PAPO PET
Devolver um animal após adoção gera estresse e sofrimento
Bem-estar Rompimento do vínculo com humanos causa medo e pode desencadear alterações no animal


Após ter sido devolvido duas vezes, o cãozinho Frajola nunca mais foi o mesmo. Resgatado das ruas pela biomédica Paula Alves, com apoio da estudante de Medicina Veterinária Letícia Moreira, hoje ele vive em lar temporário que custa R$ 350 mensais. Caso semelhante ocorreu com Frajola, outro cachorrinho retirado das ruas por um casal, acolhido pela assistente social Sheila de Araújo e devolvido também, por duas vezes, após adoção.
Os episódios de rejeição não são isolados e ilustram bem uma situação que todo protetor animal busca evitar. Isto porque animais devolvidos acabam tendo quadros de estresse agravados pela quebra do vínculo.
“Percebo que eles costumam ter mais dificuldade em confiar novamente nas pessoas, tornando-se mais inseguros, estressados e desconfiados”, descreve a médica veterinária e comportamentalista Tauane Gregório dos Santos, 34 anos. Ela explica que há uma mudança no comportamento após a perda do vínculo.
Frajola viveu duas situações traumáticas após adoção. “A primeira foi porque as adotantes não sabiam dar limites e a segunda foi porque ele não se adaptou à mãe da adotante”, explica Letícia Moreira.
Felizmente, Frajola encontrou um lar e foi adotado por uma família de Santo Antonio de Jesus. “Na primeira adoção, ele foi devolvido porque quebrou um ventilador, depois porque latia muito. Agora, finalmente ele encontrou um lar”, conta Sheila.
Estas são situações que precisam ser levadas em conta por qualquer pessoa antes de adotar um animal. “Vejo a adoção como uma decisão que precisa ser muito bem pensada. As pessoas precisam ter certeza de que realmente querem; é importante se informar, se planejar e se comprometer para receber esse animal”, orienta Tauane, que fez o acompanhamento de Frajola.
O grau de complexidade emocional dos animais é muito diferente dos humanos, mas a perda dos vínculos pode trazer danos irreversíveis. “Mudanças frequentes de famílias e ambiente geram estresse crônico e isso pode impactar tanto na saúde física quanto a mental dos animais”, explica a médica veterinária Aline Quintela, 47 anos.
Com atuação na área clínica, Aline observa que há impacto da rejeição na saúde física do animal. “Entre as consequências estão queda da imunidade, maior predisposição a doenças, alterações gastrointestinais, perda de peso e piora de doenças pré-existentes”, explica. Ela lembra ainda que podem surgir quadros de ansiedade, medo excessivo, dificuldade de socialização, comportamento agressivo por insegurança e transtornos relacionados ao estresse prolongado.
Leia Também:

Apatia e tristeza
Para evitar isto, a empresária e protetora de animais Marina Di Domizio Guimarães costuma fazer uma seleção criteriosa dos candidatos a adotantes que recorrem ao seu abrigo em busca de um animal de estimação. “Felizmente, devoluções são raras, mas quando acontecem, geralmente estão ligadas a expectativas irreais dos adotantes”, avalia. Segundo ela, nos raros casos em que a rejeição ocorre, os bichinhos retornam ao abrigo extremamente tristes e confusos.
As reações decorrentes da quebra do vínculo vão da apatia à agressividade. “Alguns ficam deprimidos, deixam de comer a passam dias ou semanas sem interagir normalmente”, conta. Este foi o caso de uma cachorrinha devolvida cinco anos após a adoção. “Ela voltou completamente perdida, sem entender por que havia sido retirada do lar que conhecia”, relata.

Antes de adquirir um animal é importante avaliar bem o nível de responsabilidade que isto representa. “As pessoas precisam ter certeza do que realmente querem. É fundamental avaliar o tempo disponível, os custos envolvidos, o espaço da casa e as necessidades da espécie e do indivíduo”, afirma Tauane Gregório dos Santos.
Afinal, sejam filhotes adquiridos em canis ou SRDs adotados de um abrigo, todos os bichos precisam de afeto e cuidados no período de adaptação. E, como disse Marina Domizio, não custa lembrar: ”Animal não é presente, nem entretenimento temporário. É um membro da família”.

DR. PET
Entenda o impacto da rejeição na vida do animal
Cães e gatos conseguem desenvolver sentimentos semelhantes ao de abandono?
Não posso afirmar que se sintam abandonados da mesma forma que nós, humanos, mas percebo que há, sim, uma mudança de comportamento após a perda do vínculo.
Quais sinais comportamentais podem indicar sofrimento emocional após uma devolução?
Vejo um animal mais isolado, geralmente sem apetite e mais ansioso.
Que dificuldades desenvolvem?
Alguns têm dificuldade para dormir, ficam apáticos, vocalizam constantemente e podem apresentar comportamentos destrutivos, seja com o ambiente ou consigo mesmos. Além disso, muitos passam a sentir medo com frequência, mantendo uma postura corporal mais defensiva, desconfiada e insegura.


