ESPORTE CLUBE BAHIA
Paradoxo do Grupo City: Bahia há 58 rodadas no G8 e Ceni em divórcio com a torcida
Sequência recorde na Série A expõe o abismo entre o pragmatismo da SAF e a sede por títulos


Enquanto caminha para cravar o maior período de estabilidade de sua trajetória no Campeonato Brasileiro por pontos corridos, o Bahia se vê imerso em um racha ruidoso com a arquibancada. A um jogo de alcançar dez partidas de invencibilidade na Série A — marca histórica que pode ser selada no duelo contra o Red Bull Bragantino —, o Tricolor de Aço reingressou no G5 com a vitória por 3 a 2 sobre o Internacional na Fonte Nova.
A despeito do fôlego na tabela e dos quatro triunfos e cinco empates acumulados nessa sequência, o clima que circunda o trabalho de Rogério Ceni contraria os números: a impressão em Salvador e no ambiente digital é de crise contínua e insatisfação generalizada.
Essa distância entre o pragmatismo das estatísticas e o descontentamento da torcida traduz o momento do clube sob a gestão do Grupo City. A dor de cabeça do torcedor não nasce da ausência de resultados no Brasileirão, mas do acúmulo de frustrações em torneios de mata-mata, somado ao desejo por taças por parte da torcida. É a frieza do projeto de longo prazo X a ansiedade de quem quer protagonismo da arquibancada.
Sempre na primeira metade
Historicamente, na era pré-City, o Bahia conviveu com constantes oscilações na Série A, frequentemente flertando com a zona de rebaixamento. Sob o comando do Grupo City, contudo, o patamar mudou, mesmo que alguns não queiram reconhecer. O clube ostenta a impressionante marca de 58 rodadas consecutivas dentro do G8 do Brasileirão da Série A. Na atual temporada, a pior colocação do time em toda a competição foi o sexto lugar. O 'drama' do clube virou o oitavo lugar, posição que não é ocupada desde a 10ª rodada de do Brasileirã de 2025.
A regularidade é incontestável e desenha um cenário inédito para o clube na elite nacional. No returno da Série A, o Bahia já somou 10 pontos, mantendo-se firme na briga direta pelas primeiras posições e por mais uma vaga consecutiva na Copa Libertadores da América. Sonho ainda possível.
Ainda assim, o torcedor tricolor parece não estar desfrutando desse momento de calmaria na tabela do Brasileirão. O desejo por mais e mais é imparável.
Recorde histórico pode vir contra o Bragantino
Neste sábado, o Bahia entra em campo contra o Red Bull Bragantino com a chance de colocar a temporada de 2026 de vez na história do Tricolor. Caso consiga ao menos um empate, o Tricolor de Aço atingirá 10 jogos de invencibilidade na Série A, o que seria a sua maior sequência invicta de sua história na era dos pontos corridos.
O jogo é a oportunidade perfeita para o Bahia consolidar sua posição no G5 e melhorar a relação com a torcida e dar mais paz para Ceni traz
Trauma das Copas e as comparações indigeríveis
A primeira resposta para a fúria das arquibancadas está no mata-mata. Enquanto o Brasileirão premia a regularidade de longo prazo, a torcida do Bahia acumula frustrações recentes em torneios de tiro curto.
- Copa do Brasil: A eliminação precoce e vexatória para o Remo (derrota por 3 a 1 em casa e derrota por 2 a 1 fora) foi a gota d'água para muitos. O revés adicionou mais um ano de angústia em uma competição que o clube historicamente sonha em conquistar.
- Torneios continentais: Na temporada anterior, o Bahia teve uma participação ruim na Copa Libertadores e, ao ser remanejado para a Copa Sul-Americana, teve uma postura apática, sendo eliminado nos playoffs pelo América de Cali, da Colômbia. Neste ano caiu para o O'Higgins, do Chile e se despediu do torneio ainda na 2ª fase preliminar da Libertadores.
Para piorar, o torcedor baiano assiste a rivais regionais e nacionais alcançando patamares que o Bahia, mesmo com cofres cheios, ainda não beliscou. O rival Vitória, gerido sob modelo tradicional, chegou a flertar com semifinais da Copa do Brasil e entregou campanhas surpreendentes. O Fortaleza, com orçamento consideravelmente menor, consolidou-se no G4 e alcançou final de Copa Sul-Americana até a temporada de 2025, quando foi rebaixado.
Mais ao sul, o Botafogo, sob o modelo de SAF de John Textor, rapidamente montou elencos altamente competitivos para vencer o Brasileirão e a Libertadores. Embora o modelo carioca tenha deixado dúvidas sobre a saúde financeira futura, grande parte da torcida do Bahia admite que preferiria o "furacão" de um título de expressão, mesmo que custasse o endividamento do clube, em vez da segurança confortável de ser um eterno figurante do G8.
Mercado X o desejo de ser campeão
O segundo ponto de atrito entre a arquibancada e a diretoria reside na filosofia de contratações do Grupo City. O Bahia realizou investimentos milionários nas últimas janelas, como as aquisições de Sanabria por R$ 31,8 milhões e Lucho Rodríguez por R$ 65,3 milhões. No entanto, enquanto o primeiro frequentemente inicia as partidas no banco de reservas, o outro rapidamente foi vendido, sem transformar de imediato o patamar competitivo do time titular. Quem custou caro e se firmou foi Alejo Véliz, que chegou por R$ 56 milhões e já assumiu a camisa 9.
Essa postura reflete a lógica global do conglomerado City: investir em ativos jovens com alto potencial de valorização futura para o mercado internacional, e não necessariamente focar na montagem de um "time pronto" para ser campeão de forma imediata. O Manchester City, inclusive demorou a se tornar uma realidade. Há quem esqueça das passagens de Robinho, Jô, Elano e muitos outros por lá.
Para o torcedor, que apoiou a venda da SAF com a promessa de ver o Bahia disputando taças de primeira grandeza, de o time ser o segundo em investimento do conglomerado, a interrogação que fica é: time vitrine ou pra ser campeão? A torcida quer a terceira estrela no peito, mas o Grupo City, por enquanto, parece priorizar a estruturação sustentável, sem pressa, sem atropelar processos.
Rogério Ceni blindado?
Em qualquer outro clube brasileiro, Rogério Ceni já teria sido demitido inúmeras vezes, seja pela pressão popular ou pelos fracasssos vergonhosos. No entanto, a SAF do Bahia tem outros planos.
A liderança do Grupo City ignora o clamor imediatista das redes sociais e mantém processos de avaliação diária do trabalho da comissão técnica. Essa apatia institucional tem blindado Ceni nos piores momentos da temporada. A resposta veio em campo: o treinador conseguiu reestabilizar a equipe, superando uma sequência incômoda de cinco empates seguidos para engatar triunfos importantes, como no Ba-Vi e contra o Internacional.
O meia Jean Lucas, que marcou no clássico e cumpriu suspensão automática na rodada passada, destacou publicamente o papel de Ceni em sua recuperação psicológica durante a má fase. Agora, o camisa 6 está novamente à disposição do treinador para o confronto decisivo contra o Bragantino.
Choque de realidades na Era SAF
No fim das contas, o grande desafio do Bahia de 2026 não está apenas na tabela, mas na transição da sua própria alma. O Grupo City trouxe a eficiência fria das planilhas, a previsibilidade dos gráficos e um teto de estabilidade inédito para a história tricolor. No entanto, o futebol resiste em ser uma ciência exata, e a arquibancada não torce por balanços financeiros ou métricas de permanência no G8.
O torcedor quer a catarse do título, o orgulho da taça e a certeza de que a camisa pesa mais do que o modelo de negócios. Enquanto a gestão encarar o clube como uma engrenagem de longo prazo e a torcida mantiver o peito inflamado pela urgência da glória, o Bahia viverá sob essa permanente tensão: um gigante estabilizado na teoria, mas que ainda precisa aprender a reconquistar o coração de quem o faz gigante na prática.
Sempre digo que sob tortura, os números entregam qualquer coisa.
— Renatinho (@Rgueudeville) September 3, 2026
O Bahia recente cabe em três eras.
2011–2014: sobrevivência. O clube passou a maior parte do tempo olhando para baixo e o ciclo terminou em rebaixamento.
2017–2021: estabilização incompleta. Houve momentos… pic.twitter.com/QFhWz0YaCh