A sintonia que decide jogos e o preconceito que ainda escala times
Tostão analisa a evolução do meio-campo, os dilemas da seleção e o peso do racismo estrutural no futebol brasileiro

A comparação entre a possível dupla formada por Gerson e Matheus Pereira e a antiga parceria entre Tostão e Dirceu Lopes revela uma dimensão rara no futebol: a sintonia.
Mais do que posicionamento ou estratégia, havia uma conexão quase intuitiva. Enquanto Dirceu Lopes era veloz e habilidoso, capaz de atravessar o campo em segundos, Tostão se destacava pelos passes rápidos, inteligência e capacidade de finalização. Funções diferentes, complementares.
Era uma comunicação “analógica”, feita pelo olhar, pelo gesto, pelo movimento — menos precisa, porém mais criativa.
Do trio clássico ao dilema moderno
Naquele time, Piazza completava o trio no meio-campo, atuando mais recuado. Um modelo que hoje voltou a ser comum em grandes equipes como FC Barcelona e Manchester City, além de seleções como Espanha e Portugal.
No Brasil, porém, ainda predomina o modelo com dois volantes e um meia ofensivo centralizado — uma divisão antiga que limita a fluidez do jogo.
Esse é o dilema enfrentado por Carlo Ancelotti na Seleção Brasileira.
Equilíbrio entre liberdade e marcação
Contra a França, o Brasil atuou com dois volantes e um meia avançado. Já contra a Croácia, houve uma variação importante: Matheus Cunha recuou, formando um trio no meio ao lado de Casemiro e Danilo.
Com isso, Vinicius Junior ganhou liberdade para atuar sem obrigações defensivas — o que melhora seu rendimento.
Mesmo assim, em ambas as formações, faltou algo essencial no futebol moderno: compactação.
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Mais do que estratégia
Hoje, não basta ter bons jogadores e uma boa ideia tática. Um grande time precisa:
- Ser compacto;
- Jogar com intensidade;
- Pressionar em todo o campo;
- Alternar entre posse de bola e transições rápidas.
O futebol evoluiu — mas o olhar sobre o jogo, muitas vezes, não acompanhou. Persistem clichês, análises simplistas e conceitos ultrapassados.
Treinadores: supervalorizados e subestimados
Existe uma contradição clara: técnicos são tratados como gênios nas vitórias e culpados absolutos nas derrotas.
Eles são importantes, claro. Mas não controlam tudo. O futebol é feito também de detalhes, acasos e imprevisibilidades.
Racismo estrutural no banco de reservas
No caso de Roger Machado, as críticas iniciais levantam uma questão mais profunda.
Além de dúvidas sobre estilo, há indícios de um problema maior: o racismo estrutural.
A resistência a seu trabalho pode carregar, ainda que de forma inconsciente, a ideia absurda de que um treinador negro não teria capacidade para comandar um grande clube.
É um reflexo de uma sociedade que ainda precisa evoluir — dentro e fora do futebol.
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