A TARDE MEMÓRIA
Glauber Rocha transformou o sertão baiano em cinema e resistência
Diretor nascido em Vitória da Conquista se mantém inimitável


Entre a militância social e a ousadia estética, Glauber Rocha transformou o cinema brasileiro em palco de resistência e revolução. Visionário e inquieto, fez da câmera uma arma carregada de poesia e traduziu em imagens a fome, a esperança e a revolta de um país em ebulição. À frente do movimento Cinema Novo, fez da arte um ato político. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro abriram caminhos para que o Brasil fosse visto como protagonista de uma linguagem cinematográfica própria. Neste sábado, 22, quando se completam 45 anos da morte do cineasta, A TARDE Memória relembra a sua trajetória.
"Glauber foi uma pessoa que viveu intensamente o tempo dele, marcado pela infância no interior e as histórias do sertão. Desde muito cedo ele se encantou pelas artes, a literatura, o teatro, o cinema... Elas entraram em Glauber Rocha de uma forma tão intensa que moldaram esse homem do sertão com as histórias do sertão. Ele era aquela pessoa do povo que nasceu e foi criado ouvindo as histórias do povo, mas que também estava completamente antenado ao que de mais contemporâneo e ousado existia em termos de criação artística", define o também cineasta e diretor do Cine Glauber Rocha, Cláudio Marques, idealizador e realizador do Panorama Coisa de Cinema.
Nascido em Vitória da Conquista, em 14 de março de 1939, Glauber Pedro de Andrade Rocha é fruto de um caldeirão cultural e absorveu tudo o que havia de mais vibrante ao seu redor. Em essência, aponta Cláudio Marques, ele era um vulcão em constante erupção. "Uma vez, conversando com Dona Lúcia, mãe de Glauber, ela contou que o filho acordava cedo e saía datilografando duas, três histórias. Aí parava, pegava um livro, conversava e telefonava. A família e as pessoas de seu convívio dizem que Glauber era incrivelmente produtivo e acho que sua personalidade era tão verdadeira e intensa, que aos poucos ele não suportou essa intensidade", reflete Marques.
Em 1947, aos 8 anos, Glauber se mudou com a família para Salvador. No meio da efervescência cultural da capital, ele se aproximou mais das artes, sem nunca abandonar as influências do interior. Mais velho, escreveu e atuou em peças teatrais, se enveredou por poesia, publicou livros e dirigiu filmes. Mas, principalmente, conversou e ouviu. Fez parte de alguns grupos como o Círculo de Estudo Pensamento e Ação (Cepa), ativo até hoje e criado pelo escritor e jornalista Germano Machado. O grupo ajudou Glauber com o primeiro emprego, um programa de rádio onde ele falava sobre cinema.

A adolescência e início da vida adulta, na década de 1950, foram vividas em meio à fase de ouro dos cinemas de rua de Salvador. Cinéfilo e bem-informado sobre todos os movimentos culturais e artísticos da cidade, em 1957, escreveu para A TARDE um artigo em que explicava o surgimento da Jogralesca, coletivo de arte criado no final dos anos 1940 e onde declamou as primeiras poesias:
"Surge 'A Jogralesca' como um movimento de aproximação entre a poesia e o povo. Daí, ao contrário do que sempre ocorre, o sacrifício da declamação, do emprego exclusivo da voz em favor da dramatização, ou seja, do tratamento teatral possível ao poema, submetendo-o a um 'mise-en-scène' e uma cenografia. Assim, o homem de cultura média e o estudante recebem, com agrado para os olhos e para os ouvidos, tôda uma antologia poética que cumpre, ao mesmo tempo, uma finalidade pedagógica e estética", escreveu no texto publicado em A TARDE, na edição de 1º de agosto de 1957.
Primeiros passos de um cineasta
A primeira produção dirigida e roteirizada por ele e que chegou ao público foi o curta-metragem Pátio, de 1959. Um ano antes havia realizado outro curta, A Cruz da Praça, inspirado em seu conto A Retreta da Praça. Esse curta, no entanto, nunca foi terminado e hoje é considerado "irremediavelmente perdido", de acordo com a Embrafilme. Além de ter seu negativo original destruído, não sobrou cópia que pudesse gerar um novo contratipo, apontam informações da Cinemateca Brasileira. Apesar disso, o curta é considerado o primeiro tratamento cinematográfico sobre o tema da homossexualidade feito no Brasil.
É também em 1959 que Glauber ingressa na Faculdade de Direito da Bahia, de onde saiu dois anos depois, sem concluir o curso. Nessa fase, se envolveu com o movimento estudantil e apurou mais o senso crítico e político. No mesmo ano, com apenas 20 anos, começou a gravar o primeiro longa-metragem, Barravento, lançado em 1962. Além do Brasil, o filme foi exibido no Festival de Cinema de Nova York e na Europa.

Em 1964, foi a vez de lançar Deus e o Diabo na Terra do Sol, considerado uma de suas obras-primas e tido por muitos críticos como seu melhor filme. A repercussão foi enorme e o longa se tornou referência internacional e concorreu à Palma de Ouro, em Cannes, naquele mesmo ano. Glauber, no entanto, nunca se importou com premiações ou com o glamour da sétima arte. Para ele, o cinema era uma revisão crítica da realidade e por isso queria levar às telas uma nova perspectiva mais crua, dramática, crítica, reflexiva, baiana e brasileira, diferente de tudo o que se fazia até então: um Cinema Novo.
"Nós não queremos Eisenstein, Rossellini, Bergman, Fellini, John Ford, ninguém. Nosso cinema é novo não por causa da nossa idade. O nosso cinema é novo como pode ser o de Alex Viany e o de Humberto Mauro, que nos deu em Ganga Bruta nossa raiz mais forte. Nosso cinema é novo porque o homem brasileiro é novo e a problemática do Brasil é nova e nossa luz é nova e por isto nossos filmes nascem diferentes dos cinemas da Europa", explicou Glauber Rocha, em seu livro Revolução do Cinema Novo.
Cineastas engajados
O inquieto Glauber resumiu a missão de sua geração em criar um cinema engajado e autoral. Para ele, os jovens cineastas queriam filmes anti-industriais, feitos por autores comprometidos com os problemas de seu tempo, capazes de atuar como instrumentos de construção de um patrimônio cultural brasileiro. "Não existe na América Latina um movimento como o nosso. A técnica é haute Couture (alta costura), é frescura para a burguesia se divertir. No Brasil, o Cinema Novo é uma questão de verdade e não de fotografismo. Para nós a câmera é um olho sobre o mundo, o travelling é um instrumento de conhecimento, a montagem não é demagogia, mas pontuação do nosso ambicioso discurso sobre a realidade humana e social do Brasil", continua ele, no já citado livro.
Com o lema "Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", o Cinema Novo foi um movimento cinematográfico brasileiro que surgiu no final dos anos 1950 e se consolidou nos anos 1960 e 1970, marcado por filmes de baixo orçamento, estética realista e forte crítica social. Liderado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros cineastas, o movimento buscava romper com o cinema comercial e retratar as contradições do Brasil.

Para Cláudio Marques, Deus e o Diabo na Terra do Sol, juntamente com Rio Zona Norte (1957) e Vidas Secas (1963), ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, são os primeiros filmes que "a gente tem uma sensação de originalidade absurda do cinema brasileiro".
Um vulcão em erupção
Ainda de acordo com Marques, a inquietude, a força e o vigor do Glauber faziam com que ele não parasse em lugar nenhum. Mas, o sertão atravessava todos os caminhos. "O que ele produziu é um pouco dessa mistura do sertão com Michelangelo Antonioni (cineasta italiano) e de Vittorio De Sicca (diretor e ator italiano) com a vaquejada. E ele leva isso para o cinema de uma maneira maravilhosa e única", reflete o diretor do Cine Glauber Rocha.
Marques acrescenta que nos filmes de Glauber sempre há a presença do teatro, mas de uma forma que deixa de ser teatro. É a carga dramática e um neorrealismo que trazem um aspecto único. "Há nisso uma novidade imensa, que nos faz perguntar de onde vem. É difícil rastrear suas origens, tamanha a originalidade dos filmes de Glauber, não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Ele mistura o que aprendeu no teatro, com Guimarães Rosa e com o neorrealismo italiano. De uma maneira geral, faz um caldeirão e sai alguma coisa nova. Isso ficou muito impregnado e é muito forte, mas não é exatamente popular. As pessoas hoje estão acostumadas com a linguagem televisiva, então acham estranho. Assistem a coreografia da capoeira de Barravento, por exemplo, e falam: 'ué, isso é mentira'. Não é mentira, é uma alegoria", explica.

Cinema e ditadura
Em julho de 1965, durante a ditadura militar no Brasil, Glauber apresentou Uma Estética da Fome, considerado um importante manifesto do cinema brasileiro, durante o congresso Terceiro Mundo e Comunidade Mundial, em Gênova (Itália). A produção foi mais uma de suas obras que marcou a história cultural e política do país. Por isso e por outros motivos, muitos o chamavam de gênio, mas ele discordava. "Sou despretensioso", afirmou em entrevista ao jornalista e escritor baiano Flávio Costa, em 1968. Essa entrevista ficou inédita até a década de 1990, quando foi descoberta no acervo Tempo Glauber, no Rio de Janeiro, e publicada na edição do A TARDE Cultural de 7 de agosto de 1996.
"O que não exclui a minha ambição de sempre partir do zero, expressar meu sentimento do mundo. Gênio é categoria romântica. Fica bem em Castro Alves, que era gênio mesmo. O que hoje existe é maior ou menor eficácia na produção intelectual. Não me interesso pelo assunto e, em geral, por causa da fama de gênio, perco bons amigos", completou Glauber, na entrevista.
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1969, rendeu ao cineasta conquistense vários prêmios. Um deles foi o de melhor diretor pelo Instituto Nacional de Cinema, no mesmo ano. No ano seguinte, 1970, com o endurecimento do regime militar, Glauber Rocha foi um dos artistas que partiu para o exílio. Nessa fase, viveu na Itália e em Portugal, mas passou por países como Chile, Argentina, Espanha e Estados Unidos, onde viveu uma temporada na casa de Francis Ford Coppola.
"Glauber era muito amoroso, muito agregador. Em algum momento um líder, um revolucionário cheio de ideias. Era ardoroso, cativante, carismático e fazia com que as pessoas o seguissem. Não era apenas dono das ideias, ele as colocava em prática, e isso tudo era apaixonante. Era um luxo termos um cineasta como esse na Bahia, no Brasil. Ele era muito admirado, mas também muito inconveniente. Não se contentava com nada menos que o todo. Apontava o dedo, cutucava feridas, criticava amigos e inimigos, e isso afastou muita gente. Ele era amado e temido ao mesmo tempo", reflete Marques.
Glauber Rocha retornou definitivamente ao Brasil em 1981. Estava bastante debilitado por graves problemas pulmonares. No mesmo ano, em 22 de agosto, morreu aos 42 anos, vítima de choque bacteriano provocado por broncopneumonia. Apesar da vida curta, sua trajetória foi intensa e produtiva, com 18 longas-metragens, diversos curtas e textos que permaneceram como referência e material de estudo para cineastas de gerações posteriores.

"Glauber era um homem de muitas certezas, um criador que partia às vezes do nada, com uma energia vulcânica, uma erupção. Isso fazia com que criasse obras admiráveis e relevantes, que não perderam sua originalidade. Poucos têm coragem de seguir esse caminho, ninguém consegue imitar Glauber Rocha. Sua obra permanece única no mundo todo. Os grandes cineastas continuam a mencioná-lo. Quando se estuda a história do cinema nos Estados Unidos, no Japão, na Hungria, na República Tcheca, lá estão os filmes e a personalidade de Glauber. Ele era uma pessoa admirável e permanece único. Ele e sua obra", afirma Cláudio Marques.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE