TEATRO
Espetáculo que mistura Odisseia e poesia estreia em Salvador
Montagem mistura clássico de Homero com poema de Heiner Müller e reúne jovens artistas da capital baiana em montagem que reflete sobre guerras

Uma das narrativas fundadoras da literatura ocidental ganha nova leitura ao se encontrar com um poema contemporâneo marcado pelas ruínas do século XX.
A montagem que aproxima Odisseia, atribuída a Homero, e Paisagem com Argonautas, de Heiner Müller, estreia amanhã e segue até o dia 22 deste mês, no Teatro Vila Velha, com sessões às 19h.
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A montagem inclui recursos de acessibilidade, como tradução em Libras e audiodescrição, ampliando o acesso do público à encenação.
O espetáculo também encerra um ciclo de formação da Universidade LIVRE do teatro e reúne jovens artistas selecionados em comunidades aqui de Salvador. E conta com o apoio da Fundação Branco do Brasil.
Quem assina a dramaturgia é Marcio Meirelles. Ele conta que a encenação parte de uma pergunta central: como falar hoje de uma história escrita há séculos?
A resposta encontrada pela equipe foi colocar em diálogo duas narrativas sobre viagens, destruição e retorno.
Meirelles conta que a ideia inicial era realizar uma espécie de tradução integral do poema de Homero para o palco. O plano era preservar a estrutura narrativa da obra, reduzindo apenas episódios ou falas, já que a história reúne uma grande quantidade de acontecimentos. “Quando começamos a trabalhar, a ideia era realmente fazer uma transliteração do texto inteiro, traduzir para a cena todo o poema na estrutura que ele tem, apenas reduzindo episódios”, afirma o diretor.
Com o avanço dos ensaios, Meirelles conta que passou a sentir que o material precisava ganhar uma dimensão mais direta em relação ao presente. “Eu sentia dificuldade de tornar isso mais contundente, mais contemporâneo, mais conectado com tudo o que está acontecendo agora”, explica.
A Odisseia, poema épico da Grécia antiga, narra a tentativa de retorno de Odisseu após a Guerra de Tróia. No caminho, o personagem percorre por anos de travessia, enfrenta monstros, tentações e armadilhas, até finalmente regressar à Ítaca. Para Meirelles, o poema também expõe uma sequência de destruições que não se encerra.
“É uma guerra que destruiu uma cidade inteira e um caminho de volta que não se concretiza, porque ele continua em guerra o tempo inteiro. Quando ele chega em casa, faz uma chacina, mata os pretendentes e ainda haveria outra guerra”, observa.

Foi nesse momento que o diretor retomou um texto que já havia montado nos anos 1990, Paisagem com Argonautas, de Heiner Müller. O poema reinterpreta o mito dos argonautas e reflete sobre as ruínas do século XX, especialmente as marcas da Segunda Guerra Mundial.
Meirelles reforça que a aproximação entre os dois textos surgiu a partir da própria figura de Odisseu. Para Meirelles, o herói clássico é também um narrador que inventa versões diferentes de si.
“Odisseu é um mentiroso. Ele vai inventando várias histórias para pessoas diferentes. A única que vira a história oficial é a que ele conta para o rei que o devolve para casa, justamente a mais fantasiosa, com sereias, monstros e a descida aos infernos”, diz.
Sem deuses e monstros
Uma das escolhas centrais da montagem foi retirar da narrativa as interferências divinas presentes no poema de Homero. Na Odisseia, os deuses influenciam diretamente o destino do herói, determinando o tempo de sua viagem e intervindo em momentos decisivos.
Na encenação, essa dimensão foi deslocada para o campo das decisões humanas. “No mito, há uma interferência direta dos deuses o tempo inteiro. A primeira coisa que fiz foi tirar os deuses da narrativa”, explica Meirelles.
“Tempestades, o mar revolto, a mudança climática. São respostas ao que a gente faz”, complementa.
Com a retirada de figuras como sereias ou ciclopes, a narrativa passa a destacar conflitos políticos e escolhas individuais. A resistência da rainha Penélope, por exemplo, ganha maior destaque na encenação.
“No poema, ela enfrenta uma multidão de homens da elite que querem ocupar o palácio. Ela resiste, adia decisões, mantém o reino funcionando”, observa o diretor. Essa mudança também amplia o sentido contemporâneo da história.
Para Meirelles, o retorno de Odisseu pode ser entendido como uma pergunta sobre o futuro da própria humanidade. “A gente precisa pensar para onde está indo e para onde gostaria de ir. Como recompor a humanidade, a harmonia, num mundo de tanto ódio e tantas mentiras?”, questiona.
Processo coletivo
O espetáculo é resultado de um processo formativo realizado ao longo de um ano com jovens artistas selecionados em diferentes comunidades de Salvador. Segundo o diretor, o grupo foi formado a partir de oito oficinas realizadas em bairros distintos da cidade.
O objetivo era construir um elenco diverso e criar um ambiente de colaboração entre artistas com trajetórias diferentes. “Quando se monta um elenco, tenta-se criar uma orquestração que dê certo. Às vezes não são os melhores individualmente, mas aqueles que conseguem dialogar e colaborar”, enfatiza.
A montagem encerra um ciclo do projeto Universidade LIVRE, iniciativa de formação artística do Teatro Vila Velha, citada acima. A atriz Luana Dias, conhecida artisticamente como Pandora, 25, mora em Massaranduba, bairro da Cidade Baixa de Salvador.
Para ela, a formação ampliou a compreensão sobre o funcionamento do teatro. “A LIVRE (Universidade do Teatro Vila Velha) traz uma formação completa. A gente sai da bolha da atuação e passa a entender também a parte técnica e os outros componentes que formam o teatro”, afirma.
Segundo a atriz, o convívio diário com pessoas de trajetórias diferentes também fez parte do aprendizado. “O convívio durante um ano com pessoas completamente diferentes foi difícil, mas ao mesmo tempo conseguimos avançar e nos encontrar dentro do que é ser artista”, diz.
Para Pandora, participar da montagem também tem um significado pessoal ligado às próprias travessias cotidianas. “Sendo moradora de Massaranduba, existe um afastamento do centro da cidade e as coisas demoram a chegar. Fazer parte dessa montagem que fala sobre travessia também é falar das travessias que faço diariamente para conseguir ser artista”, destaca.
Trilha sonora
O músico Ramon Gonçalves assina a trilha sonora da montagem. Ele diz que buscou criar uma atmosfera sonora inspirada em trilhas cinematográficas e experimentações eletrônicas.
Segundo ele, a composição parte de uma ideia de “orquestração épica artificial”, construída com camadas de sons eletrônicos, paisagens sonoras e referências a ambientes marítimos. “Trabalhei com insinuações bélicas, instrumentação sintetizada e sobreposição de samples de violinos, violoncelos e sons do mar”, explica.
De acordo com ele, a trilha também incorpora instrumentos tocados ao vivo pelo elenco, como berimbaus, atabaques, alfaia e guitarra. O desafio, segundo o compositor, foi equilibrar as camadas eletrônicas com a presença física da percussão e das vozes. “Era preciso compor de forma que houvesse espaço para esses elementos coexistirem em cena”, afirma.
Segundo Meirelles, a expectativa é que o espetáculo provoque diferentes camadas de leitura no público, tanto pela história clássica quanto pela experiência dos jovens artistas que ocupam o palco. “Espero que o público se emocione e reflita sobre o que essa história fala sobre nós hoje”, fecha.
ODISSEIA + Paisagem com Argonautas
- Quando: A partir do dia 7 até 22 de março
- Horário: sessões às sextas (19h), sábados (16h e 19h) e domingos (16h)
- Onde: Espaço Cultural Barroquinha
- Ingressos: R$ 40 e R$ 20
- Vendas: Sympla ou no local
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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