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ENTREVISTA: LAURENTINO GOMES

'Tudo que já fomos, somos e o que seremos tem a ver com a escravidão'

Escritor lança Volume 3 da trilogia 'Escravidão' em Salvador, em eventos neste sábado e na próxima segunda

Chico Castro Jr.
Por Chico Castro Jr.
'O assunto (escravidão) precisa urgentemente constar da agenda de todos os candidatos e partidos que tiveram planos sérios para o futuro do Brasil', diz autor
'O assunto (escravidão) precisa urgentemente constar da agenda de todos os candidatos e partidos que tiveram planos sérios para o futuro do Brasil', diz autor - Foto: Arquivo Pessoal | Divulgação

Prestes a lançar, em Salvador, o Volume 3 da trilogia 'Escravidão', o escritor Laurentino Gomes se diz 'exaurido' após um trabalho de pesquisa que durou mais dez anos, mas não pretende parar, pois ainda gostaria de contar a história de temas e personagens do Brasil que o fascinam. Na entrevista exclusiva ao A TARDE, o autor enfatiza que a escravidão ainda é o principal elemento formador da identidade brasileira e que, em pleno século 21, ainda há um país escravocrata que sobrevive. Confira:

Qual foi a sensação do senhor quando finalmente concluiu esse trabalho gigantesco? No que o senhor espera que esta sua contribuição colabore para o debate sobre o racismo e a divída histórica do Brasil?

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Eu chego ao final da jornada com sensação de alívio, por ter conseguido conclui-la conforme tinha planejado, mas também consciente da enorme responsabilidade que assumi ao tratar de um assunto tão importante e definidor dos rumos do Brasil. Tudo que já fomos no passado, o que somos hoje e o que seremos no futuro tem a ver com a escravidão. Nenhum outro assunto é tão fundamental e decisivo na história brasileira. A escravidão foi e continua a ser o principal elemento formador para identidade nacional brasileira. O Brasil foi o território que importou o maior número de africanos cativos, cerca de cinco milhões no total, em 350 anos. Foi também o último a acabar com o tráfico, pela Lei Eusébio de Queirós, de 1850. E o último a acabar com a própria escravidão, pela Lei Áurea de 13 de maior de 1888. Aboliu formalmente a escravidão, mas abandonou a população negra e mestiça, descendente de africanos, à própria sorte. Alguns dos grandes abolicionistas do século XIX, como o pernambucano Joaquim Nabuco e os baianos André Rebouças e Luís Gama, diziam que não bastava acabar com a escravidão. Era preciso também enfrentar o seu legado, dando terra, trabalho, educação e oportunidades aos ex-cativos e seus descendentes. Essa segunda abolição o Brasil jamais fez. Persiste uma herança perversa da escravidão entre nós, que inclui a falta de oportunidades para a maioria da nossa população, o racismo e a desigualdade social. O Brasil nunca será um país decente, justo, desenvolvido e digno dos nossos sonhos enquanto não fizermos essa segunda abolição.

Um fato curioso para os baianos está no capítulo Honoráveis Beneméritos, onde lemos que a fortuna de um escravista local, Francisco Lopes Guimarães, após morto, foi utilizada pela viúva herdeira, Maria Ramos Guimarães, para financiar a educação do seu enteado, o poeta abolicionista Castro Alves, depois que esta se casou com o pai do futuro autor de Navio Nagreiro. Mais do que uma curiosidade, isto nos revela o quanto o escravismo estava entranhado na sociedade da época, confere?

Na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, a escravidão era um cancro que contaminava e roía as entranhadas da sociedade brasileira. Disseminado por todo o território brasileiro, o escravismo perpassava todas as atividades e todas as classes sociais. Ricos e pobres, fazendeiros, comerciantes e profissionais urbanos, instituições públicas e empresas privadas, ordens religiosas, bispos e padres, brancos, negros e mestiços, todos, indistintamente, eram donos de escravos ou almejavam sê-lo. Havia até mesmo casos de ex-escravos que, uma vez alforriados, se tornavam donos de escravos. Comprar e vender gente era o maior negócio do Brasil. Nos anúncios de jornais, os escravos brasileiros eram comprados, vendidos, leiloados, alugados, hipotecados, emprestados, doados, transmitidos em herança e até mesmo trocados um pelo outro, em um sistema de escambo que não envolvia transação monetária. No século XIX, traficantes de gente e senhores escravocratas moravam em casas e mansões suntuosas, frequentavam missas e participavam das irmandades religiosas mais importantes, compareciam às cerimônias oficiais e privavam da amizade das mais altas autoridades. Patrocinaram artistas, apoiaram a construção de museus, organizaram teatros e companhias de dança, financiaram expedições científicas, doaram somas expressivas para igrejas, irmandades religiosas, hospitais, escolas e obras de assistência aos pobres e doentes. A lista de comerciantes negreiros apontados como cidadãos exemplares e beneméritos é longa. Um caso exemplar, que mostrei num dos capítulos desse terceiro volume da trilogia, é o de Joaquim Pereira Marinho, 1º Conde Pereira Marinho em Portugal, um dos maiores traficantes de escravos na história do Brasil, hoje homenageado com uma estátua em frente ao hospital Santa Izabel, da Santa Casa de Misericórdia, no Largo de Nazaré, em Salvador. Traficantes de escravos, fazendeiros, senhores de engenho, pecuaristas, charqueadores e comerciantes davam o apoio político, financeiro e militar necessário para a sustentação do trono brasileiro. Em troca, recebiam do monarca posições de influência no governo, benefícios e privilégios nos negócios públicos e, especialmente, honrarias e títulos de nobreza. Essa troca de favores entre o Estado e os senhores da terra representava uma total inversão de valores porque premiava a violência do chicote e a exploração imoral do trabalho em regime de cativeiro. Eu diria que isso não mudou muito desde então. Os nomes de senhores poderosos e arbitrários, muitos vezes envolvidos em casos de corrupção e atividades ilegais, que frequentam os salões do poder, merecem destaque nas colunas sociais e ocupam posições respeitáveis na sociedade brasileira de hoje é bem conhecida.

A tragédia do subdesenvolvimento a que o Brasil foi condenado se solidificou bem ali na pós-abolição, quando os negros foram "largados de mão" pelo governo, sem direito a empregos decentes, terras ou acesso a educação. Como explicar que, ainda hoje, haja tantas pessoas que não entendam o peso dessa herança histórica na imobilidade social que emperra o desenvolvimento do país rumo ao futuro brilhante que poderíamos ter, todos juntos? Nossa educação não é emancipatória?

Até muito recentemente, a história africana e da escravidão negra no Atlântico era tratada como tema secundário, quase casual, nos livros didáticos e a historiografia oficial. Isso não aconteceu por acaso. É resultado de um propósito de esquecimento. O projeto nacional de abandono e apagamento fez com que nossa história negra e africana fosse relegada a um segundo plano nos currículos escolares. E, não por acaso, nunca tivemos um grande museu nacional da escravidão e da cultura afrobrasileira. Museus, como se sabe, não são apenas lugares de passeio e entretenimento. São locais de estudo e reflexão. Não ter um museu com esse perfil é, portanto, parte desse projeto nacional de esquecimento. Rediscutir nossa identidade nacional, o que inclui um reconhecimento da importância e do legado da escravidão, é um dos nossos desafios mais urgentes. A escravidão, infelizmente, hoje não deveria ser apenas tema de livros de história. É ainda uma realidade concreta neste ano do bicentenário da Independência, que coincide também com uma eleição decisiva na história da democracia brasileira. Muitas de nossas relações sociais e econômicas são de natureza escravista. O assunto precisa urgentemente constar da agenda de todos os candidatos e partidos que tiveram planos sérios para o futuro do Brasil. Precisamos urgentemente nos reconciliar com o nosso passado africano e escravocrata.

Alguns discursos anti-abolicionistas reproduzidos no livro, geralmente proferidos por pessoas muito ricas, como fazendeiros e seus políticos de estimação, soam assustadoramente atuais e parecidos com coisas que ouvimos ditas em alto e bom som no Congresso e em uniões patronais. Como lidar com políticos e empresários que, em pleno século 21, reproduzem discursos do séculos 18, 19?

A linguagem e as práticas escravistas continuam ativas e à espreita entre nós. Há um Brasil escravocrata do século XVIII que sobrevive, continua firme e atuante neste início de século XXI. Uma das consequências mais profundas e duradouras da escravidão africana foi o nascimento de uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo. Por essa ideologia, usada como justificativa para o comércio e a exploração do trabalho cativo, o negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo. Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob a tutela dos brancos, podendo, dessa forma, alçar eventualmente um novo e mais avançado estágio civilizatório. Essa ideologia, no meu entender, permanece ainda hoje oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros no Brasil. O racismo brasileiro é insidioso, cotidiano e estrutural e se manifesta das maneiras mais rotineiras. Injúrias raciais são muito comuns nos estádios de futebol, no calor de uma partida em que uma pessoa, muitas vezes, não mede as palavras e expressa sentimentos que, em situações normais, procuraria disfarçar ou esconder. O abolicionista Joaquim Nabuco dizia que escravidão havia corrompido e deturpado para sempre a maneira como a sociedade brasileira poderia ter se constituído. Banalizou a própria noção do trabalho, uma vez que no Brasil escravista quem trabalhava era o negro. Os brancos e fidalgos consideravam o trabalho indigno. Disso resultou uma riqueza predatório, que procura extrair o máximo de proveito dos recursos naturais e do trabalho mal remunerado das camadas mais pobres da população, sem contribuir efetivamente para a construção de uma sociedade nacional justa, digna e cidadã.

Imagino que após a turnê de lançamento, o senhor deva tirar umas férias. E depois? Já tem em vista seu próximo projeto? Pode dar uma pista?

A construção dessa trilogia envolveu um longo e profundo trabalho de pesquisa e escrita, que me mobilizou intensamente por mais de dez anos. Confesso que estou meio exaurido neste momento. Mas não pretendo parar por aqui. Até porque meu passatempo preferido é mesmo ler e estudar. Existem muitos temas e personagens da história do Brasil que me fascinam e sobre os quais eu gostaria de escrever. Ainda não tenho um projeto claro e definitivo pela frente. Quero dar tempo ao tempo. De imediato, no entanto, talvez em faça, já para o ano que vem, uma edição juvenil ilustrada sobre a história da escravidão, condensando os três volumes da trilogia em um único livro, ilustrado e com linguagem mais adequada para jovens, estudantes e adolescentes.

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