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A TARDE MEMÓRIA

Waldir Pires dedicou vida e carreira à defesa da democracia

Político baiano se manteve na ativa até os 90 anos

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Waldir Pires durante campanha eleitoral para o governo da Bahia em 1986
Waldir Pires durante campanha eleitoral para o governo da Bahia em 1986 - Foto: Cedoc A TARDE/16.11.1986

O Brasil aprendeu que a democracia precisa de defesa constante depois de 21 anos mergulhado em uma ditadura militar. E um baiano, que viveu em exílio durante esse período sombrio da história nacional, era defensor inegociável da participação do povo na política. Nascido em 21 de outubro de 1926, Waldir Pires construiu desde a juventude no movimento estudantil, passando pela resistência ao golpe de 1964 e a redemocratização do país a partir de 1985, uma trajetória guiada pela certeza de que a democracia só se realiza plenamente quando garante a igualdade entre todos os cidadãos. No mês do seu centenário, mergulhamos no acervo histórico de A TARDE para recontar parte da história de um dos políticos baianos mais respeitados do século XX.

Ao longo de sua vida pública, Waldir Pires buscou fazer da política um espaço de esperança, legando uma atuação pública dedicada à justiça social e à afirmação dos direitos humanos. Seu primeiro nome é Francisco [Francisco Waldir], homônimo ao do santo católico que se doava aos mais necessitados. Nasceu em Acajutiba e começou a estudar em Amargosa, passando depois para Nazaré das Farinhas, onde fez o antigo curso ginasial e, mais tarde, se mudou para Salvador, onde concluiu o ensino médio no Ginásio da Bahia.

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No colégio ele começou a vida política a partir do movimento estudantil. Ao mesmo tempo, trabalhava para garantir a permanência na escola. A graduação ele concluiu em 1949, quando foi orador da primeira turma de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Na Faculdade de Direito, participou ativamente das lutas estudantis, especialmente em defesa da criação da Petrobras. O espírito de combater nas fileiras democráticas vem desde essa época.

"A insistência de Waldir Pires na afirmação da democracia e da política como elementos civilizatórios foi uma de suas contribuições mais importantes dentro da política. Ele defendia a política como um instrumento da civilização porque a política permite a convivência de contrários, desde que com respeito", explica o jornalista e escritor Emiliano José, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e autor da biografia em dois volumes de Waldir Pires.

Emiliano teve inúmeras conversas com o político para produzir o livro e conta que ele era um admirador da democracia ateniense, da Revolução Francesa e da Revolução Americana, mas que sempre lembrava que nenhuma dessas experiências realizou plenamente o potencial de um ‘governo do povo para o povo’. "Ele sempre dizia em nossas conversas que a democracia ainda não havia se realizado no mundo”, afirma o autor.

Waldir Pires em 1953 aos 27 anos
Waldir Pires em 1953 aos 27 anos - Foto: Cedoc A TARDE

Na Grécia e na França, pensava Waldir, houve exclusão de grande parcela da sociedade. E, no caso dos Estados Unidos, apesar da revolução que libertou o país da Inglaterra, o regime escravagista foi mantido até a Guerra Civil, deixando marcas profundas que ainda hoje afetam e explicam o país. Por isso, mesmo diante das revoluções que admirava, buscou não se inebriar pelo que Emiliano chama de ‘liberalismo democrático’.

"Para ele, a democracia não poderia ser um regime apenas de eleições. Ela é, claro, um fruto das eleições, mas não se pode resumir a isso. Para Waldir, a democracia é, sobretudo, a afirmação da igualdade entre todos os seres humanos e essa era a luta dele. Por isso digo que o legado de Waldir Pires não é simplesmente uma obra ou um momento em sua carreira, mas uma trajetória absolutamente rigorosa no leito da democracia, sem nunca se afastar dela”.

Carreira e exílio

A carreira política de Waldir Pires começou aos 24 anos, pouco depois da formatura em Direito, quando assumiu o posto de secretário de Estado do então governador da Bahia, Regis Pacheco. A função era parecida àquela que hoje corresponde à de um secretário de Relações Institucionais. "Isso foi em 1950. Em 1954, ele se elege deputado estadual e se torna, na prática, o líder do governo de Antônio Balbino. Havia um líder de direito, mas ele era o líder de fato do governo que foi bastante progressista para o momento", acrescenta Emiliano José.

Em 1958, Waldir foi eleito deputado federal e em 1962 disputou pela primeira vez o governo da Bahia. Foi derrotado por Lomanto Júnior por menos de 5% de diferença nos votos, "mas conseguiu se afirmar como um grande nome da vida política baiana naquele momento", afirma Emiliano. Com a derrota, ele abraça a área acadêmica e se torna docente do curso de Direito da Universidade Católica do Salvador (Ucsal) e depois passa a ser um dos professores da Universidade de Brasília, junto com Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

No ano de 1959, foi chamado para ser Delegado Federal do Ministério da Educação (MEC) na Bahia e Sergipe, cargo que ocupou oficialmente até 1969. E, em 1963, se tornou Consultor-Geral da República, assumindo a Controladoria Geral da República do governo João Goulart. "Passa a integrar o governo reformista de Goulart. Era ele quem redigia os principais investimentos e decretos, como o bloqueio do envio de dinheiro brasileiro para o exterior e a reforma agrária. Tudo que Goulart tentou colocar em prática, Waldir Pires foi quem redigiu. Então veio o golpe", aponta o biógrafo.

Com a ditadura militar, continua Emiliano, Waldir Pires fugiu para exílio junto com Darcy Ribeiro, Mas, para não serem presos em uma viagem convencional, fugiram em um “teco-teco” (nome popular dos aviões monomotores) abastecido com gasolina de caminhão, até chegarem ao Uruguai. Sem conseguir emprego no país vizinho para sobreviver com a família, Yolanda Avena, com quem se casou em 1950, e os filhos do casal, ele vai para a França, onde dá aulas primeiro na Universidade de Dijon e depois na Universidade de Paris (Sorbonne). Voltou ao Brasil em 1970, com salvo-conduto do Ministério das Relações Exteriores.

Atuação nos bastidores

Ao desembarcar no Rio de Janeiro na volta do exílio no exterior, Waldir prestou um longo depoimento aos agentes da repressão da ditadura e depois foi levado para a Polícia Federal, onde foi avisado que estava proibido de sair da cidade sem autorização. "Ele passa de 1970 até 1978 numa espécie de semiexílio no Rio de Janeiro, porque não podia exercer nenhuma atividade abertamente política. Mas ainda assim consegue se envolver politicamente", explica Emiliano José. Ele ajudou na eleição de Francisco Pinto para deputado federal na Bahia e outras eleições no Rio de Janeiro, mantendo contato com a esquerda brasileira.

Waldir Pires durante campanha eleitoral para o governo da Bahia em 1986
Waldir Pires durante campanha eleitoral para o governo da Bahia em 1986 - Foto: Cedoc A TARDE/16.11.1986

Para se manter economicamente na nova situação, investiu em uma empresa de extração de brita e granito. Seu primeiro sócio foi o ex-deputado Rubens Paiva, que posteriormente foi assassinado pela ditadura. “Em paralelo à atividade profissional, mantinha contatos políticos com os que resistiram na clandestinidade, como Marco Antônio Coelho, Giocondo Dias, Luís Maranhão e Cibilis Viana entre outros", informa o perfil biográfico de Waldir Pires no Dicionário Biográfico-Histórico da Bahia, da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé.

Emiliano José conta que Waldir Pires era bem próximo de Rubens e no dia 20 de janeiro de 1971, quando o ex-deputado foi sequestrado, Waldir o havia visitado e quase ficou para almoçar com a família Paiva. "Era Dia de São Sebastião, feriado no Rio de Janeiro, e Waldir disse que não podia ficar pois tinha combinado algo com Yolanda e os filhos. Remarcou o almoço para o sábado seguinte. Se ele tivesse aceitado, provavelmente também teria desaparecido naquele dia".

De volta à Bahia em1979, foi recebido como um líder natural da oposição no Estado e com grande festa, acrescenta Emiliano. “Tinha muita gente no aeroporto, pois era uma liderança que voltava. Waldir fez isso com muita consciência, porque no final de 1978, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) havia sido extinto, o que lhe dava liberdade para essa movimentação. Também já estávamos às portas da anistia, que iria acontecer em agosto. Tudo isso deu a ele, até certo ponto, tranquilidade para voltar à Bahia e participar da vida política do estado outra vez".

Nova candidatura de Waldir Pires

Em 1982, já com eleições diretas para governador, Waldir Pires avaliou que ainda não era o momento de disputar o cargo e apoiou a candidatura de Roberto Santos, mas visto como uma figura democrática. Waldir então opta por concorrer ao Senado e embora não tenha sido eleito, obteve quase um milhão de votos.

Três anos depois, se tornou ministro da Previdência e Assistência Social, já na fase de redemocratização. "O ministro Waldir Pires fez um vigoroso discurso contra a fome e o desemprego: Só haverá democracia na medida em que, ao lado da liberdade, tenhamos atendidas as necessidades existenciais básicas", transcreveu A TARDE, em 16 de março de 1985. No mesmo ano, em meio às discussões sobre quem seu partido escolheria para concorrer à prefeitura de Salvador, o então ministro visitou a sede do jornal e fez questão de ir ao parque gráfico cumprimentar os trabalhadores, como diz a edição de 25 de maio de 1985.

Visita do então ministro Waldir Pires ao setor industrial de A TARDE
Visita do então ministro Waldir Pires ao setor industrial de A TARDE - Foto: Cedoc A TARDE/24.5.1985

No ano seguinte, Waldir Pires se lançou candidato ao governo da Bahia. "A campanha de 1986 mobilizou a alma, o coração, os sentimentos e as melhores esperanças do povo baiano. Ele venceu a eleição de maneira memorável”, conta Emiliano José. O governador eleito assumiu o cargo em 1987 e, ainda segundo seu biógrafo, “tomou posse diante de uma Bahia de terra arrasada".

A TARDE registrou o cenário e o ânimo do novo chefe do executivo baiano: "O governador eleito da Bahia, Waldir Pires, afirmou, ontem, que não vai assumir o governo pessimista porque considera que o pessimismo não se ajusta com o desafio que está posto à sua frente", diz a edição de 12 de março de 1987.

Um dos seus principais focos estava na saúde e foi durante sua gestão que o Hospital Geral do Estado (HGE) e outras unidades de saúde no interior, como o Hospital Geral de Camaçari (HGC), foram inaugurados. A gestão foi marcada por iniciativas inéditas que enfrentaram, inclusive, resistência entre alianças políticas. "Foi um governo em que ele se permitiu governar e que foi de grande qualidade. Ele trouxe um novo parâmetro ético, onde ele não admitia nenhum tipo de corrupção e não houve uma única acusação de desvio de dinheiro público, por exemplo. Foi um governo absolutamente inovador", afirma Emiliano José.

Mas, em 14 de maio de 1989, o então governador tomou a decisão mais polêmica da carreira pública. Com pouco menos de dois anos e meio gerindo o estado, Waldir Pires renunciou ao cargo para se candidatar à vice-presidência, na chapa com Ulisses Guimarães, que havia presidido a Assembleia que redigiu e aprovou a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã.

"Foi uma decisão que, até hoje, é muito discutida. Ele dizia ter sido a decisão mais difícil da vida dele. E hoje, olhando a História, evidentemente foi um equívoco, mas isso é parte da vida política: só não comete equívoco quem não está mergulhado na vida política. Ele renuncia, se torna vice de Ulisses, e Ulisses perde. Foi um desastre político muito grande", diz Emiliano.

Desastre pelo pleito perdido e, principalmente, pelo mandato interrompido. "Com o corte da renúncia, aquilo que ainda poderia ser feito, e muita coisa poderia ser feita, não foi feito. Ele poderia, inegavelmente, fazer um sucessor. [...] A verdade é que o governo de Waldir Pires deixou marcas de grande qualidade, mas que nunca foi concluído", reflete Emiliano José.

Em 1991, Waldir foi eleito deputado federal, cargo que ocupou até 1995, pelo PDT, e que voltou a ocupar em 1999, pelo PT. Esse último mandato foi finalizado em 2003, quando foi chamado para ser o Ministro-Chefe da Controladoria Geral da União (CGU) no primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva como presidente. "Nessa função que tinha o status de ministro, ele foi responsável por diversas denúncias contra prefeituras, secretarias e governos que recebiam recursos do governo federal e desviavam para fins aos quais não eram direcionadas", diz a biografia dele na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé.

Após dois anos e meio à frente da CGU, foi convidado pelo presidente Lula para assumir o Ministério da Defesa, cargo que aceitou e desempenhou durante a crise no setor aéreo brasileiro e um momento delicado da política nacional. Sua última função pública, porém, seria mais próxima do início: em outubro de 2012, foi eleito vereador de Salvador pelo PT. Cumpriu integralmente o mandato até 31 de dezembro de 2016, encerrando sua longa trajetória política aos 90 anos.

Waldir Pires com o cantor e compositor Gilberto Gil
Waldir Pires com o cantor e compositor Gilberto Gil - Foto: Milton Mendes/Cedoc A TARDE/13.2.1987

Cerca de um ano e meio depois, aos 91, Waldir Pires morreu após parada cardiorrespiratória. "Waldir Pires foi uma pessoa que expressou bem aquilo que Hannah Arendt diz sobre a principal virtude do político ser a coragem. Pode parecer uma coisa muito simples, mas não é. A política exige coragem e tomada de posição. Waldir era um sujeito sereno, terno, educado e civilizado, como cabe ao bom político, segundo o que ele próprio dizia. Mas também era um homem de posições rigorosas, firmes e disposto a ousar. Quando ele decidia, estava decidido e seguia adiante. A utopia da democracia era a grande meta do Waldir Pires e para ele não importava que não conseguisse realizá-la inteiramente, mas sim se aproximar um pouco mais de concretizá-la a cada dia de luta", afirma Emiliano.

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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