DIA DOS AVÓS
Conheça as 'super-avós' que amam cultura pop e dominam o universo nerd
Paixão geek transforma a maturidade e une gerações na Bahia


Toda criança que já se perdeu de amores por uma história em quadrinhos aprendeu, cedo, uma lição simples: poder não tem forma única. Pode vir de um raio, de uma teia, de um escudo de vibranium, ou, como provam as mulheres desta reportagem, de uma avó de 52, 55, 59 ou 63 anos que decide vestir a fantasia da personagem que ama e sair às ruas para lembrar a todos que envelhecer não é sinônimo de encolher os sonhos, afinal, se o tempo passa e o mundo se transforma, a forma de envelhecer e de exercer o papel de avó também foi completamente revolucionada.
Nos eventos de cultura pop, nas madrugadas maratonando séries asiáticas e nas rodas de conversa sobre super-heróis, uma nova geração de mulheres com mais de 50 anos mostra que a imaginação, a diversão e a sede por novidades não têm prazo de validade.
Essa mudança de comportamento nas famílias brasileiras reflete uma nova realidade demográfica. Segundo dados do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui hoje mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, representando 15,6% da população. Na Bahia, a chamada "revolução prateada" também é expressiva: são cerca de 2,2 milhões de idosos (15,5% dos baianos) reescrevendo o que significa chegar à maturidade de forma ativa e cheia de vida.
Neste domingo, 25, em que se celebra o Dia dos Avós, o tradicional álbum de família ganha páginas dignas de histórias em quadrinhos e roteiros épicos nas vidas de Jomara, Solange, Uilma e Adriana, as super-avós, que vivem a cultura pop em sua plenitude.
O despertar de uma força

O encontro com o universo geek costuma ter caminhos curiosos, quase sempre guiados pelo afeto. Para a fotógrafa Adriana Grima, de 55 anos, moradora de Portão, em Lauro de Freitas, a imersão na cultura pop foi um ato de amor materno. Em 2014, ela foi ao seu primeiro evento nerd guiada pela filha mais nova, Ariana. "Surgiu essa afinidade porque eu amo minha filha e entrei nesse universo para melhor entendê-la", revela Adriana, que hoje é fã das histórias clássicas da Disney, da Feiticeira Escarlate e de séries como 'Outlander'.
A mesma porta de entrada familiar transformou a rotina da motogirl Jomara dos Santos Silva, de 52 anos, moradora de Campinas de Brotas, em Salvador. "Sempre gostei de ler revistas em quadrinhos, HQs, e conheci o mundo nerd através de meu filho mais velho. Me apaixonei, amo me vestir de personagem, me divirto com a galera", diz ela, que mostrou à nossa reportagem o seu cosplay de Ravena, heroína da DC Comics.

Enquanto Adriana e Jomara foram puxadas pelos filhos, a administradora aposentada Uilma Carvalho, 63 anos, encontrou seu refúgio nas telas por influência da irmã. Resistente no início, ela deu uma chance ao dorama 'Chocolate' e o que era passatempo virou uma paixão profunda, ajudando-a, inclusive, a atravessar o luto e a fortalecer os laços com as irmãs e sobrinhas na pandemia.
Já para Solange Amorim do Nascimento, 59 anos, de Manaus (AM), a entrada no mundo dos cosplays foi literalmente um bote salva-vidas. Enfrentando uma depressão, ela foi desafiada por uma amiga a se fantasiar. Solange escolheu a "Vovó do Piu-Piu", viralizou no Facebook e faturou o primeiro lugar no desfile, ganhando um novo fôlego de vida, além de fãs baianos nas redes sociais.
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Seja na hora de subir em um palco ou de temperar um prato sul-coreano, essas avós entram de cabeça nas suas paixões. Fã das obras do Studio Ghibli, Solange virou atração no Amazonas e ganhou o apelido de "Tia Sol". Extremamente detalhista, ela mesma estuda os tecidos, pinta, ajusta as perucas e cria seus próprios acessórios.
Esse mesmo preciosismo é compartilhado por Jomara, cujo cosplay de Madame Hydra, da Marvel, foi o mais marcante pela exigência. "Foi bem complicado tirar do jogo e reproduzir na vida real, porque a roupa só existia no jogo. Tudo tinha que ser feito no mínimo detalhe, mandar fazer os acessórios, achar peças compatíveis", explica a soteropolitana.
E se Jomara cria do zero, Adriana pega carona no guarda-roupa da filha, mas não foge dos desafios. A fotógrafa protagonizou uma cena inusitada e emocionante no Bon Odori de 2017. "A situação mais inusitada foi desfilar ao lado de minha filha, pois ela tinha timidez de entrar no palco. Eu estava de Kikyo e ela estava de Kagome [personagens do anime 'Inuyasha'], e eu decidi dar esse apoio para ela", relembra.

Longe dos palcos de animes, Uilma levou a cultura pop asiática direto para a cozinha, transformando as refeições em família em verdadeiras imersões. "A gente não tem só o interesse de conhecer outra cultura, tem a gastronomia diferente. Todo mundo entra na brincadeira. Vamos fazer um ramenzinho, um sushizinho...", relata. A dedicação foi tanta que terminou em uma viagem inesquecível para a Tailândia, onde pôde caçar as locações das séries e experimentar os verdadeiros sabores locais.
O legado nerd

É na relação com os netos que o choque geracional se dissolve e a figura da avó séria dá lugar a uma companheira de aventuras. A neta de Uilma, a pequena Ana Luisa, de 10 anos, é sua principal parceira gastronômica. "É a alegria da minha vida. Ela quem fica brincando comigo: 'Vem cá, sua dorameira, tá assistindo o quê agora?'. E adora experimentar todas [as receitas] que eu invento de fazer".
Por outro lado, a "Tia Sol" já preparou o terreno para a neta Athena, de apenas 4 anos. A avó coruja mandou fazer a roupa da personagem Mônica sob medida para a pequena e sonha em fazer um cosplay duplo de 'Ponyo'. "Sei que quando ela entender sobre o quanto sou feliz, ela vai ter muito orgulho da vó Sol".
Para Adriana, mãe de três filhos e avó de um menino de 4 anos, o universo nerd tem uma função educacional poderosa nestes tempos digitais. "Consumo esses conteúdos para fomentar a inteligência e a imaginação dele, procuro sempre trazer esse lado lúdico. A melhor parte é justamente poder trazer criatividade para os jovens e criar algo novo mesmo em uma geração que cresceu rodeada por telas".
Para Jomara, que tem três netos (de 13, 10 e 2 anos), o único lamento é a distância geográfica, já que moram em cidades diferentes. Se pudesse ter um superpoder na vida real, ela é categórica: "Me teletransportar para poder ficar mais tempo com eles". Ainda assim, o vínculo se mantém firme pela troca de referências e novidades pela internet.

Mulheres-Maravilhas da vida real
Toda essa vitalidade relatada pelas avós exemplifica uma mudança profunda e necessária na sociedade. Segundo o psicólogo, especialista em Gerontologia e mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Paulo Roberto Reis, as representações sociais sobre o envelhecer foram, por muito tempo, construídas a partir de imagens limitadas.
"Embora essas imagens ainda estejam presentes no imaginário coletivo, elas já não representam a diversidade das trajetórias das pessoas que envelhecem na contemporaneidade. Os estudos sobre longevidade mostram que envelhecer não significa apenas acumular anos, mas ampliar possibilidades de existência", explica.
O especialista alerta que a redução do envelhecimento à dependência fortalece o etarismo, invisibilizando essas novas trajetórias ativas.
"Romper com esses estereótipos é compreender que não existe uma única forma de envelhecer. As pessoas envelhecentes carregam experiências, memórias e conhecimentos, mas também desejos, curiosidades e possibilidades de futuro. A longevidade nos convida a olhar para o envelhecer não como um encerramento de trajetórias, mas como uma etapa de transformação, participação e construção de novos sentidos para a vida", analisa Reis.
Mais do que colecionar likes, maratonar doramas ou costurar fantasias, o que Adriana, Jomara, Solange e Uilma entregam às suas famílias é uma poderosa lição sobre vitalidade. Quando questionada sobre qual personagem define seu lado nerd, Adriana resume o sentimento de todas: "Seria a Mulher-Maravilha, porque explora esse empoderamento feminino, e toda mãe é uma Mulher-Maravilha em si".
Ao subverterem o que a sociedade espera de uma mulher sexagenária, elas provam que o envelhecimento é um convite à expansão. "Me sinto feliz em ser exemplo, mostrar que podemos envelhecer com alegria, que nossa alma continua tendo uma criança nela. É muito gratificante passar para meus netos esse mundo de fantasia, que viver é formidável e divertido", crava Jomara.

Solange reforça o coro com um recado direto para o futuro da sua neta: "Uma das coisas que eu deixaria para ela seria: não tenha vergonha de ser feliz, seja qual for sua idade. Viva sua plenitude, aproveite cada momento. Faça como sua avó, não deixe que ninguém diga que você não tem idade para fazer o que gosta".
E como bem resume Uilma, a descoberta nunca deve parar. "Muitas pessoas acreditam que, depois de certa idade, já aprenderam tudo o que tinham para aprender. E eu sempre pensei exatamente o contrário. A curiosidade mantém a gente vivo. Nunca é tarde para começar algo novo. Permita-se descobrir novos mundos, porque eles podem transformar a sua vida de uma forma que você nunca imaginou".



