994.

Reitoria da Ufba ficou pronta em 1951
Reitoria da Ufba ficou pronta em 1951 - Foto: Cedoc A TARDE

Roberto Santos pontuou ainda que o pai era "uma pessoa de enfrentar os problemas com medidas práticas, muito mais do que com elucubrações de ordem intelectual", uma linha de pensamento que permaneceu incutida na instituição após a saída de Edgard do reitorado e continua presente nos dias de hoje, numa Ufba que busca tornar a sua diversidade cada vez mais plural.

Uma virada importante da instituição aconteceu em 1970, quando o Conselho Universitário aprovou a criação do sistema de pós-graduação, formalizando assim os espaços de pesquisa e produção científica. O que, junto com a qualificação do corpo docente, se tornou a tônica da universidade.

"Até os anos 2000 foi uma grande batalha para formar doutores e pesquisadores. Hoje, todos estão qualificados, mas foi uma luta enorme, porque nem sempre os governantes entendem que educação não é gasto, é investimento. Eu mesmo, como pró-reitor nos anos 1990, enfrentei verbas escassíssimas. Havia a ideia neoliberal de que o Brasil deveria ter apenas algumas universidades de excelência e o restante seriam 'escolões'. Isso arrasava o sonho de Edgard Santos, que defendia muitas universidades pesquisando e recuperando o conhecimento produzido pela sociedade, mesmo fora das instituições oficiais", explica Paulo.

Em 80 anos de história, nos laboratórios, centros de pesquisa, grupos de estudo e salas de aula da Ufba surgiram descobertas médicas de impacto nacional e internacional, investigações sobre identidade cultural e social; além de projetos inovadores em tecnologia e humanidades. Foi na instituição que o virologista Gúbio Soares e a pesquisadora Silvia Sardi, em 2015, identificaram a circulação do vírus Zika no Brasil. Na Ufba, também, a biomédica Jaqueline Goes de Jesus, doutora em Patologia Humana e Experimental, coordenou a equipe responsável pelo primeiro sequenciamento do genoma do coronavírus na América Latina, em 2020, 48 horas após o primeiro caso de Covid-19 no Brasil.

Mais recentemente, em 2025, a doutoranda Silvana Olivieri, em sua pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Ufba, identificou o maior cemitério de pessoas escravizadas da América Latina, localizado no estacionamento do Complexo da Pupileira. Mais do que formar profissionais, a universidade cultiva o pensamento crítico e promove a circulação de ideias que fortalecem não apenas a Bahia, mas o país como um todo, mesmo ainda lidando com desafios como cortes de verba e baixa valorização da educação.

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*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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