ANÁLISE
O caso Master e a seletividade de Mendonça
Confira análises sobre como revelações sobre Vorcaro e Jaques Wagner impactam o eleitorado


O ministro do STF André Mendonça autorizou a operação de investigação do senador Jaques Wagner (PT) em 17 de junho e tornou público os autos da PET 16.210 em 30 de julho, expondo o senador com uma rapidez e amplitude anormal. Já o inquérito do Dark Horse, que envolve a relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, permanece sob sua relatoria desde julho sem qualquer movimento visível, reforçando indícios de uma proteção velada aos bolsonaristas.
A seletividade de Mendonça aparece também no recorte investigado dentro da rede de Augusto Lima, o banqueiro baiano ex-sócio do Master e alvo da quebra de sigilo que atingiu Wagner. Lima tem relações documentadas com ACM Neto e João Roma, mas só o eixo ligado a Wagner recebeu tratamento equivalente até aqui.
Esta lacuna ficou ainda mais evidente com o segundo fato da semana. A proposta de delação de Vorcaro que veio à tona pela imprensa atribui a ACM Neto e ao presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, a intermediação de recursos dos institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Cedae, direcionados ao Master, que teria captado R$ 2 bilhões desta forma, mediante comissão de 10% sobre o captado, com ganhos que poderiam chegar a R$ 200 milhões.
A Polícia Federal e a PGR rejeitaram os termos da proposta, mas fica claro que a investigação isentou um exame mais amplo das conexões do Master com ACM Neto, Rueda e João Roma, este último aliado declarado de Flávio Bolsonaro, prova de que o bolsonarismo também transita por esta rede, não apenas o campo governista.
O efeito eleitoral desta nova etapa do escândalo atinge a Bahia diretamente. Enquanto Lula tenta se manter à distância da crise entre Moraes e Mendonça, o suposto vínculo entre ACM Neto e Vorcaro pode se fortalecer diante do eleitorado lulista que hoje prefere votar no ex-prefeito nas grandes e médias cidades baianas.
Na pesquisa AtlasIntel/A TARDE divulgada recentemente, 26,6% de quem votou em Lula no segundo turno de 2022 diz pretender votar em ACM Neto para governador, mais de um quarto do eleitorado lulista diretamente exposto à vinculação de Neto a Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Esta base tensiona a permanência do voto Lula-Neto num cenário que já reúne evidências de laços entre Flávio Bolsonaro no Dark Horse, Vorcaro, a proteção seletiva de Mendonça sobre este eixo e, agora, a presença direta de Neto na mesma teia de relações.
Nesta reta final de campanha, o caso Master obriga o segmento lulista do voto casado em ACM Neto a escolher entre permanecer com o presidente ou seguir fiel ao ex-prefeito, coerência que até aqui vinha custando pouco e que, a cada revelação do Master, pode aumentar o custo político envolvido na decisão do voto.