ESTRATÉGIA
Como a Coreia usa racismo como vantagem contra rivais em campo
Conheça a estratégia que confunde adversários que não conhecem o time coreano


Para quem conhece todos os jogadores por nome e rosto, os números das camisas assumem um papel de determinação de posição e prestígio. Para a Coreia do Sul, no entanto, a numeração dos jogadores é uma peça de estratégia contra outros países.
A Coreia estreou na Copa do Mundo na madrugada desta sexta-feira, 12, usando a numeração oficial para o Mundial contra a Tchéquia e vencendo a partida por 2 a 1, com gols de Hwang In-beom e Oh Hyeon-gyu.
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Em amistosos de preparação contra Trinidad e Tobago e El Salvador, a seleção asiática repetiu uma prática já vista em 2018 - embaralhar os números habituais dos atletas para dificultar a observação de adversários.
Em 2018, antes da Copa da Rússia, o então técnico Shin Tae-yong autorizou que jogadores sul-coreanos atuassem em amistosos com números trocados, por acreditar que observadores ocidentais teriam dificuldade em distinguir jogadores asiáticos.
Sem dizer que seus jogadores eram parecidos, a Coreia reconheceu o preconceito que faz com que muitos ocidentais não consigam distinguir rostos orientais, reduzindo o time a um grupo homogêneo e usando os números para saber quem é quem.
Ao tirar as numerações fixas, então, os coreanos tiraram de muitos a habilidade de encontrar um jogador em campo, dificultando estudos táticos e jogadas ensaiadas para um craque específico.
O principal exemplo foi Son Heung-min, maior estrela da equipe e normalmente associado à camisa 7, que atuou com o número 13 no último amistoso. Já Kim Min-jae, zagueiro do Bayern de Munique e um dos principais nomes defensivos da seleção, deixou o número 4 habitual e jogou com a 16.

Racismo como "erro de leitura"
Esse tipo de preconceito, muitas vezes, surge como simplificação, na reclamação de nomes tratados como "difíceis demais", traços físicos reduzidos a estereótipos e comentários que colocam pessoas de países e culturas diferentes dentro de uma mesma massa, como se todos fossem iguais.
No futebol, identificar jogadores, mapear padrões de movimento e entender a função de cada atleta são tarefas centrais para qualquer comissão técnica, mas quando um observador parte de um olhar homogeneizador, registra menos detalhe e perde nuance.
Assim, qualquer mínima confusão faz com que dependentes de referências visuais rápidas cometam erros na análise. No caso da Coreia do Sul, a troca ganha força justamente porque alguns atletas têm funções muito marcadas. Son é a principal referência ofensiva do país, enquanto Kim Min-jae, por exemplo é peça central na defesa.
Assim, um deslocamento de Son ou uma antecipação de Kim podem escapar de quem não se dispõe a reconhecer cada jogador como indivíduo.
Início da estratégia
Antes da Copa de 2018, em meio a relatos de observação de treinos e preocupação com espionagem de adversários, Shin Tae-yong autorizou que jogadores atuassem em amistosos com números diferentes dos usuais.
Naquela ocasião, porém, o próprio técnico reconheceu que a ideia não alcançou o objetivo como ele esperava em determinado momento. Ainda assim, a estratégia voltou a aparecer em 2026, agora sem uma declaração direta da atual comissão técnica sobre o assunto.
Curiosamente, nas últimas três Copas, a única em que a Coreia do Sul não embaralhou os números das camisas foi 2022. Naquela edição, o comando técnico era do português Paulo Bento, ocidental.


