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Paradoxo do Grupo City: Bahia há 58 rodadas no G8 e Ceni em divórcio com a torcida

Sequência recorde na Série A expõe o abismo entre o pragmatismo da SAF e a sede por títulos

Rafael Tiago
Por
Rogério Ceni durante treino do Bahia na Cidade Tricolor
Rogério Ceni durante treino do Bahia na Cidade Tricolor - Foto: Rafael Rodrigues/EC Bahia

Enquanto caminha para cravar o maior período de estabilidade de sua trajetória no Campeonato Brasileiro por pontos corridos, o Bahia se vê imerso em um racha ruidoso com a arquibancada. A um jogo de alcançar dez partidas de invencibilidade na Série A — marca histórica que pode ser selada no duelo contra o Red Bull Bragantino —, o Tricolor de Aço reingressou no G5 com a vitória por 3 a 2 sobre o Internacional na Fonte Nova.

A despeito do fôlego na tabela e dos quatro triunfos e cinco empates acumulados nessa sequência, o clima que circunda o trabalho de Rogério Ceni contraria os números: a impressão em Salvador e no ambiente digital é de crise contínua e insatisfação generalizada.

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Essa distância entre o pragmatismo das estatísticas e o descontentamento da torcida traduz o momento do clube sob a gestão do Grupo City. A dor de cabeça do torcedor não nasce da ausência de resultados no Brasileirão, mas do acúmulo de frustrações em torneios de mata-mata, somado ao choque entre o desejo popular por taças e a lógica de investimento da SAF. É a colisão entre a frieza do projeto de longo prazo e a ansiedade de quem exige protagonismo imediato.

Paradoxo dos números: a era da 'cor verde'

Historicamente, o Bahia conviveu com constantes oscilações na Série A, frequentemente flertando com a zona de rebaixamento. Sob a batuta do Grupo City, contudo, o patamar mudou de forma drástica. O clube ostenta a impressionante marca de 58 rodadas consecutivas dentro do G8 da Série A. Na atual temporada de 2026, a pior colocação do time em toda a competição foi o sexto lugar. O piso de desempenho do clube virou o oitavo lugar, posição que não é ocupada desde a 10ª rodada de 2025.

A regularidade é incontestável e desenha um cenário inédito para o clube no futebol moderno. No returno da Série A, o Bahia já somou 10 pontos, mantendo-se firme na briga direta pelas primeiras posições e por mais uma vaga consecutiva na Copa Libertadores da América.

Ainda assim, o torcedor tricolor parece não estar desfrutando desse momento de calmaria na tabela do Brasileirão. A pergunta que ecoa em Salvador é: por que a torcida exige tanto de um time que nunca foi tão estável?

Recorde histórico à vista contra o Bragantino

Neste sábado, o Bahia entra em campo contra o Red Bull Bragantino com a chance de colocar a temporada de 2026 de vez nos livros de história do clube. Caso consiga ao menos um empate, o Tricolor de Aço atingirá 10 jogos de invencibilidade na Série A — a maior sequência invicta de sua história na era dos pontos corridos.

O jogo é a oportunidade perfeita para o Bahia consolidar sua posição no G5 e forçar o torcedor a enxergar o copo "meio cheio". A regularidade recorde é real, mas o divórcio emocional entre a exigência da arquibancada e o pragmatismo corporativo do Grupo City promete continuar sendo o principal capítulo da história do Bahia em 2026.

Trauma das Copas e as comparações indigeríveis

A primeira resposta para a fúria das arquibancadas está no mata-mata. Enquanto o Brasileirão premia a regularidade de longo prazo, a torcida do Bahia acumula frustrações recentes em torneios de tiro curto.

  • Copa do Brasil: A eliminação precoce e vexatória para o Remo (derrota por 3 a 1 em casa e derrota por 2 a 1 fora) foi a gota d'água para muitos. O revés adicionou mais um ano de angústia em uma competição que o clube historicamente sonha em conquistar.
  • Torneios continentais: Na temporada anterior, o Bahia teve uma participação ruim na Copa Libertadores e, ao ser remanejado para a Copa Sul-Americana, teve uma postura apática, sendo eliminado nos playoffs pelo América de Cali, da Colômbia. Neste ano caiu para o O'Higgins, do Chile e se despediu do torneio ainda na 2ª fase preliminar da Libertadores.

Para piorar, o torcedor baiano assiste a rivais regionais e nacionais alcançando patamares que o Bahia, mesmo com cofres cheios, ainda não beliscou. O rival Vitória, gerido sob modelo tradicional, chegou a flertar com semifinais da Copa do Brasil e entregou campanhas surpreendentes. O Fortaleza, com orçamento consideravelmente menor, consolidou-se no G4 e alcançou final de Copa Sul-Americana até a temporada de 2025, quando foi rebaixado.

Mais ao sul, o Botafogo, sob o modelo de SAF de John Textor, rapidamente montou elencos altamente competitivos para vencer o Brasileirão e a Libertadores. Embora o modelo carioca tenha deixado dúvidas sobre a saúde financeira futura, grande parte da torcida do Bahia admite que preferiria o "furacão" de um título de expressão, mesmo que custasse o endividamento do clube, em vez da segurança confortável de ser um eterno figurante do G8.

"Comprar por 60 para vender por 100": a lógica de mercado vs. o desejo de ser campeão

O segundo ponto de atrito entre a arquibancada e a diretoria reside na filosofia de contratações do Grupo City. O Bahia realizou investimentos milionários nas últimas janelas, como as aquisições de Sanabria por R$ 31,8 milhões e Luciano Rodríguez por R$ 65,3 milhões. No entanto, enquanto o primeiro frequentemente inicia as partidas no banco de reservas, o outro rapidamente foi vendido, sem transformar de imediato o patamar competitivo do time titular. Quem custou caro e se firmou foi Alejo Véliz, que chegou por R$ 56 milhões e já assumiu a camisa 9.

Essa postura reflete a lógica global do conglomerado City: investir em ativos jovens com alto potencial de valorização futura para o mercado internacional, e não necessariamente focar na montagem de um "time pronto" para ser campeão de forma imediata.

Para o torcedor, que apoiou a venda da SAF com a promessa de ver o Bahia disputando taças de primeira grandeza, a sensação é de que o clube está sendo usado como vitrine e entreposto comercial. "O torcedor não vendeu o clube para que alguém fique comprando por 60 para vender por 100", resume o debate esportivo local. A torcida quer a terceira estrela no peito; o Grupo City, por enquanto, parece priorizar a estruturação sustentável da engrenagem.

"O Grupo City é surdo": a blindagem de Rogério Ceni

Em um clube de futebol gerido de forma tradicional no Brasil, Rogério Ceni já teria sido demitido "pelo menos cinco vezes" diante da pressão popular e dos protestos virtuais. No entanto, a SAF do Bahia opera sob outra temperatura política.

A liderança do Grupo City ignora o clamor imediatista das redes sociais e mantém processos de avaliação diária do trabalho da comissão técnica. Essa "surdez" institucional acabou blindando Ceni nos piores momentos da temporada. A resposta veio em campo: o treinador conseguiu reestabilizar a equipe, superando uma sequência incômoda de cinco empates seguidos para engatar triunfos cruciais, como no clássico Ba-Vi e diante do Internacional.

O meia Jean Lucas, que marcou no clássico e cumpriu suspensão automática na rodada passada, destacou publicamente o papel de Ceni em sua recuperação psicológica durante a má fase. Agora, o jogador está novamente à disposição do treinador para o confronto decisivo contra o Bragantino.

Choque de realidades na Era SAF

No fim das contas, o grande desafio do Bahia de 2026 não está apenas na tabela, mas na transição da sua própria alma. O Grupo City trouxe a eficiência fria das planilhas, a previsibilidade dos gráficos e um teto de estabilidade inédito para a história tricolor. No entanto, o futebol resiste em ser uma ciência exata, e a arquibancada não torce por balanços financeiros ou métricas de permanência no G8.

O torcedor quer a catarse do título, o orgulho da taça e a certeza de que a camisa pesa mais do que o modelo de negócios. Enquanto a gestão encarar o clube como uma engrenagem de longo prazo e a torcida mantiver o peito inflamado pela urgência da glória, o Bahia viverá sob essa permanente tensão: um gigante estabilizado na teoria, mas que ainda precisa aprender a reconquistar o coração de quem o faz gigante na prática.

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EC Bahia grupo city Rogério Ceni SAF

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