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HISTÓRIAS DA COPA

Por que a semifinal entre França e Espanha é uma guerra histórica

Entre alianças, traições, invasões, guerrilhas e batalhas, os dois países têm uma longa história

Marina Branco
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Semifinal entre França e Espanha
Semifinal entre França e Espanha - Foto: FIFA I ChatGPT

França e Espanha entram em campo nesta terça-feira, 14, em Dallas, por uma vaga na final da Copa do Mundo de 2026 - mas a rivalidade que entrará nas quatro linhas vem de séculos atrás.

Protagonistas de uma das relações geopolíticas mais complexas da história europeia, franceses e espanhóis são ligados por alianças dinásticas, disputas territoriais, intervenções militares e pela Guerra Peninsular, conflito travado entre 1807 e 1814 que redesenhou a Península Ibérica, enfraqueceu o Império Napoleônico e acelerou transformações políticas que chegaram ao Brasil e à América espanhola.

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No início de tudo, os dois países chegaram a ser unidos - França e Espanha se aliaram para invadir o território português, mas o avanço francês logo se transformou em ocupação da própria Espanha. Poucos meses depois, espanhóis e portugueses passaram a lutar contra o mesmo adversário, com o apoio militar do Reino Unido.

Batalha de Vitória
Batalha de Vitória - Foto: Artista desconhecido

Como começou a guerra

Tudo começou com a disputa entre França e Reino Unido no início do século XIX. Depois da Revolução Francesa e de sucessivas vitórias militares, Napoleão passou a controlar ou influenciar grande parte da Europa continental. A principal resistência, no entanto, vinha dos britânicos, protegidos pela superioridade de sua marinha.

Sem condições de invadir diretamente o Reino Unido, Napoleão decretou, em 1806, o Bloqueio Continental, determinando que os países europeus fechassem seus portos aos produtos e navios britânicos, com o objetivo de enfraquecer economicamente Londres.

Portugal, antigo aliado comercial e militar dos ingleses, resistia a romper completamente essa relação. Para forçar o cumprimento do bloqueio, então, França e Espanha assinaram o Tratado de Fontainebleau, em outubro de 1807.

Assinatura do Tratado de Fontainebleau
Assinatura do Tratado de Fontainebleau - Foto: Artista desconhecido

O acordo autorizava as tropas francesas a cruzarem o território espanhol para invadir Portugal e previa a divisão do país entre os aliados. A Espanha aceitou participar da operação justamente porque mantinha uma aliança com a França e enxergava vantagens territoriais na partilha portuguesa.

A decisão, porém, permitiu que Napoleão posicionasse soldados em pontos estratégicos dentro do território espanhol - ele estava tomando a Espanha enquanto ainda era sua aliada.

Crise da monarquia e ocupação francesa

Napoleão estava sendo inteligente, mas contou também com alguma sorte. A entrada dos franceses coincidiu com uma grave crise política em Madri, em que o rei Carlos IV enfrentava forte rejeição, o ministro Manuel Godoy havia perdido apoio e o príncipe Fernando conspirava contra o próprio pai.

Ministro Manuel Godoy
Ministro Manuel Godoy - Foto: Francisco Bayeu y Subiás

Em março de 1808, o Motim de Aranjuez derrubou Godoy e levou Carlos IV a abdicar em favor do filho, que assumiu como Fernando VII. Napoleão aproveitou a disputa entre pai e filho, convocou ambos para a cidade francesa de Baiona e os pressionou a renunciar ao trono. Em seguida, o imperador nomeou o irmão, José Bonaparte, como rei da Espanha.

A mudança pretendia integrar a Espanha ao sistema político napoleônico e instalar um governo alinhado aos interesses franceses. Para grande parte dos espanhóis, no entanto, foi a substituição ilegítima da monarquia por um governante estrangeiro sustentado por um exército de ocupação.

José Bonaparte
José Bonaparte - Foto: Francois Pascal Simon Gerard

A França havia entrado no país oficialmente como aliada, e em poucos meses, controlava fortalezas, ocupava cidades e impunha uma nova dinastia.

Revolta em Madri

Assim, a população espanhola se revoltou, ganhando força em 2 de maio de 1808, quando habitantes de Madri se levantaram contra os soldados franceses. O estopim foi a retirada dos últimos integrantes da família real da cidade, mas a revolta já refletia a insatisfação crescente com a presença estrangeira.

A Morte de Pedro Velarde e Santillán durante a sublevação do dois de maio
A Morte de Pedro Velarde e Santillán durante a sublevação do dois de maio - Foto: Joaquín Sorolla

As tropas comandadas pelo marechal Joachim Murat reprimiram o movimento com violência. Civis foram mortos durante os confrontos, e prisioneiros acabaram executados no dia seguinte, como nas telas de Francisco de Goya "O Dois de Maio de 1808" e "O Três de Maio de 1808", que retrataram o ocorrido.

O Dois de Maio de 1808
O Dois de Maio de 1808 - Foto: Francisco de Goya
O Três de Maio de 1808
O Três de Maio de 1808 - Foto: Francisco de Goya

A repressão, no entanto, não conteve a revolta. Levantes se espalharam por diversas regiões, e cidades passaram a criar juntas locais que diziam governar em nome de Fernando VII.

Como não havia uma autoridade central reconhecida, a resistência espanhola assumiu uma estrutura fragmentada, formada por exércitos regulares, autoridades provinciais, milícias e grupos populares armados.

Espanha dividida

Assim, várias resistências diferentes surgiram, enquanto parte das elites, conhecida como afrancesada, apoiou José Bonaparte ou colaborou com o novo governo por acreditar que o regime francês poderia modernizar o país.

José tentou introduzir reformas administrativas, limitar antigos privilégios e reorganizar o Estado. Alguns intelectuais viam essas medidas como uma oportunidade de aproximar a Espanha dos princípios reformistas que circulavam pela Europa.

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Os absolutistas lutavam pela volta de Fernando VII e pela preservação da monarquia tradicional. Os liberais defendiam a soberania nacional e limites constitucionais ao poder real. Outros grupos estavam ligados à defesa da Igreja, de instituições locais ou de interesses regionais.

Aos poucos, a resistência à invasão francesa foi se tornando uma disputa interna sobre o futuro político da Espanha, fortalecendo os franceses em território espanhol cada vez mais.

Franceses perdem invencibilidade

Isso, no entanto, não durou para sempre - em 19 de julho de 1808, exata mesma data da final da Copa do Mundo, o exército espanhol obteve uma vitória decisiva na Batalha de Bailén.

As forças do general francês Pierre Dupont foram cercadas e obrigadas a se render, naquela que se tornou a primeira derrota importante de um exército napoleônico em campo aberto.

Com o baque, José Bonaparte deixou Madri temporariamente, e a vitória espanhola mostrou a outros adversários de Napoleão que os franceses podiam ser derrotados.

Batalha de Bailén
Batalha de Bailén - Foto: José Casado del Alisal (Museo del Prado)

Veio, então, ele, e Napoleão respondeu assumindo pessoalmente a campanha. No fim de 1808, atravessou os Pireneus com veteranos de seu exército, derrotou sucessivas forças espanholas e retomou Madri.

Apesar da superioridade francesa nas grandes batalhas, a ocupação nunca se tornou estável. O exército controlava capitais e estradas principais, mas enfrentava ataques constantes em áreas rurais e nas rotas de abastecimento.

Guerrilhas

Foi durante o conflito que o termo "guerrilha" ganhou projeção internacional. Pequenos grupos armados atacavam comboios, mensageiros, depósitos e unidades francesas isoladas, e em vez de enfrentar diretamente um exército mais forte, utilizavam o conhecimento do terreno e o apoio de comunidades locais.

Essas ações obrigavam a França a espalhar milhares de soldados para proteger estradas, pontes e linhas de comunicação. A ocupação se tornava cada vez mais cara, mesmo quando os franceses venciam confrontos convencionais.

Segundo cerco de Saragoça
Segundo cerco de Saragoça - Foto: Louis-François, Baron Lejeune

Napoleão teria chamado o conflito de "úlcera espanhola", referência ao desgaste contínuo provocado pela campanha. Mesmo não sendo a única causa de sua queda, a guerra consumiu homens e recursos que fizeram falta em outros confrontos.

Tropas francesas executaram suspeitos, destruíram localidades e puniram populações acusadas de colaborar com os insurgentes. A guerrilha, por sua vez, também praticou vinganças e assassinatos contra soldados e espanhóis identificados como colaboradores.

Apoio britânico à resistência

A resistência, então, começou a ser apoiada pelo Reino Unido, que percebeu que a guerra obrigava Napoleão a manter uma grande quantidade de homens e recursos longe de outras frentes europeias.

Sob o comando de Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, tropas britânicas passaram a atuar ao lado de portugueses e espanhóis. Portugal funcionou como uma base logística protegida pela marinha britânica, a partir da qual os aliados organizaram ofensivas em direção ao território espanhol.

Segundo Duque de Wellington
Segundo Duque de Wellington - Foto: Thomas Lawrence

Depois de impedir novas tentativas francesas de dominar Portugal, Wellington avançou para a Espanha. A Batalha de Salamanca, em 1812, enfraqueceu a posição francesa e abriu caminho para a entrada dos aliados em Madri.

A sorte, nesse momento, reapareceu, mas dessa vez do lado espanhol. A campanha coincidiu com outro problema para Napoleão: a invasão da Rússia. A necessidade de deslocar soldados para o leste europeu reduziu a capacidade francesa de sustentar a ocupação espanhola.

Colapso do domínio francês

A derrota decisiva ocorreu em junho de 1813, na Batalha de Vitória. O exército aliado derrotou as forças de José Bonaparte, que precisou abandonar a Espanha, os franceses recuaram em direção aos Pireneus, e os combates chegaram ao sudoeste da França.

A Guerra Peninsular terminou em 1814, no contexto da queda de Napoleão diante da coalizão europeia. Fernando VII recuperou o trono espanhol, mas o fim da ocupação não encerrou as disputas políticas iniciadas durante o conflito.

Batalha de Vitória
Batalha de Vitória - Foto: Artista desconhecido

Durante a guerra, representantes reunidos na cidade de Cádis haviam aprovado a Constituição de 1812, que defendia a soberania nacional, limitava os poderes do rei e estabelecia uma monarquia constitucional. Quando retornou ao país, Fernando VII anulou o texto, restaurou o absolutismo e perseguiu os liberais.

A Espanha venceu a guerra contra a França, mas entrou em um longo período de instabilidade, marcado pela disputa entre absolutistas e constitucionalistas.

Crise do Império Espanhol

Com Fernando VII afastado e José Bonaparte instalado no trono, surgiu uma crise de legitimidade - as colônias precisavam decidir se reconheceriam o governo imposto pela França ou se criariam formas próprias de representação.

Juntas locais foram estabelecidas em diferentes regiões, algumas afirmando agir em nome de Fernando VII, mas o processo acabou fortalecendo movimentos de autonomia e independência.

Proclamação da Constituição Espanhola
Proclamação da Constituição Espanhola - Foto: Salvador Viniegra

A Guerra Peninsular não foi a única causa da emancipação das colônias espanholas, mas enfraqueceu a autoridade da metrópole e criou as condições políticas para o avanço de lideranças como Simón Bolívar e José de San Martín.

Nas décadas seguintes, assim, a Espanha perderia a maior parte de seus territórios continentais na América.

Mais intervenções

A história entre as duas ainda não parou por aí - em 1820, uma revolta liberal obrigou Fernando VII a restaurar a Constituição de 1812 e inaugurou o período conhecido como Triênio Liberal.

As monarquias conservadoras europeias temiam a expansão do constitucionalismo, e em 1823, a França enviou um novo exército à Espanha, conhecido como os "Cem Mil Filhos de São Luís", para devolver plenos poderes ao rei.

Cem Mil Filhos de São Luis
Cem Mil Filhos de São Luis - Foto: Artista desconhecido

Dessa vez, a intervenção francesa tinha objetivo diferente daquele da época de Napoleão. Em vez de retirar Fernando VII, Paris atuou para restaurar seu absolutismo. Ainda assim, o episódio confirmou a posição da Espanha como espaço central das disputas políticas e ideológicas europeias.

Semifinal histórica

A semifinal da Copa de 2026, então, não coloca somente futebol em campo - ela carrega mágoas de guerras do passado. França e Espanha hoje fazem parte da União Europeia, utilizam a mesma moeda e cooperam em áreas econômicas, diplomáticas e militares, mas dividem uma história nada amigável.

Mais de dois séculos depois da traição e ocupação espanhola pelos franceses, os dois países se encontram em busca de dois sonhos. Para a França, a chance de estar em três finais consecutivas na Copa do Mundo, em busca da terceira estrela para sua camisa.

Lamine Yamal e Kylian Mbappé por Espanha e França
Lamine Yamal e Kylian Mbappé por Espanha e França - Foto: FIFA

Para a Espanha, a segunda final da sua história, tendo alcançado esta etapa da competição apenas em 2010, ano em que foi campeã. Agora, a Roja sonha com sua segunda estrela, precisando deixar a favorita França para trás rumo à final contra Inglaterra ou Argentina.

Ganhe quem ganhar, uma coisa é certa - a rivalidade histórica entre os dois países estará em campo, com as guerrilhas na zaga e o poderio de conquistas no ataque.

Em meio à Copa do Mundo em que ambas chegaram como favoritas e até mesmo os memes remetem aos históricos ditadores franceses, resta saber se os espanhóis conseguirão reeditar a Batalha de Bailén em homenagem ao dia da final, ou se os franceses reescreverão a história.

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