ARTES CÊNICAS
Caio Blat estreia espetáculo inédito de Franz Kafka em Salvador
'Subversão Kafka' estreia nesta sexta-feira no Teatro Jorge Amado


O sobrenome do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), há muito, se tornou adjetivo, portanto dizer que uma situação é kafkiana é se referir a um cenário absurdo, surreal e opressivo, recheado de componentes ligeiramente satíricos e de humor negro, onde o sujeito se vê preso à insensatez da vida cotidiana.
Subversão Kafka, espetáculo que estreia hoje, às 20h, no Teatro Jorge Amado, mergulha neste universo de situações absurdas do escritor tcheco, através de seus três últimos contos, para falar sobre a condição do artista no mundo contemporâneo.
Estrelada e dirigida pelo ator paulista Caio Blat, 45, que divide a cena com o carioca Pedro Machado, a montagem tem como narrativa o último espetáculo em um teatro em ruínas e o impacto do absurdo sobre a vida dos atores. A ideia é desconstruir Kafka com ousadia e humor.
Para Caio, o propósito é fazer uma autópsia dos artistas e falar sobre a necessidade da arte. “Kafka fez um retrato muito bem-humorado e que retrata bem a sensibilidade, a fragilidade, a excentricidade dos artistas e a necessidade das pessoas de se reunirem para verem a arte”.
Com roteiro do dramaturgo Rogério Blat – primo de Caio -, e trilha sonora ao vivo do pianista, arranjador e compositor Fernando Moura, os três contos da peça se intercalam com situações desafiadoras para os atores, já que exige deles uma rigorosa musculatura física, mental e espiritual.
“O público vai ver um circo que está caindo aos pedaços com artistas que estão ali tentando sobreviver da sua arte. Um trapezista que não quer mais descer do trapézio, um artista jejuador e uma cantora que é considerada a maior de todos os tempos, e que é uma rata. Então, são personagens excêntricos de Kafka que vivem nesse circo que a gente montou”, informa Blat.
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Diva carismática

Subversão Kafka conta a história de uma companhia de teatro de variedades, cujos artistas remanescentes realizam o último espetáculo, que tem como atração a famosa cantora Josefina – uma rata.
Os ratos comparecem em peso para desfrutar da sublime arte da diva inigualável, porém a apresentação se torna incerta quando a cantora não entra em cena. Diante dessa situação, os atores são obrigados a improvisar para conter a ansiedade do público.
Quando, finalmente, os acordes anunciam a entrada de Josefina, todos silenciam. A diva joga a cabeça para trás e emite um som – ou melhor, um guincho estridente inigualável. Tecnicamente, aquilo não é música, mas consegue hipnotizar e abrandar a multidão de ratos.
De acordo com Pedro Machado – ator que interpreta alguns personagens, como o artista do trapézio e a própria Josefina –, o público vai ver em cena uma espécie de circo kafkiano decadente.
“Tentamos pegar o Kafka e fazer com que pudéssemos rir um pouco das nossas misérias. E com isso, a gente não está diminuindo as misérias humanas, pelo contrário, está lançando um olhar reflexivo sobre elas. É um espetáculo para pensar muito sobre os artistas e nossa necessidade da arte em geral”, pontua Machado.
Já o artista da fome que fica numa jaula, viajando de cidade em cidade, é interpretado por Caio. “É um jejuador que faz de tudo para impressionar o público, ele quer superar até os limites do corpo humano para surpreender as pessoas. Mas, aos poucos, vai sendo esquecido pelo público, vai sendo jogado para o fundo do circo”.
Blat revela ainda que, nesta montagem, como diretor, privilegiou conceber a magia do circo com seus personagens angustiados e melancólicos. “É quase como um circo de ilusionismo, de sombras, de personagens no circo de horrores. Eu privilegiei a fantasia, o lúdico, o sonho desses personagens, tanto que o conto principal da rata Josefina se passa no mundo dos ratos. É como se todos fossem ratos”.
“Inclusive a plateia é incluída nisso. Então, a gente tentou criar uma peça bem mágica que tire as pessoas um pouco da realidade e leve para um mundo sombrio, fascinante e hilário de Franz Kafka e Rogério Blat”, alinhava.
Precursor do modernismo

Kafka precisa ser lido, relido, montado e remontado, já que é um dos maiores escritores de todos os tempos, segundo Blat. “Ele foi um precursor do modernismo, um dos primeiros autores a escrever sobre o absurdo, a angústia da vida moderna, a burocracia”, finaliza.
Com esta trama, na verdade, Kafka faz uma alegoria ao culto da personalidade. Josefina canta para um povo oprimido, trabalhador e em constante estado de penúria. Aquele chiado agudo funciona mais como uma válvula de escape emocional do que como arte real.
As apresentações de Subversão Kafka acontecem pelo Projeto Catálogo Brasileiro de Teatro, em sua 26ª edição.
Subversão Kafka / 22, 23 e 24 de maio / Teatro Jorge Amado / Sexta e Sábado 20h, Domingo 18h e 20h / R$ 150 e R$ 75 / Vendas: Sympla e bilheteria do teatro


