PAÍSES IRMÃOS
Cônsul haitiano lembra jogo histórico com Brasil: "Torcemos por vocês"
Henri Claude Voltaire liderou o lançamento da diplomacia cultural entre Brasil e Haiti durante jogo


A partida entre Brasil e Haiti na última sexta-feira, 19, eliminou os haitianos na Copa do Mundo - mas uniu muito mais do que separou os dois povos. Antes mesmo de a bola rolar, o cônsul-geral haitiano, Henri Claude Voltaire, já tratava o confronto como algo maior do que uma partida.
Para ele, o encontro entre as duas seleções carregava uma particularidade afetiva, já que o Haiti enfrentaria o maior campeão mundial, mas também uma seleção historicamente admirada por parte do povo haitiano.
"No Haiti, como eu dizia, nós torcemos realmente pela equipe do Brasil", afirmou Voltaire, ao falar sobre a importância do duelo para os haitianos e para a comunidade que vive no Brasil.
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A declaração ajuda a explicar o sentido simbólico do evento realizado durante o jogo na Universidade Federal da Bahia, na Faculdade de São Lázaro. O Consulado-Geral do Haiti em Salvador lançou oficialmente sua diplomacia cultural com o Brasil em uma atividade que reuniu representantes diplomáticos, acadêmicos, governamentais, culturais e membros da comunidade haitiana.
Ao fim da programação, claro, o público acompanhou a transmissão da partida entre Brasil e Haiti pela Copa do Mundo, em que a Seleção Brasileira venceu por 3 a 0, com dois gols de Matheus Cunha e um de Vinicius Júnior, garantiu classificação para as oitavas de final e assumiu a liderança do Grupo C.
Fora do campo, no entanto, o jogo serviu como ponto de partida para uma discussão sobre laços históricos, culturais e humanos entre Haiti, Bahia e Brasil.

Jogo histórico
Para Voltaire, o confronto tinha peso especial por ser o primeiro encontro entre Haiti e Brasil na história das Copas do Mundo. A dimensão esportiva, segundo ele, vinha acompanhada de uma força histórica capaz de mobilizar haitianos em diferentes lugares.
"É uma partida muito importante, ninguém quer perder esse evento. É primeiro o evento, antes mesmo de ser o jogo. É uma grande festa para o Haiti, porque o Haiti vai enfrentar o país que ganhou mais Copas do Mundo. E nem todos os países têm essa oportunidade", afirmou o cônsul.
A derrota por 3 a 0, então, não retirou esse valor simbólico. O Haiti disputa apenas sua segunda Copa do Mundo da história, mais de 50 anos depois da primeira participação, em 1974, tornando o encontro com o Brasil um marco para a seleção caribenha e para a comunidade haitiana espalhada pelo mundo.

Diplomacia do futebol
Ainda que não tenham se encontrado em campo, os dois países se cruzaram na história recente, quando a Seleção Brasileira visitou o Haiti há cerca de 20 anos, em um jogo que teve como objetivo promover a paz no país caribenho.
"Durante o diálogo diplomático, nós destacamos a importância da diplomacia do futebol. Haiti e Brasil experimentaram essa diplomacia. Há uns 20 anos, fizemos vir a equipe do Brasil ao Haiti, com todas as grandes estrelas, Ronaldo, Ronaldinho, para jogar com a seleção haitiana. E era uma partida para promover a paz no Haiti", relembrou.
O cônsul se refere ao episódio que ficou marcado como um dos momentos mais simbólicos da aproximação entre os dois países por meio do esporte, em que a presença de jogadores brasileiros de grande projeção no Haiti ajudou a transformar o futebol em esperança em um momento delicado da história haitiana.
"Historicamente, já existe essa relação, essa conexão de fraternidade entre os dois países do ponto de vista do futebol", afirmou.

Planos para o jogo
A importância do jogo também apareceu, claro, na mobilização da comunidade haitiana. Voltaire contou que, enquanto participava do evento em Salvador, mantinha contato com amigos e familiares no Haiti e com pessoas que estavam no estádio para assistir à partida.
"Enquanto organizamos o evento desta noite, eu continuo em conexão com amigos que estão no Haiti, familiares ou pessoas que estão no estádio para assistir ao jogo", relatou.
Segundo o cônsul, muitos haitianos começaram a se organizar financeiramente assim que souberam que a seleção enfrentaria o Brasil na Copa. "Eu sei que eles fizeram economia. Quando souberam que haveria o jogo entre Haiti e Brasil, começaram a economizar para assistir à partida", disse.

"O futebol aproxima, a cultura conecta"
O lema do evento, "O futebol aproxima, a cultura conecta", então, resume a conexão entre diplomacia e Copa do Mundo, um dos eventos globais mais poderosos na capacidade de reunir pessoas diferentes em torno de uma emoção comum.
"O futebol é uma ferramenta diplomática gratuita, na medida em que se pode aproveitar a Copa do Mundo para transmitir mensagens", disse.
Na avaliação do cônsul, o futebol aproxima porque cria um instante compartilhado em que pessoas de origens diferentes, no estádio ou nas ruas, se reúnem em torno do mesmo jogo, vivendo um mesmo momento e, assim, se comunicando melhor.
"É o sentido desse tema: mostrar como o futebol e a cultura se completam e fazem quase a mesma coisa. É uma construção da paz, de construção da fraternidade, de estar junto, de se reunir. A cultura faz isso, o futebol faz isso", afirmou.
Brasil + Haiti
Ao apito final, então, Brasil x Haiti teve significados diferentes para cada lado. Para a Seleção Brasileira, foi a primeira vitória no Mundial, a classificação antecipada e a afirmação de Matheus Cunha com a camisa 9.
Para os haitianos, foi a chance de enfrentar o maior campeão da história da Copa em um jogo visto como celebração e vitrine internacional. Em Salvador, foi ao mesmo tempo um gesto diplomático e uma reunião entre dois povos "irmãos", que dividem culturas, afetos e, claro, jogos históricos.
"Mais do que uma competição esportiva, este momento será uma celebração da fraternidade, da amizade e do respeito mútuo que unem os povos haitiano e brasileiro, além de simbolizar a aproximação que desejamos promover por meio desta nova iniciativa de diplomacia cultural", finalizou Henri Claude Voltaire.


