CORAÇÕES DIVIDIDOS
Como foi Brasil x Haiti pelos olhos dos haitianos em Salvador
Torcedores do Haiti se reuniram para assistir jogo juntos na capital baiana


Como um brasileiro, pode ser difícil imaginar o que é assistir uma partida de Copa do Mundo da sua seleção sem torcer absolutamente contra seu adversário. Brasil e Haiti, na última sexta-feira, 19, no entanto, não foi assim.
Como um país que vive ainda sua segunda participação em Copas, os haitianos se acostumaram a encontrar outras seleções para torcer quando a deles não era uma opção - e a grande escolhida foi justamente a brasileira.
Desde pequenos, muitos deles acompanhavam as histórias de Ronaldinho, Adriano Imperador, Kaká e até Pelé, desenvolvendo carinho e admiração genuínos pelo futebol brasileiro.
Para eles, então, quando o Haiti entrou em campo contra o Brasil pela Copa do Mundo, não era questão de vencer ou perder - mas sim celebrar. Quando o Haiti atacava, festa. Quando era gol do Brasil, celebração. Estar na Copa e jogar contra os brasileiros, por si só, já era alegria.
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A torcida dos haitianos no Brasil se reuniu na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, e misturou orgulho pela seleção haitiana, admiração histórica pela brasileira, saudade de casa, memórias de infância e a sensação de assistir a um jogo que, para muitos, parecia improvável.
No evento promovido pelo Consulado-Geral do Haiti em Salvador, que marcou o lançamento da diplomacia cultural haitiana com o Brasil, a partida transmitida ao fim da programação reuniu membros da comunidade haitiana que hoje constroem suas vidas na Bahia e se viram entre dois pertencimentos.

Para Juliana Dolciné, haitiana que vive no Brasil há sete anos e tem até um filho brasileiro, a divisão era clara: contra o Haiti, o coração ficava com o país de origem. Em qualquer outro jogo, a torcida seria brasileira.
"Quando o Haiti está jogando com o Brasil, eu sou haitiana, eu sou do Haiti. Se o Brasil está jogando com outro time, eu sou do Brasil", resumiu.

A frase sintetiza o sentimento de muitos haitianos presentes. O Brasil venceu por 3 a 0, com dois gols de Matheus Cunha e um de Vinicius Júnior, garantiu classificação para as oitavas de final e assumiu a liderança do Grupo C.
Mas, no auditório em Salvador, o jogo também foi vivido como celebração da presença haitiana na Copa e como afirmação de uma comunidade que mantém laços profundos com os dois países.
"Meu coração está dividido"
O artista, pintor, escritor e poeta Oluwitchneider Sainclair também definiu a partida como um momento de coração dividido. Haitiano, estudante de Letras na UFBA e poliglota, ele vive no Brasil há três anos. Antes, morou na Turquia e na República Dominicana.
Para ele, ver Haiti e Brasil se enfrentarem em uma Copa do Mundo foi um acontecimento atravessado por memória e pertencimento. "Eu sou haitiano e meu coração está dividido entre Brasil e Haiti. O Haiti já tem 52 anos desde que não estava mais na Copa do Mundo", disse.
"É um grande dia para nós, para conseguir viver e jogar juntos como irmãos, porque muitos haitianos lá no Haiti são fãs do Brasil também. Eu gostava desde criança mesmo. Eu sempre fui brasileiro", contou.
Mesmo assim, no dia do confronto, a aposta foi em vitória haitiana. Em tom bem-humorado, arriscou até um placar elástico. "O Haiti vai ganhar. 4 a 0", brincou.

A previsão não se confirmou, mas o resultado não era o único elemento em jogo. Para Schneider, assistir à partida ao lado de outros haitianos recriou uma atmosfera familiar, parecida com os dias de futebol no Haiti.
"É incrível, porque no Haiti a gente sempre assiste juntos assim. Mesmo que tenha televisão em casa, o ambiente é assim mesmo, com muitas pessoas, torcendo, gritando gol. É como se eu estivesse vivendo minha época no Haiti de novo, quando eu era criança", lembrou.
Salvador que lembra casa
A identificação com Salvador, no entanto, não era uma experiência só do artista. Para muitos haitianos, a capital baiana é um espaço que desperta semelhanças culturais, climáticas e afetivas com o Haiti, como disse Juliana.
Foi justamente esse um dos pontos centrais do evento organizado pelo consulado - a ideia de que Haiti, Bahia e Brasil compartilham laços históricos e culturais marcados pela herança afro-atlântica.
Lorah Stecy Delatour, vice-cônsul do Haiti em Salvador, também descreveu a chegada à capital baiana como uma forma de reencontro. Ela passou dois meses em Brasília antes de vir para Salvador e está há seis meses no Brasil.

"Estou feliz por me enviarem a Salvador. Sinto que estou em casa. Isso me lembra o Haiti", afirmou. A vice-cônsul contou que já era fã do Brasil antes de viver no país, influência herdada da mãe e da família.
"Desde que eu sou pequena, minha mãe e minha família são fãs do Brasil. Na Copa, pensei 'bom, eu vou apoiar os dois'. Mas hoje eu vou apoiar o Haiti, e depois o Brasil", afirmou.
"O Brasil é meu segundo time"
O estudante Oli Poo, haitiano nascido em Porto Príncipe, é mais uma prova viva dessa relação dupla com as seleções. Há quatro anos no Brasil, ele veio para Salvador após conseguir uma bolsa de estudos e cursa Engenharia da Computação na UFBA.
Ele contou que, durante as eliminatórias, muitos haitianos desejavam justamente enfrentar a Seleção Brasileira, já que a classificação do Haiti trouxe confiança e fez parte da torcida sonhar alto.
"Quando a gente ainda estava jogando a qualificação da Copa do Mundo, a gente estava pedindo o Brasil. A gente estava se sentindo tão forte que queria o Brasil. Mas agora a gente está com medo também, porque o Brasil é muito forte. Mas já que é futebol, ninguém sabe", afirmou.

"Desde que eu nasci, meu pai é muito fã do Brasil. Meu tio também. Acho que minha família toda torce para o Brasil. Eu também torço para o Brasil. Já que eu tenho minha seleção agora, o Brasil é meu segundo time. Eu gosto muito do Brasil, sou fã do Brasil também", contou.
Por isso, o resultado não tinha como produzir apenas tristeza ou alegria. Se o Haiti vencesse, seria histórico. Se o Brasil ganhasse, também haveria afeto envolvido.
"Se a gente bater, eu vou gostar. Mas se a gente perder também, está de boa, não tem problema, já que são meus times", disse.
No fim, a frase de Juliana parece resumir esse equilíbrio delicado: contra o Haiti, ela é Haiti. Contra qualquer outro adversário, também é Brasil. Foi seguindo esse sentimento que a torcida haitiana em Salvador transformou Brasil x Haiti em uma celebração de pertencimentos cruzados e de corações que, por 90 minutos, puderam bater dos dois lados.


