ARTES CÊNICAS
Espetáculo português transforma pessoas em rinocerontes e chega a Salvador
Peça que retrata uma estranha epidemia chega ao Museu de Arte da Bahia


Há tempos, brasileiros e lusitanos têm mantido um intenso intercâmbio cultural, sobretudo quando o assunto é teatro. Portanto, em mais uma etapa do projeto Conexão além-mar: Brasil & Portugal, o Museu de Arte da Bahia recebe o espetáculo O Rinoceronte, do grupo lisboeta Teatro da Garagem.
Serão somente duas apresentações. Uma já ocorreu ontem, e hoje, às 19h, será encenada a última. O projeto faz parte do fluxo de cooperação internacional com países lusófonos, reunindo o Teatro Vila Velha em parceria com a produtora CEM Palcos (Viseu/Portugal) e o Teatro da Garagem.
Com direção do português Carlos J. Pessoa, 60, a trupe lusitana – que já conta com 37 anos de trajetória – parte da obra de um dos mestres do teatro do absurdo, o dramaturgo franco-romeno Eugène Ionesco, para tratar do surgimento de uma epidemia de ‘rinocerite’ aguda em uma provinciana cidade fictícia em que os indivíduos vão pouco a pouco metamorfoseando-se em rinocerontes.
Pessoa lembra que O Rinoceronte é uma peça sobre extremismos. “Isto é, sobre a adesão cega e violenta a uma única verdade. O extremismo traz sempre consigo a intolerância para com o outro, e é, por isso, o contrário da democracia”.
“A peça descreve uma doença, a ‘rinocerite’, que não é mais do que a transformação do cidadão comum num animal cuja ferocidade remete para um estado de autossuficiência arrogante e demolidora”, completa o diretor.
Narrativa atemporal
Escrito em 1959, o texto dramatúrgico é uma alegoria antifascista com o intuito de refletir o comportamento de manada da população, e também é apreendido como metáfora do desmoronamento político do nosso tempo. Sua atualidade nos remete a um cotidiano que banaliza a barbárie a ponto de não nos chocarmos mais com a selvageria da civilização.
De acordo com Carlos, o público assistirá a um espetáculo simultaneamente trágico e cômico, em que quatro atores – Dai Ida, Rita Loureiro, Pedro Lacerda e Rui Maria Pego – dão corpo a uma cidade inteira em transformação.
“É o teatro na sua expressão mais simples e acessível: o jogo do faz de conta”, diz.
A metáfora do rinoceronte transporta as pessoas para os totalitarismos fascistas que marcaram a juventude de Eugène Ionesco na Romênia dos anos 1930. “Mas transporta-nos, sobretudo, para todas as formas de comportamento totalitário, a começar pela atitude cotidiana de cada um de nós perante o próximo”, endossa J. Pessoa.
Para ele, Ionesco é um autor visionário que consegue tratar de temas divisivos com humor, de forma inteligente e acessível. “E é hoje mais necessário do que nunca: o extremismo tornou-se, infelizmente, a moda política dos nossos dias. Na Europa como no Brasil, parece que não aprendemos nada. Reina a imbecilidade, e a ‘rinocerite’ espalha-se como uma praga. Mas estou em crer que o bom senso acabará por prevalecer”.
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Caetano e Gil
Único brasileiro do elenco, Dai Ita, 39, vive o protagonista Bernardo, um homem comum, avesso ao conformismo, e o único que resiste à epidemia que transforma todos os cidadãos em rinocerontes.
“Bernardo é um cidadão que, a princípio, não sabe se adere ao pensamento de massa e tenta resistir até o fim. A peça nos convoca a pensar sobre como a gente adere aos discursos coletivos sem questionar. Fala sobre recuperar a capacidade de reflexão, o que é um grande desafio”, ressalta Dai.
Apesar de ter sido escrita no pós-guerra, fica patente que O Rinoceronte tem uma temática muito atrelada aos dias de hoje, sobretudo em função da ascensão da extrema direita no mundo.
Segundo Rita Loureiro, que interpreta Guida e a Senhora Bovina, esta é uma encenação pouco convencional de um texto de Ionesco. “Tem uma coisa muito interessante neste espetáculo, que é essa epidemia de mentalidade, que chamamos agora de extrema-direita. Ela vai se apresentando de formas sutis e não convencionais, podendo ser através de sons ou atitudes”.
A montagem faz uma última apresentação, na capital baiana, hoje, sem a presença do diretor, que lamenta não poder vir a Salvador desta vez, mas aproveita para declarar seu amor pelos artistas daqui.
“A Bahia conheço-a, sobretudo, pela arte que dela nasceu. Jorge Amado deu-nos a Gabriela, única novela que vi do princípio ao fim. Glauber Rocha é um mestre incontestado do cinema, e a música de Gilberto Gil acompanha-nos há décadas. Infelizmente, não posso estar aí, mas a alegria atravessa o oceano como o Leãozinho do Caetano, com uma vela no dorso”, arremata Carlos J. Pessoa.
Minibio
O Teatro da Garagem (TG) é uma companhia de teatro e instituição de utilidade pública, que celebra, em 2026, 37 anos de atividade regular. Ao longo do seu percurso, tem dedicado o seu trabalho à pesquisa e à experimentação.
Como o próprio nome indica, o Garagem iniciou a sua atividade numa garagem dos subúrbios de Lisboa. Essa origem marcou de forma indelével a estética da companhia e a escrita do seu dramaturgo, encenador e diretor artístico, Carlos J. Pessoa.
O percurso do grupo é reconhecido nacional e internacionalmente. E esse reconhecimento acrescenta ao projeto uma responsabilidade junto à comunidade, entendendo o teatro como espaço de pensamento, partilha e intervenção.
Desde 2005/2006, o Teatro da Garagem é uma companhia residente do Teatro Taborda, a convite da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) e da Câmara Municipal de Lisboa, consolidando um percurso singular no panorama teatral português.
O rinoceronte / 03 de outubro / 19h / Museu de Arte da Bahia) / Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia) / Vendas: Sympla e no local

