COPA DO MUNDO
'Estrela do hexa'? Fenômeno raro surge ao lado do Cruzeiro do Sul
Batizada de Nova Muscae 2026, explosão estelar pode ser observada com binóculos
Uma nova luz surgiu ao lado do Cruzeiro do Sul e vem despertando a curiosidade de astrônomos e apaixonados pelo céu em todo o país. Batizado de Nova Muscae 2026, o fenômeno ganhou até um apelido entre os brasileiros: a possível "estrela do hexa".
Apesar do nome, o objeto não representa o nascimento de uma nova estrela. O brilho intenso observado atualmente é resultado de uma explosão ocorrida em um sistema estelar localizado na constelação da Mosca, próxima ao Cruzeiro do Sul, um dos símbolos mais conhecidos do céu brasileiro e presente na bandeira nacional.
O fenômeno foi identificado no dia 24 de maio por um programa internacional de monitoramento astronômico e passou a ser acompanhado também pelo Observatório Didático de Astronomia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, no interior de São Paulo.
De nova, ela só tem o nome
Segundo o professor Rodolfo Langhi, responsável pela coordenação do observatório da Unesp, a chamada "nova" não indica o surgimento de um astro, mas sim um aumento repentino de brilho provocado por uma explosão.
Antes do evento, o sistema já existia, mas sua luminosidade era tão baixa que só podia ser detectada por equipamentos especializados.
"Antes da explosão, o sistema já existia, mas emitia pouca luz e só podia ser observado com instrumentos astronômicos", revelou ao G1.
"O brilho foi tão intenso que podemos comparar à troca de uma lâmpada fraca por um refletor de campo de futebol", compara o pesquisador.
Leia Também:
Explosão aconteceu há 15 mil anos
Embora tenha sido observada recentemente da Terra, a explosão não ocorreu agora. A Nova Muscae 2026 está localizada a aproximadamente 15 mil anos-luz do planeta.
Isso significa que a luz do fenômeno levou cerca de 15 mil anos para chegar até nós.
"Dizer que esta estrela está a 15 mil anos-luz significa que a explosão não ocorreu no dia da descoberta, mas, sim, há 15 mil anos, pois este foi o tempo que a luz levou para chegar até aqui", explica o professor.
Entenda como ocorre o fenômeno
O sistema é formado por duas estrelas que orbitam uma à outra. Uma delas é uma anã branca, astro extremamente compacto e denso, capaz de atrair material da estrela companheira durante longos períodos.
"Uma colher de chá do material de uma anã branca pesaria cerca de 50 toneladas na Terra. É uma baita densidade", explica.
Ao longo do tempo, o gás retirado da estrela vizinha se acumula na superfície da anã branca. Quando a pressão e a temperatura atingem níveis extremos, ocorre uma explosão termonuclear.
"É neste momento que ocorre a súbita explosão, liberando uma enorme quantidade de energia e fazendo a estrela aumentar seu brilho de forma impressionante", afirma.
Mesmo após a explosão, a estrela não é destruída. O fenômeno acontece apenas na camada de gás acumulada em sua superfície.
"Como a explosão não acontece na estrela inteira, a dura e altamente compacta anã branca sobrevive ao evento e o sistema continua existindo depois da erupção. Depois disso, todo o processo volta a se repetir, com a anã branca continuando a sugar material da estrela companheira. Futuramente, uma nova explosão pode ocorrer", explica o professor.
Fenômeno raro pode ser visto do Brasil
Embora ocorram dezenas de eventos semelhantes na Via Láctea todos os anos, poucos alcançam brilho suficiente para chamar a atenção do público.
"Estima-se que ocorram em nossa Galáxia, a Via Láctea, cerca de 40 'novas' por ano em média. Mas o número de descobertas a cada ano é de apenas 10".
"Fenômenos visíveis com binóculos simples, como no caso da Nova Muscae 2026, acontecem algumas vezes por década. Já as novas claramente visíveis a olho nu são mais raras e podem passar vários anos sem ocorrer", complementa.
A boa notícia é que o Brasil está em uma posição privilegiada para observar o fenômeno. A Nova Muscae 2026 aparece na constelação da Mosca, localizada logo abaixo do Cruzeiro do Sul.
"Por volta das 21h, o Cruzeiro do Sul fica praticamente de pé no céu. A Mosca fica bem abaixo dele", orienta o professor.
Segundo ele, a observação pode ser feita no hemisfério sul, especialmente em locais com pouca poluição luminosa.
"Binóculos ou um pequeno telescópio já são suficientes para acompanhar a evolução do brilho nas próximas semanas", revela.
"No caso da Nova Muscae 2026, a cerca de 15 mil anos-luz da Terra, o brilho ainda pode ser visto com binóculos, mas vem diminuindo gradualmente com o passar dos dias", pontua.
A 'estrela do hexa' existe?
A coincidência de uma "nova estrela" aparecer ao lado do Cruzeiro do Sul justamente em um ano de Copa do Mundo acabou inspirando brincadeiras entre brasileiros.
Em tom descontraído, Rodolfo Langhi comentou o assunto.
"Como cientista, não posso afirmar que exista qualquer relação física entre uma explosão estelar e os resultados da Copa. Mas, como divulgador de astronomia, confesso que a coincidência é divertida", brinca.
"Se isso servir de incentivo para mais brasileiros olharem para as estrelas e se interessarem por ciência, então já podemos considerar uma bela vitória", diz.