A TARDE MEMÓRIA
Halloween com tempero da Bahia já teve até recital de piano
Festa das bruxas veio importada da Europa e da cultura dos Estados Unidos


Entre seres mágicos, abóboras, fantasmas e raízes europeias, o Halloween encontrou um caminho para se instalar na Bahia. O que nasceu como celebração celta pelo fim da colheita, atravessou o Atlântico e, na Salvador dos anos 1950, apareceu em audições de piano.
Com o tempo, integrou a agenda de clubes sociais, eventos particulares, escolas e cursos de inglês. Aos poucos, a tradição importada deixou de ser apenas uma curiosidade cultural e se espalhou também pelo interior do estado. Hoje, o Dia das Bruxas mostra como uma festa estrangeira conseguiu fincar suas raízes no calendário local.
Embora o Halloween seja comemorado em 31 de outubro, um dos registros mais antigos em Salvador e que faz alusão ao evento aparece na edição de A TARDE de 1º de dezembro de 1950, em uma nota que anuncia a “audição de piano dos alunos da professora Rosita Batista”, que aconteceria às 16 horas do dia 3, na Associação dos Empregados do Comércio. No programa do recital, o aluno indicado como G. Martin iria executar a peça "Halloween Pranks" (Pegadinhas de Halloween), do compositor canadense Boris Berlin.
A doutora em literatura e cultura Raphaella Oliveira, professora do curso de Letras com Inglês da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), acredita que registros como a nota em uma edição de 1950 de A TARDE revela que a chegada do Halloween à Bahia não foi um fenômeno repentino, mas parte dos próprios fluxos culturais do Estado e de Salvador. "Isso também mostra que a festa estava em espaços restritos da sociedade e mais elitizados. Antes de se tornar festa de massa nas escolas, o Halloween funcionou como um elemento de distinção cultural e de contato mediado com o estrangeiro", argumenta.
Foi a partir da década de 1960 que marcas conhecidas do ensino de idiomas se expandiram pela Bahia. Nesse período, aprender inglês passou a ser visto como um requisito importante de empregabilidade. Os cursos de inglês também começaram a abandonar o método de tradução gramatical e focaram em conversação, exercícios de áudio e aprofundamento na cultura e costumes dos países anglófonos (falantes de inglês), atraindo mais jovens.
Com os cursos focados, principalmente, no ensino do inglês norte-americano, o Halloween se tornou recurso pedagógico para o aprendizado lúdico, que aproximava os alunos da festividade que, ainda hoje, possui grande força nos Estados Unidos. "O tradicional Dia das Bruxas, Halloween, do calendário folclórico americano será comemorado hoje nas escolas de inglês [...]. Os alunos comparecerão às aulas caracterizados de fantasmas, bruxinhas, duendes e diabinhos”, registra A TARDE, em 28 de outubro de 1982.

Halloween de baiano
Entre os anos 1980 e 1990, o Halloween se popularizou na Bahia mantendo as fantasias e abóboras como símbolos centrais, mas logo assumindo características próprias, com foco maior em festas internas, em vez da celebração norte-americana que engaja vizinhanças inteiras. "Foi no Bahiano de Tênis a comemoração animada do Dia das Bruxas, costume já incorporado dos americanos pelos nossos jovens. Uma noite divertida, com som, discoteca, fantasia e mil bruxarias", diz A TARDE, em 11 de novembro de 1991.
A tradição de sair de porta em porta pedindo doces, o “trick or treat” (doce ou travessura) dos EUA foi menos absorvida na vinda do Halloween para o Brasil. Na Bahia, por exemplo, o caruru de Cosme e Damião, em setembro, é que tem essa tradição de distribuição de doces. "Claro que a baianidade deu um toque especial na festa. Nos Estados Unidos e Inglaterra, na noite de Halloween, crianças se vestem de bruxa ou fantasma e saem às ruas batendo nas portas. 'Tricks or Treats', travessuras ou gostosuras, é o que dizem. Quando o dono da casa lhes dá doces e bombons, tudo bem. Quando não recebem nada, é a vez dos 'tricks' e a pirralhada sempre apronta alguma arte. Na Bahia, a festa acontece nos clubes e boates, em recinto fechado, ao som de dance-music", explica A TARDE, em reportagem da edição de 1º de novembro de 1996.
Apesar da diferença cultural, o Dia das Bruxas foi bem recebido pelos soteropolitanos e festas focadas no público adulto também ganharam espaço na cidade com o passar do tempo. Em 1997, por exemplo, um tradicional curso de inglês realizou duas festas em uma boate de Salvador: uma de dia, para as crianças e adolescentes; outra à noite, para os adultos, segundo registra a edição de A TARDE de 25 de outubro daquele ano.

Raphaella de Oliveira aponta que os cursos de inglês desempenharam duplo papel fundamental na popularização do Halloween tanto na Bahia quanto no restante do país: "Do ponto de vista pedagógico, é interessante pensar que aprender uma língua não é conhecer apenas os vocabulários ligados a ela, mas é também experimentar os eventos culturais que ocorrem relacionados aos países de origem dessa língua. O Halloween nos cursos de idioma permite que o processo de ensino e aprendizagem venha acompanhado da experiência de uma tradição viva para aqueles e aquelas que estão aprendendo a língua".
O outro papel recai sobre o vínculo de sociabilidade que o Halloween trouxe para as salas de aula. "Os estudantes ficam extremamente empolgados com esse processo da festa do Halloween. A compra de fantasias, músicas, encontrar outras pessoas... Tudo isso colabora também para a sociabilidade nesses espaços de cursos de idiomas, pensando principalmente nas décadas de 1980 e 1990, mas também atualmente", acrescenta a pesquisadora.
Hoje, além dos cursos de inglês, é comum escolas regulares incluírem o Dia das Bruxas em seus calendários letivos seguindo o ritmo festivo iniciado pelo Dia das Crianças, no começo de outubro. Os alunos são convidados a se fantasiar de fantasmas, bruxas, vampiros ou outros personagens de terror que se popularizaram graças à cultura pop. Também se tornou frequente moradores de condomínios residenciais organizarem festas temáticas.
Rituais pagãos
A palavra Halloween vem da expressão All Hallows’ Eve ou All Saints' Eve, “véspera do dia de Todos os Santos”, em tradução livre do inglês, usada no Reino Unido para designar a noite anterior ao Dia de Todos os Santos até meados do século XVI. Já a explicação mais aceita para a festa da noite de 31 de outubro e suas criaturas mágicas têm origem no Samhain, celebração celta que marcava o fim da colheita e o início do inverno. Nessa noite, acreditava-se que a barreira entre o mundo dos vivos e o dos mortos se tornava tênue, permitindo que ancestrais e entidades visitassem a Terra. Para afastar os espíritos, as pessoas apagavam as fogueiras e vestiam fantasias.
Com o avanço do cristianismo, a data foi incorporada ao calendário religioso, mas manteve traços da antiga tradição pagã. O cristianismo, inclusive, tem um tenebroso histórico de perseguição a pessoas acusadas de bruxaria, principalmente mulheres, durante a Santa Inquisição, quando os acusados pelas chamadas “artes das trevas”, a bruxaria listada entre elas, eram queimados em fogueiras. Mais tarde, imigrantes irlandeses levaram a festa para os Estados Unidos, onde a celebração se tornou popular, marcada por fantasias, abóboras iluminadas e brincadeiras que se espalharam pelo mundo.
Para Raphaella, a chegada do Halloween ao Brasil e à Bahia tem relação também com a globalização: "As transformações culturais do Halloween estão fortemente atreladas à indústria cultural norte-americana. A partir da literatura, cinema hollywoodiano, séries televisivas e música pop, a festa foi difundida e no Brasil ela passa por uma tradução cultural interessante, pois aqui não tem raízes históricas locais, não é uma festa do nosso país. Sendo assim, se insere como uma festa importada, mas que rapidamente se reconfigura", analisa.
Bruxas no interior
Ainda na década de 1990, os cursos de inglês se espalharam pelo interior da Bahia e o Halloween foi junto, mesmo que comemorado depois da data tradicional. "Monstros, bruxinhas e pequenos vampiros desfilarão caracterizados pelo salão de festas do Clube dos 100, a partir das 20 horas, com a realização da festa do Halloween de Santo Antônio de Jesus", informa A TARDE, em 9 de novembro de 1991. De SAJ, o Dia das Bruxas alcançou Feira de Santana, Vitória da Conquista, Itabuna e Ilhéus, entre outras cidades.
Entre 2014 e 2018, Raphaella de Oliveira integrou o projeto de extensão "What nós temos de Halloween?", desenvolvido no campus XXIII da Uneb, em Seabra, por estudantes do curso de Letras - Língua Inglesa. A iniciativa buscava compreender aspectos do Halloween, uma tradição estrangeira, a partir das histórias de medo e susto da Chapada Diamantina.
A professora explica que o projeto nasceu do convite aos estudantes para compartilharem narrativas de seu território e que a grande virada de chave foi justamente construir um diálogo entre os folclores estrangeiro e local.
"Nesse sentido, realizamos pesquisas buscando as histórias de terror, medo e lendas locais como forma, também, de difundir e valorizar a cultura. As escolas também foram abrangidas nesse processo e a partir disso, estudantes da graduação começaram a multiplicar essa perspectiva intercultural e a atuação enquanto mediadores entre a cultura do outro e a sua própria cultura, fosse em cursos de idioma ou em ambiente escolar público ou privado", diz a professora.
As experiências do "What nós temos de Halloween?" revelaram não apenas a presença do Dia das Bruxas, mas também a criação de espaços de pertencimento a partir do encontro de culturas.
"Quando nos reuníamos para partilhar pesquisas, produzir fanzines e outros materiais que foram resultados de cada edição, era muito interessante observar como o acesso à difusão e histórias não apenas de Seabra, mas do território da Chapada Diamantina, emergiram naquele contexto e como as pessoas se reconheciam à medida que contavam ou ouviam essas histórias. Acabamos criando um terceiro espaço, em que não apenas a nossa cultura estava sendo visualizada, mas a gente também estava conhecendo a cultura estrangeira", acrescenta Raphaella.
REPORTAGENS
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE