A TARDE MEMÓRIA
Filantropia e patrimônio histórico integram legado da Casa Pia de São Joaquim
Entidade fundada há 227 anos lançou livro resgatando sua história bicentenária


A bicentenária Casa Pia de São Joaquim foi fundada em um momento da história colonial baiana em que o atendimento às pessoas em situação de vulnerabilidade social estava restrito às ordens religiosas.
Fundada em 1799 por Joaquim Francisco do Livramento, um irmão leigo oriundo de Santa Catarina e que mais tarde se tornou franciscano, a entidade acolhia e educava crianças que no final do século XVIII viviam em situação de rua e extrema pobreza em Salvador.
A missão era garantir moradia, educação e profissionalização aos acolhidos.
Recentemente, a história da instituição e do imóvel onde ela funciona, o antigo Noviciado dos Jesuítas, foi transformado no livro Casa Pia de São Joaquim: História, Patrimônio e Missão Social.
A publicação traz prefácio do historiador Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Júnior, textos dos historiadores Daniel Rebouças e Rafael Dantas e da pesquisadora Simone Marya de Moura.
O capítulo escrito por Simone reúne dezenas de registros sobre a Casa Pia resgatados de periódicos baianos, com a maioria sendo das coleções de edições de A TARDE.
"A nossa ideia de publicar um livro é exatamente essa, mostrar para a sociedade atual a história da instituição. Uma história bonita, que mostra como ela começou, como se desenvolveu, os momentos de dificuldade e os de muito apreço", afirma Jayme Garcia Rosa Filho, provedor da entidade.

A relevância histórica da Casa Pia já foi registrada em jornais e em livros outras vezes, tanto nas páginas de A TARDE, como nas publicações Meu Colégio, Minha Vida, de 1986, do escritor baiano Osmar Pinheiro.
O lançamento dessa obra, inclusive, foi noticiada na edição de A TARDE de 19 de março daquele ano. O livro conta fatos da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, como a entidade era conhecida desde a origem, do passado até o ano de lançamento.
Outra publicação de 1999, Casa Pia Colégio dos Órfãos de São Joaquim - de Recolhido a Assalariado, do professor Alfredo Eurico Matta, foi lançada em outubro daquele ano, em evento na Academia de Letras da Bahia.
Um artigo assinado pelo doutor em história e então diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, Ubiratan Castro de Araújo, foi publicado em A TARDE na época. No texto, o diretor do Ceao/Ufba comenta sobre a publicação desenvolvida no curso de mestrado sob sua coordenação.
"Criada nos últimos anos do Brasil português, 1799, no mesmo momento em que se enforcavam os Alfaiates da Bahia, representantes da revolta do povo mecânico, ou seja, dos trabalhadores manuais de Salvador, a Casa Pia foi uma resposta institucional à necessidade de formação de mão-de-obra urbana qualificada e disciplinada", explica Ubiratan Castro de Araújo no artigo.
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O começo de tudo
A história da Casa Pia de São Joaquim remonta ao final do século XVIII e se liga à história e missão de vida do irmão Joaquim Francisco do Livramento. Filho de uma família de origem humilde que conquistou prestígio social, Joaquim nasceu em 1761 na cidade de Nossa Senhora do Desterro, a atual Florianópolis (SC).
Desde cedo, ele demonstrava interesse por obras sociais e, ainda na juventude, passou a se dedicar à fé, pois era também muito devoto, e em conhecer irmandades religiosas, enquanto ajudava quem precisava com esmolas e medicamentos.
Entre as décadas de 1780 e 1790, o irmão Joaquim percorreu o Brasil e Portugal, recolhendo doações para a construção de um hospital destinado aos mais pobres. Foi nesse período que chegou a Salvador e amadureceu o desejo de criar uma congregação voltada às mulheres e crianças desamparadas.
"Em uma das viagens dele para Portugal, o navio precisou parar em Salvador para abastecer e ele ficou impressionado com a quantidade de crianças e jovens órfãos abandonados nas ruas", explica Jayme Garcia Rosa Filho.
Graças às articulações do irmão Joaquim junto a pessoas de posse, em 1799 foi criada a Casa Pia dos Órfãos de São José, como a instituição foi chamada inicialmente. O nome deriva da primeira sede, na Capela de São José de Ribamar, hoje extinta, e que se localizava onde hoje está o Barbalho.
"Veio a esmoler irmão Joaquim Francisco do Livramento, trazendo o sotaque sulista dos catarinenses. Pediu permissão régia para esmolar (naquele tempo, precisava-se de permissão...), não para si próprio, que era beato e iluminado, mas para adquirir o 'capital de giro' necessário a um colégio para os órfãos pobres", explica a reportagem publicada na edição de A TARDE de 1º de setembro de 1979.
Esmoler é um termo antigo atribuído às pessoas pias e caridosas que pediam aos mais abastados esmolas (doações) para distribuir aos mais pobres. Ordens religiosas que faziam voto de pobreza, como a franciscana, adotavam a prática, que era também um sinônimo de humildade e devoção.
São Joaquim e Jequitaia
A Casa Pia permaneceu no Barbalho por alguns anos, mas segundo Jayme Garcia, o Irmão Joaquim "estava de olho no prédio da atual sede da Casa Pia". Localizado na Avenida Jequitaia, na Calçada, o prédio havia sido fundado em 1734 pela Companhia de Jesus e, até 1759, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, funcionava como noviciado da ordem religiosa.
Desde a expulsão da Companhia de Jesus, estava abandonado e o irmão Joaquim pediu a doação do edifício inúmeras vezes, sempre recebendo recusas por conta de demandas políticas e interferência de governantes brasileiros e portugueses.
"Em 1803, o regente D. João reconheceu a iniciativa do irmão Joaquim, aprovando a criação da Casa de Órfãos da Bahia. No mesmo ano, o irmão Joaquim peticionou ao rei português que se encontrava em dificuldades para abrigar e educar os órfãos no conjunto de casas e capela. De maneira arguta, o religioso lembrava ao rei que havia 'um edifício há muitos anos arruinado e ao desamparo', que em outro tempo foi 'espiritualmente dedicado ao culto divino", explica o doutor e mestre em história Daniel Rebouças, autor do primeiro capítulo do livro Casa Pia de São Joaquim: História, Patrimônio e Missão Social, que tem as coleções de A TARDE entre suas fontes de pesquisa.
Em 1818, Dom João VI autorizou que a Casa Pia dos Órfãos de São José, onde o número de acolhidos crescia cada vez mais, se mudasse para o antigo noviciado jesuíta.
Mas a ocupação do prédio ainda demoraria alguns anos, primeiro pelas obras necessárias, já que o antigo prédio precisava de uma grande reforma; e, depois, porque começou a Guerra da Independência do Brasil na Bahia, entre 1822 e 1823, o que contribuiu para o adiamento da mudança de sede para 1825.
"Nascia a Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, que a generosidade da boa gente baiana dotou para a educação de crianças sem pais. Em 12 de outubro de 1825, concluídas as obras de adaptação e restauração, era matriculado o aluno número 1: Alexandre Manuel dos Passos", diz o texto de A TARDE de 1979.
Com a nova sede, veio o novo e atual nome da instituição, uma homenagem ao idealizador da Casa Pia.
"Outro dia, soube que o Orfanato de São Joaquim não tinha nada a ver com São Joaquim e sim com São José. O fundador do orfanato, um místico que construiu vários orfanatos e asilos para velhos pelo Brasil afora, dedicou sua casa a São José. Mas ele se chamava Joaquim e o povo quando se referia aos seus meninos dizia: 'os órfãos de Seu Joaquim', passando, com o tempo de 'Seu Joaquim' para 'São Joaquim'", diz trecho de outra reportagem de A TARDE, essa de 30 de janeiro de 1983.

Instituição respeitada
Jayme Garcia aponta que a Casa Pia sempre foi uma instituição muito respeitada em Salvador, principalmente por formar muitos jovens.
"Evidentemente, naquela época, havia apenas alunos, pois não havia preocupação com a educação feminina. O que, claro, mudou ao longo do tempo. O Brasil deixou de ser reinado e se tornou república, e com isso houve uma série de mudanças que modernizaram a instituição, assim como houve momentos de certa dificuldade financeira", explica o provedor.
Ele salienta que a Casa Pia pode ser considerada uma das primeiras escolas de ofícios do país, fornecendo uma formação e oportunidade de futuro durante a transição do regime escravocrata para o assalariado.
"No passado e até o século XX, a Casa Pia ensinava tipografia, marcenaria, sapataria, carpintaria... Tinha até uma banda de música. Os alunos entravam com mais ou menos 6 anos e quando saíam eram encaminhados para serem aproveitados na capital, no comércio, ou no interior. Muitos iam, por exemplo, para o que se chamava de Trem de Guerra, que era o exército, para o arsenal de Marinha e para o comércio aprender as suas funções, para empresas ou mesmo trabalhar por conta própria", detalha o provedor.

Os acolhidos tinham abrigo e espaço completo de convivência e aprendizado na Casa Pia. Viviam em dormitórios coletivos, recebiam alimentação diária e eram educados nos valores de disciplina e fé, aprendendo ofícios que lhes permitiam ingressar no mercado de trabalho e, a partir da obtenção de uma renda, gerir a própria vida.
De acordo com Daniel Rebouças, pelo menos entre 1825 e 1910, a formação educacional da Casa Pia era pensada para durar quatro anos. No entanto, era comum que os alunos ficassem entre cinco e seis anos na instituição, principalmente após a criação de oficinas internas, em 1871.
O currículo básico era composto de primeiras letras, gramática portuguesa e latina, aritmética básica, desenho, música, retórica e doutrina cristã. Além disso, ao longo da história da Casa Pia, houve a preocupação com os cuidados físicos.
"No século 19, essa atenção com a disciplina, a saúde e o treinamento do corpo visavam preparar os internos para trabalhos braçais, que pareciam ‘naturalmente destinados’ pela pobreza e infortúnios da vida. Recomendava-se exercícios matinais, junto com a contemplação da natureza. No século 20, com o crescimento do sentimento militarista na sociedade brasileira, os exercícios físicos vão ganhar, ao que tudo indica, uma dimensão mais militarizada", detalha o historiador no livro recém-lançado.
Havia ainda uma grande preocupação com a saúde e a higiene dentro da instituição. Além da exigência da vacinação, o estatuto exigia o cuidado dos dentes e dos cabelos, assim como banhos frios e de mar. A natação, no mar em frente ao noviciado, foi uma prática que se prolongou pelo século XX.
"A partir da década de 1850, a Casa Pia foi sendo cada vez mais reconhecida como um lugar de instrução e formação profissional do que [como] asilo. Nos requerimentos de entrada, a alegação de caridade foi, progressivamente, cedendo espaço para a necessidade de educação, explicitando a valorização mais geral da instrução e do trabalho em ofícios como forma de melhora de vida e garantia de cidadania", explica Daniel Rebouças no livro.
O fim do orfanato
Em 2004, a hoje chamada apenas de Casa Pia de São Joaquim deixou de ser um orfanato e passou a funcionar como escola de ensino fundamental, com educação em período integral para crianças entre 2 até 5 anos.
"É uma escola gratuita para 200 crianças de baixa renda, que entram às 7h30 da manhã e saem às 16h, com três refeições por dia. A escola é nosso carro-chefe e a nossa razão de ser. Ela fica fora do prédio histórico, pois o usamos na geração de receita para manter a escola e o prédio em si, que é enorme e tombado", explica o provedor.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938 e parte integrante do conjunto arquitetônico do Centro Histórico de Salvador, que é Patrimônio Mundial pela Unesco, o prédio da Casa Pia é um modelo de conservação patrimonial aliado à função social.
Jayme Garcia aponta que uma das contribuições da edificação para a Bahia é justamente a sua memória arquitetônica.
"Ele reflete a época em que foi construído, uma arquitetura muito bonita que ainda se vê aqui. As paredes têm mais de um metro de largura, as janelas são grandes, o pé-direito é alto e as portas também. Naquele tempo não existia ar-condicionado, então era preciso garantir a circulação de ar. Tudo isso fazia com que o prédio fosse adequado para habitar, como continua sendo hoje".
Com uma estrutura em pedra e cal, técnica construtiva que contribuiu para a durabilidade do prédio, além das paredes espessas, janelas amplas e o pé-direito alto, a Casa Pia possui portas monumentais, largas e altas, que reforçam a grandiosidade do edifício.
Os antigos ambientes que funcionavam como salas de aula, dormitórios, banheiros, refeitório e áreas de convivência para cerca de 150 a 200 acolhidos, foram adaptados ao longo do tempo e se tornaram salas funcionais que atendem eventos culturais e sociais, inclusive casamentos.
Nos salões espalhados pela instituição, os eventos podem ainda contar com o mobiliário histórico.
"O casamento pode ser celebrado em nossa igreja e se os noivos quiserem fazer a recepção interna, a igreja possui ligação com os salões. Mas se o casal preferir fazer a festa em um espaço aberto, pode alugar o pátio interno, que consegue reunir cerca de 1.500 pessoas", enumera o provedor.
Outra opção é celebrar o casamento no próprio pátio. Apesar do prédio ter igreja, a Casa Pia não é uma instituição ligada a uma ordem religiosa específica e por isso celebra casamentos de várias religiões.
"Se você estudar a história de Salvador nos séculos passados, vai perceber que a Casa Pia é uma instituição leiga da Igreja Católica. Não pertence ao arquivo da Arquidiocese, mas foi fundada com inspiração católica", explica Jayme Garcia.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE


