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Gol 'La mano de Dios'
GUERRA DAS MALVINAS

Copa do Mundo: entenda a rivalidade política por trás do confronto entre Inglaterra e Argentina

Guerra das Malvinas se prolonga para as quatro linhas do campo

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Cássio Moreira
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Inglaterra e Argentina entram em campo pela semifinal da Copa do Mundo de 2026, na quarta-feira, 15. Por trás do confronto entre as duas seleções campeãs, existe uma grande rivalidade construída fora das quatro linhas, tendo uma histórica disputa política entre os países.

Mais uma vez, ingleses e argentinos defenderão suas honras com as bolas nos pés, tendo a ferida aberta no conflito pelas Ilhas Malvinas como pano de fundo. Não é a primeira, vez no entanto, que a Copa do Mundo serve como 'campo de batalha' para gerar um novo capítulo da 'novela' que já dura décadas.

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Onde ficam as Ilhas Malvinas?

O arquipélago formado pelas Ilhas Malvinas fica localizado na região sul do Oceano Atlântico, próximo a região da Patagônia, na Argentina. Apesar de autônomo, o território pertence ao Reino Unido, tendo a nação como 'dona' de suas decisões.

Guerra das Malvinas

Desde 1833, o território das Malvinas é reivindicado pela Argentina, ano em que a Inglaterra invadiu as ilhas. A tensa relação entre os dois países ganhou força em 1982, em um momento em que os britânicos passavam por uma intensa crise econômica.

Como uma das medidas de contenção de custos, a então primeira-ministra Margareth Thatcher cortou parte do seu aparato militar. Tal medida, aliada ao turbulento período que a Inglaterra enfrentava, fez com que a Argentina, ainda sob a ditadura militar, resolvesse avançar com relação ao arquipélago.

Guerra das Malvinas deixou feridas abertas na população argentina
Guerra das Malvinas deixou feridas abertas na população argentina - Foto: Divulgação | AFP

A invasão argentina ocorreu em abril de 1982, ainda sob o regime liderado por Jorge Videla, mas já sob a presidência de Leopoldo Galtieri, por Operário Rosário. Antes disso, em março, ingleses residentes nas Ilhas Malvinas, começaram a retaliar uma estatal aérea argentina.

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Disposta a recuperar as ilhas, a Inglaterra montou um exército de cerca de 28 mil militares, com apoios de países como os Estados Unidos. Do lado argentino, as nações vizinhas, com exceção do Chile declararam apoio; o Brasil apoiou, mas em posição de neutralidade no combate.

A guerra durou 74 dias, com um saldo de centenas de argentinos, sacramentado a derrota do país.

Dos campos de guerra para os campos de futebol

A data era 22 de junho de 1986. O local era o místico Estádio Azteca, templo sagrado para os amantes do futebol, palco da final da Copa do Mundo de 1970, 16 anos, com a consagração do Rei Pelé.

Argentinos e ingleses tentavam avançar para as semifinais da competição. Do lado dos 'Hermanos', havia a expectativa de uma campanha melhor do que em 1982, quando a equipe, que defendia o título, caiu na segunda fase, com direito a uma derrota por 3 a 1 para o Brasil de Zico.

A Inglaterra vivia um período ainda marcado de incertezas com sua seleção.

Se o país conseguia dominar a antiga Copa dos Campeões da Europa, hoje Liga dos Campeões Uefa, a situação não se refletia no 'English Team', que chegou a ficar fora dos mundiais de 1974 e 1978, após o título de 1966.

O jogo tinha o gosto justiça para o time liderado por Carlos Bilardo. A partida pelas quartas de final era a oportunidade da Argentina vingar, com a bola rolando, a humilhação e a memória dos mortos do conflito pelas Malvinas.

Maradona iluminado e 'La mano de Dios'

Diego Armando Maradona, 25 anos. Em sua segunda Copa do Mundo, o argentino, que já construía uma história de idolatria na Napoli, modesta equipe do futebol italiano, era o escolhido para reescrever as páginas manchadas de sangue da sua nação.

O atleta tinha um desempenho de bom nível no mundial até aquele momento. Participação em gols e assistências em todas as partidas, incluindo o clássico contra o Uruguai nas oitavas de final.

Contra a Inglaterra, no entanto, o esperado era além do que já havia sido feito por ele.

Maradona teve atuação de gala para vingar Argentina
Maradona teve atuação de gala para vingar Argentina - Foto: Divulgação | AFP

A partida carregava toda a tensão que o acerto de contas precisava, o que se refletiu em campo, elegendo Maradona como protagonista do jogo, já histórico antes mesmo de começar.

Coube a Maradona 'escolher' a camisa azul que seria usada para a 'guerra' de 90 minutos, uma vez que o segundo uniforme do time, de mesma cor, era feito de algodão pesado, o que poderia prejudicar o desempenho dos argentinos no calor mexicano.

A camisa precisou ser confeccionada de forma manual em poucos dias, dispensando o uso do uniforme pesado.

Os gols

Foi da mão de Maradona, não dos pés, que começou a vingança dos argentinos pela derrota nas Malvinas. Aos seis minutos do segundo tempo (51 minutos), quatro anos depois, o sentimento de revanchismo tomava conta de todo um país.

Gol 'La mano de Dios' é considerado o mais importante do século XX
Gol 'La mano de Dios' é considerado o mais importante do século XX - Foto: Divulgação | AFP

Ao encontrar a bola na área, Maradona usou sua mão para promover o encontro dela com a meta inglesa. O gol, que se tornou alvo de protestos do time adversário, também virou símbolo de justiça para os 'Hermanos'.

'La mano de Dios', como ficou conhecido o lance, é considerado o gol mais importante do século XX, desafiando as regras do futebol e impondo, dentro do contexto político, o alívio de todo o povo argentino.

Maradona chegou a comentar, em tom de ironia, sobre o gol feito por ele. Segundo 'Don Diego, "foi como roubar a carteira" dos ingleses.

Foi como se tivesse roubado a carteira de um inglês

Diego Maradona

Quatro minutos depois, aos dez do segundo tempo (55 minutos), Maradona fez outro gol icônico, consagrando a vitória argentina diante dos ingleses. Diego arrancou sozinho, enfrentando todo o 'exército' de jogadores da Inglaterra, até finalizar na meta de Peter Shilton.

Já no final do jogo, Gary Liniker, astro inglês e artilheiro da Copa do Mundo, descontou para a Inglaterra.

Mais que a classificação para a semifinal, em uma copa que seria vencida pela própria Argentina, o jogo simbolizou a redenção do país após a morte de seus combatentes e a perda definitiva das Malvinas.

Capa do jornal argentino El Gráfico
Capa do jornal argentino El Gráfico - Foto: Divulgação

Outros confrontos

Após o jogo histórico da redenção argentina, as duas seleções voltaram a se encarar mais duas vezes em copas, em 1998 e 2002. Assim como em 1986, a tensão tomou conta do campo.

Argentina e Inglaterra se enfrentaram nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1998, na França. Na ocasião, o jogo, um dos mais lembrados daquela edição do mundial, terminou 2 a 2, com direito a uma polêmica expulsão de David Beckham, após chutar Diego Simeone.

Nos pênaltis, a Argentina venceu por 4 a 3, avançando para as quartas de final da competição.

Quatro anos depois, mas na fase de grupos, os dois voltaram a se enfrentar. Desta vez, o final feliz ficou para o English Team, que venceu a Argentina por 1 a 0. A vitória serviu para derrubar os argentinos ainda na fase de grupos da Copa do Mundo.

Nova página

Inglaterra e Argentina voltam a se enfrentar pela semifinal da Copa do Mundo, nesta quarta-feira, 15. O vencedor dessa nova página de uma das maiores rivalidades da história das copas enfrentará o classificado do jogo entre França e Espanha.

  • Espanha x França - 14 de julho - 16h
  • Inglaterra x Argentina - 15 de julho - 16h
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