JULY
Psicóloga fala sobre desafios emocionais em preparação para o Enem
Coluna July desta sexta-feira, 3


A psicóloga Mônica Ribeiro fala sobre os desafios emocionais que envolvem a preparação para o ENEM e os vestibulares. Na entrevista, ela explica como fatores como ansiedade, pressão, autocobrança e expectativas podem impactar o desempenho dos estudantes e compartilha orientações para enfrentar esse período com mais equilíbrio, confiança e saúde emocional.
De que forma a ansiedade antes e durante provas como o ENEM pode impactar a tomada de decisão e a memória de curto prazo?
A ansiedade pode interferir diretamente no desempenho durante provas como o ENEM porque afeta funções cognitivas essenciais, como a atenção, a memória de trabalho e a tomada de decisões. Quando o estudante percebe a prova como uma ameaça, o cérebro passa a direcionar mais recursos para lidar com o estresse do que para recuperar informações e raciocinar com clareza. Como consequência, podem surgir os refletem necessariamente o conhecimento do estudante. Por isso, cuidar da saúde emocional e aprender estratégias de regulação da ansiedade faz parte de uma preparação tão importante quanto o estudo do conteúdo.
Por que muitos estudantes estudam bastante, mas sentem que não evoluem no desempenho? Isso pode ter relação com fatores psicológicos?
Sim. Estudar muitas horas não garante, por si só, um melhor desempenho. A aprendizagem também depende da qualidade do estudo, do sono, da organização da rotina e do funcionamento emocional do estudante. Ansiedade, autocobrança excessiva, medo de errar e dificuldades de concentração podem prejudicar a atenção, a consolidação da memória e a recuperação das informações durante a prova. Além disso, quando o jovem acredita que seu valor depende do resultado, tende a estudar sob intensa pressão, o que pode aumentar o estresse e dificultar ainda mais o desempenho. Por isso, uma preparação eficaz para o ENEM precisa cuidar tanto da aprendizagem quanto da saúde emocional.
Até que ponto a pressão da família, da escola e das redes sociais pode comprometer a autoconfiança do estudante durante a preparação para o ENEM e os vestibulares?
A pressão da família, da escola e das redes sociais pode comprometer significativamente a autoconfiança quando faz o estudante acreditar que seu valor depende do desempenho. A expectativa, por si só, não é o problema. O que faz diferença é a forma como ela é vivida pelo jovem. Quando ele se sente constantemente comparado, julgado ou acredita que precisa corresponder às expectativas de todos, a ansiedade aumenta e a confiança diminui. Em contrapartida, quando família e escola oferecem apoio, acolhimento e valorizam o esforço, e não apenas o resultado, contribuem para que o estudante enfrente esse desafio com mais segurança emocional e confiança em suas capacidades.
Como o excesso de expectativa dos pais e das pessoas próximas pode afetar o desempenho emocional e cognitivo dos candidatos?
As expectativas das pessoas que fazem parte da vida do estudante costumam nascer do desejo de vê-lo crescer e conquistar seus objetivos. No entanto, quando são excessivas ou percebidas como uma condição para receber reconhecimento e aprovação, podem gerar uma sobrecarga emocional importante. O jovem passa a estudar movido pelo medo de decepcionar, e não apenas pelo desejo de aprender. Esse estado de tensão aumenta a ansiedade e pode comprometer funções cognitivas essenciais, como atenção, memória e tomada de decisões. Por isso, o papel da família é oferecer incentivo e segurança emocional, ajudando o estudante a compreender que seu valor como pessoa não depende do resultado de uma prova.
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Existem técnicas psicológicas eficazes para manter foco durante uma prova longa e cansativa como o ENEM?
Sim. Existem estratégias psicológicas que ajudam o estudante a manter o foco e a lidar melhor com o desgaste ao longo da prova. Técnicas de respiração, atenção plena, diálogo interno mais equilibrado e pausas breves para reorganizar o pensamento podem reduzir a ansiedade e favorecer a concentração. Além disso, treinar essas estratégias durante os simulados é fundamental, porque elas tendem a ser mais eficazes quando já fazem parte da rotina do estudante. O objetivo não é eliminar a ansiedade, mas aprender a regulá-la para que ela não comprometa o desempenho.
Três estratégias podem fazer diferença durante a preparação e também no dia da prova:
- Respiração diafragmática: Respirar lenta e profundamente por alguns minutos ajuda a reduzir a ativação fisiológica da ansiedade, favorecendo a concentração e a clareza para pensar.
- Reestruturação dos pensamentos: Quando surgirem ideias como “eu não vou conseguir” ou “se eu errar acabou”, o estudante pode substituí-las por pensamentos mais realistas, como: “Eu me preparei, vou fazer uma questão de cada vez”. Essa mudança reduz a autocobrança e facilita o raciocínio.
- Atenção ao momento presente: Durante a prova, manter o foco na questão que está sendo resolvida, em vez de pensar no resultado final ou comparar o próprio desempenho com o dos outros, ajuda a preservar a atenção e a tomar decisões com mais tranquilidade.
Essas estratégias são mais eficazes quando são praticadas ao longo da preparação, e não apenas no dia da prova. Assim como o conteúdo é treinado, a autorregulação emocional também pode ser desenvolvida.
O que fazer quando o estudante trava em uma questão e isso começa a afetar o restante da prova?
Quando o estudante trava em uma questão, o mais importante é não permanecer nela por muito tempo, porque isso pode aumentar a ansiedade e comprometer o desempenho no restante da prova. Uma estratégia eficaz é reconhecer o bloqueio, fazer uma breve pausa para regular a respiração, marcar a questão e seguir para as próximas. Isso ajuda a preservar o foco e evita que uma única dificuldade gere um efeito de insegurança em cadeia. Depois, o estudante pode retornar à questão com mais tranquilidade. O ponto central é compreender que a prova exige gestão do tempo e do estado emocional para que todas as questões possam ser enfrentadas com clareza.
Como preparar a mente para lidar com possíveis frustrações após o resultado, independentemente do desempenho?
A preparação emocional para lidar com o resultado do ENEM começa antes da prova, com a compreensão de que o desempenho não define o valor pessoal do estudante. Desenvolver essa mentalidade ajuda a reduzir o impacto emocional de possíveis frustrações e permite que o jovem atravesse esse processo com mais equilíbrio. É importante também que famílias e escolas evitem associar o resultado a julgamentos sobre capacidade ou futuro, oferecendo um ambiente de apoio, escuta e acolhimento, independentemente do desfecho.
Para os estudantes, eu diria que o ENEM é uma etapa importante, mas não é um ponto final na vida. Ele representa um momento de construção, não de definição de identidade. Que vocês consigam entrar na prova com preparo, mas também com a consciência de que o seu valor vai muito além de um resultado.
E deixo uma mensagem que considero essencial: o importante não é quando você chega, mas sim como você chega. Que esse processo seja vivido com esforço, mas também com cuidado, respeito a si mesmo e espaço para recomeços, independentemente do resultado final.


