A TARDE MEMÓRIA
Simões Filho é tema de tese de doutorado nos 140 de seu nascimento
Jornalista e político baiano nasceu em 1886, fundou A TARDE aos 26 anos e foi ministro


Ele encontrou formas de fazer com que suas ideias alcançassem outras pessoas desde adolescente, quando deu os primeiros passos na imprensa. Dos periódicos experimentais à fundação de um veículo de comunicação que atravessou um século, foi movido pela força da escrita e das ideias até nos momentos em que ocupou ministérios e exerceu mandatos. Em outubro 1912, fundou A TARDE, jornal que nasceu para informar e articular forças que contribuíram para o desenvolvimento da Bahia, mas sem deixar de ser janela para o Brasil e o mundo. Hoje, A TARDE Memória relembra a trajetória de Ernesto Simões Filho nos 140 anos de seu nascimento.
Nascido em Cachoeira, no recôncavo baiano, em 4 de outubro de 1886, Ernesto Simões Filho tinha 14 anos e ainda era estudante no Colégio São José (antigo Ginásio Baiano, fundado por Abílio César Borges), em Salvador, quando criou, junto com alguns colegas, seu primeiro jornal amador, O Carrasco, periódico estudantil de sátira e crítica social.
"Alguns estudantes reuniram-se e resolveram fundar um jornalzinho, com vontade de desenvolverem suas culturas literárias e de ganharem algumas 'pataquinhas' (ainda se usava, naquela época, estas moedas), lado material da vida. Eram eles (...): Mario Torres, Simões Filho, Emilio Alves e Medeiros Netto", destaca reportagem publicada na edição de A TARDE de 15 de outubro de 1948, com base em depoimento de Octavio Torres, irmão do Mario Torres e amigo de Simões Filho na época do Ginásio São José.
Anos depois, já na Faculdade Livre de Direito da Bahia, criou junto aos amigos uma revista chamada O Papão, sátira política publicada quinzenalmente e inspirada na revista carioca O Malho (1902-1950). Simões Filho esteve à frente de O Papão por sete edições. Pouco depois e ainda na faculdade, começou a trabalhar na Gazeta do Povo, jornal de Virgílio de Lemos, que havia sido seu professor no Ginásio São José e no curso de direito.

Virgílio havia fundado a Gazeta em 1905 e o periódico foi a primeira experiência de Ernesto dentro de um jornal profissional, sem contar aquelas da adolescência, explica a historiadora Luana Moura Carvalho, que pesquisa a trajetória de Simões Filho em seu doutorado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). "Com a aproximação política de Simões Filho e Joaquim José Seabra, a Gazeta do Povo passou a ser um jornal seabrista. Em 1912, quando J.J. Seabra se tornou governador da Bahia, a relação entre os dois já estava desgastada", acrescenta a pesquisadora.
É nesse momento de afastamento de Seabra que Simões Filho planeja a fundação de A TARDE. Ele já havia passado por um mandato como deputado estadual na Bahia e era o então ministro da Viação e Obras Públicas, cargo que o deixou responsável pela administração dos Correios, quando, em 15 de outubro de 1912, publicou a primeira edição do vespertino.

"Ha dois mezes annunciamos a publicação d'A Tarde, nos moldes que, hoje, ella apparece. Fizemo-lo com a serena firmeza dos que teem fé", escreveu ele na capa da primeira edição. O jovem jornalista, na época com 26 anos, explicou que o seu desejo era fazer um jornal "honesto, bom e bem educado", pois essa era a fórmula que a imprensa da época usava para atrair leitores. "Devemos, pois, ao publico patricio a affirmação sincera de que A Tarde, secundada pelas auras de seu apoio, ha de ser um jornal digno", acrescentou Simões Filho no editorial da estreia.
A primeira edição de A TARDE foi republicada em fac-símile (reprodução fiel de um documento), em 1976, junto à uma das edições diárias do jornal. A iniciativa atendeu a inúmeros pedidos de leitores que desejavam ter essa primeira edição "como um marco da história da imprensa baiana".
Vanguardista
Luana Moura explica que Simões Filho criou A TARDE para ser um jornal moderno, com muito uso de imagens e menos colunas em sua divisão e em seu layout do que outros da época, incluindo a própria Gazeta do Povo. A historiadora ressalta que o grande desafio de Simões Filho naquele momento foi, justamente, criar esse jornal diferente dos demais e fora da arena política. "Não que A TARDE não fosse político, porque para Simões Filho isso era completamente impossível, mas a grande questão é que muitos jornais nessa época nasciam ao sabor das disputas políticas, o que não foi o caso de A TARDE. Ele nasce e é fundado com o pensamento de que aquele jornal seria uma empresa de comunicação", acrescenta Luana.
A ideia inicial era que A TARDE fosse um vespertino moderno e popular. “Ao trazer essa ideia para a Bahia [de um jornal que circulava à tarde], Simões Filho quis dizer que a Bahia, que foi o berço de grandes intelectuais, poetas e estadistas, também podia ter um jornal moderno e diferente dos outros da época, que muitas vezes nasciam e sumiam ao sabor das questões políticas. E hoje temos esse veículo com mais de 100 anos em circulação", diz.

A princípio, umas das principais inovações que o jornal trouxe era a quantidade de imagens nas páginas. Havia ainda títulos mais destacados, subtítulos explicativos e seções bem definidas. O uso de recursos visuais se destacava. Já na primeira edição, aponta Luana, há uma reportagem assinada por Teodoro Sampaio contra a derrubada da Igreja da Sé acompanhada de imagem.
Com o tempo, o jornal passou a utilizar fotografias como parte integrante da narrativa, mesmo em períodos de censura, como no Estado Novo, quando tratava da carestia de gêneros alimentícios. "Se queriam mostrar para a população, por exemplo, que não havia carne nos açougues, colocavam uma imagem de uma pessoa em frente ao açougue, com os ganchos das carnes vazios, e não um simples e longo texto sobre o assunto".
Buscando formas de melhorar a qualidade das reportagens, em 1914 Simões Filho enviou Diomedes Gramacho, fotógrafo e pioneiro do cinema baiano, para aprender a técnica do uso do clichê no Rio de Janeiro e possibilitar que A TARDE fizesse as próprias imagens. Com isso, o jornal se tornou o primeiro da Bahia a publicar fotografias. Nesses primeiros anos, o próprio Simões Filho saía nas ruas em um carro vendendo exemplares de A TARDE.
O fundador de A TARDE também investiu bastante na redação do jornal, chamando talentos do jornalismo como Ranulfo Oliveira, figura de destaque na imprensa baiana da época, e Jorge Calmon, renomado jornalista e historiador que Simões Filho convidou pessoalmente para integrar a redação.
Acadêmico
Em 1917, a Academia de Letras da Bahia (ALB) foi fundada e Ernesto Simões Filho foi um de seus membros fundadores, ocupando a cadeira 31, cujo patrono é o jornalista e advogado Belarmino Barreto. A vida de acadêmico, homem público e jornalista corriam em paralelo. A popularidade e a credibilidade do jornal e do homem a frente dele cresciam ano após ano.
A próxima grande inovação que Simões Filho trouxe para o jornal ocorreu em 1920, com a compra da máquina de linotipo que substituiu a composição manual, onde cada letra (tipo móvel) era encaixada à mão uma a uma. A linotipo reduziu o tempo de produção de jornais e livros, barateando o processo. A chegada dessa tecnologia foi uma grande revolução em A TARDE e no jornalismo baiano da época.
Em 1913, na edição de 4 de outubro, aniversário de 27 anos do fundador, A TARDE anunciou que Simões Filho iria se dedicar integralmente ao jornalismo, "encerrando a sua carreira partidária para entrar, com absoluta isenção, no exercício de homem da imprensa".
Mas ele não demoraria a se engajar outra vez no meio político. Em 1924, iniciou mandato como deputado federal e é em meio aos trabalhos na Câmara, faz o jornal avançar mais uma vez ao construir do zero uma sede própria para o periódico. O jornal, que já havia funcionado na Rua da Preguiça e na Rua Santos Dumont, inaugurou a primeira sede, na Praça Castro Alves, seis anos depois. A TARDE permaneceu nesse endereço até 1975, quando outra revolução tecnológica na empresa, a criação do parque gráfico, culminou com a inauguração da sede atual, na Avenida Tancredo Neves (Caminho das Árvores). A vinda de A TARDE para a região foi um dos vetores de desenvolvimento da avenida e entorno, inclusive, atraindo outras empresas.
Revolução e exílio
A inauguração da primeira sede própria de A TARDE coincide com a Revolução de 30, que causou um grande abalo na vida pessoal, profissional e política de Ernesto Simões Filho. O prédio recém-inaugurado do jornal foi depredado e vandalizado. Pouco depois, ele se exilou na Europa. Em 1932, retornou à Bahia, mas após apoiar a Revolução Constitucionalista, voltou ao exilio, regressando à Bahia em 1934, quando foi eleito deputado federal constituinte.
Na década de 1940, A TARDE se consolidou como um dos principais vetores de modernização da imprensa baiana e nacional, com destaque para os investimentos na ampla cobertura da II Guerra Mundial e pelo pioneirismo em fotojornalismo. Ao incorporar tecnologias inovadoras, como radiofotos e telefotos, o periódico rompeu barreiras geográficas e temporais, trouxe imagens e informações em tempo quase real do mundo para a Bahia.

Na década seguinte, com Getúlio Vargas eleito presidente, Simões Filho assumiu o Ministério da Educação e Saúde. À frente da pasta, ajudou na implantação da Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior (Capes) e participou ativamente dos debates que resultaram na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Figura histórica
O que chamou a atenção de Luana Moura logo que começou a pesquisar a trajetória de Simões Filho foi a impossibilidade de separar as figuras do jornalista e do político. "Percebi que existe um par indissociável. Não posso dizer que pesquiso apenas a trajetória política de Simões Filho ou apenas o jornalista Simões Filho. Estou sempre pesquisando sua trajetória política e intelectual, entendendo-o como intelectual, produtor de jornal e empresário da comunicação", explica a historiadora.
Enquanto viveu, mesmo fora da Bahia ou do Brasil, em períodos de exílio, estivesse ocupando ou não cargos públicos, Simões Filho mantinha contato direto com a redação de seu jornal para apontar os caminhos do jornalismo que ele queria que A TARDE praticasse, acrescenta Luana. "Encontrei esse tipo de comunicação em alguns documentos e correspondências entre ele e Ranulfo Oliveira, que foi redator-chefe de A TARDE por um longo tempo. Vemos ali o foco dele em que o jornal não deixasse de circular e a dimensão da preocupação dele, mesmo que fosse um político e que estivesse envolvido na situação ou mesmo na oposição, em que o jornal era uma empresa e que precisava estar todos os dias produzindo e circulando o jornal".
No caderno especial do centenário de nascimento de Simões Filho, na edição de A TARDE de 4 de outubro de 1986, o escritor Jorge Amado afirmou em um texto: "Qualquer um de nós pode reencontrar Simões Filho e com ele conviver a cada dia nas páginas de A TARDE, pois em seu jornal perdura o espírito, a inteligência, o humanismo do mestre de jornalismo que o fundou e logo o situou entre os maiores e mais importantes órgãos da imprensa brasileira".
Ernesto Simões Filho morreu em 24 de novembro de 1957, aos 71 anos. Seguindo seu desejo, seu corpo foi transferido para Salvador e velado na antiga sede de A TARDE, com grande participação popular e de admiradores.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE