TEATRO
Fernanda Torres exalta Bahia em volta ao estado: "Tem muito a ensinar ao mundo"
Espetáculo retorna a Salvador para cinco sessões no Teatro Castro Alves


Sentada diante de uma mesa e acompanhada apenas por um microfone e alguns objetos, uma baiana de 68 anos decide contar ao mundo as aventuras sexuais que acumulou ao longo da vida. Sem culpa ou desejo de provocar, ela defende que a luxúria não é pecado, mas uma dádiva comparável à bondade.
É essa mulher sem nome, criada por João Ubaldo Ribeiro, que Fernanda Torres volta a interpretar em A Casa dos Budas Ditosos, espetáculo que retorna a Salvador para cinco sessões no Teatro Castro Alves, entre esta sexta-feira, 31, e domingo, 2.
A montagem chega à capital baiana depois de Fernanda passar os últimos anos envolvida com o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Em cartaz há 23 anos e assistida por mais de três milhões de pessoas, a peça marca o retorno da atriz ao teatro e o reencontro com uma personagem que atravessou diferentes momentos de sua vida profissional e pessoal.
Fernanda não costuma procurar semelhanças entre si e as figuras que interpreta. No caso da libertina baiana, o que a faz retornar é a possibilidade de revisitar a inteligência e a liberdade presentes na escrita de João Ubaldo.
“Gosto de voltar a me encontrar com a cabeça delirante do Ubaldo, com a inteligência dele. É como montar num cavalo divino”, declara. Para a atriz, A Casa dos Budas Ditosos apresenta uma espécie de história sexual do Brasil no século XX, narrada sob o olhar de um escritor profundamente envolto na cultura da Bahia.
A obra integra a coleção Plenos Pecados (Objetiva), na qual João Ubaldo ficou responsável por escrever sobre a luxúria. O livro assume a forma de um depoimento em primeira pessoa.
Nele, a protagonista relembra encontros, desejos e experiências vividas sem repressão, defendendo o direito de cada pessoa exercer plenamente sua sexualidade. A estrutura oral da narrativa permite que o texto encontre, no teatro, um caminho natural.
“A Casa dos Budas Ditosos é a história sexual do Brasil do século XX pelas mãos de um baiano de calibre grosso. É o mais perto que cheguei dessa fonte inesgotável de talento, liberdade e alegria que é a Bahia”, afirma Fernanda.
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Três criadores
A adaptação nasceu do encontro artístico entre João Ubaldo Ribeiro, Fernanda Torres e o diretor Domingos de Oliveira. Ao ler o livro, Domingos percebeu que o relato da protagonista reunia força dramática suficiente para ser levado ao palco, praticamente sem interferências.
O processo de construção do espetáculo foi baseado, sobretudo, na edição e na busca por fidelidade ao pensamento do escritor. Fernanda propôs que a personagem permanecesse sentada diante de uma mesa e falasse ao microfone. Domingos aceitou a ideia e conduziu a atriz de forma delicada, concentrando o trabalho no ritmo e na clareza das palavras.
“Foi uma parceria muito afinada. A peça dos Budas é o livro do Ubaldo filtrado pelo romantismo do Domingos. É o encontro dos dois, de nós três”, define. Um dos principais desafios foi encontrar a voz da personagem.
Embora Fernanda não seja baiana, Domingos considerava indispensável que a protagonista carregasse na fala a musicalidade de sua origem. “Um dia, o Domingos chegou e disse: ‘lamento informar, mas ela é baiana, teremos que arriscar o sotaque’. Foi um pouco apavorante”, lembra a atriz.
A preocupação inicial diminuiu à medida que a atriz percebeu que o ritmo do texto de João Ubaldo se ajustava à sonoridade da fala baiana. As pausas, a fluência e a musicalidade das palavras passaram a funcionar melhor quando acompanhadas pelo sotaque. “Conforme fui lapidando o baianês, fui percebendo que o ritmo do texto, a fluência e as pausas afinavam muito mais com o sotaque”.
Personagem necessária
Mais de duas décadas se passaram desde a estreia da peça, mas Fernanda considera que a protagonista permanece firme em suas convicções. O que mudou, segundo ela, foi o mundo ao redor. “A personagem continua sólida. O mundo é que desmilinguiu um pouco”, afirma.
Em um contexto novamente marcado por disputas morais sobre o corpo, o desejo e a autonomia das mulheres, a baiana funciona como uma espécie de norte. Sua liberdade não é apresentada como uma provocação vazia, tampouco como um comportamento que deve ser imposto aos outros. Ela simplesmente reivindica o direito de narrar a própria vida sem arrependimento.
“Ela decide vir a público dizer que a luxúria não é pecado, que é um dom de Deus como a bondade. E não faz isso esfregando na cara de ninguém as suas libertinagens. Faz com delicadeza, convidando o público a imaginar o que seria gozar dessa liberdade”, ressalta Torres.
A personagem se apresenta como alguém semelhante às pessoas sentadas na plateia. Embora suas experiências possam parecer inalcançáveis, seus desejos e contradições despertam no público a revisão de seus próprios desejos.
Lembranças pessoais
Embora profundamente ligada à Bahia, a protagonista conquistou espectadores de diferentes regiões do país. Para Fernanda, essa dimensão universal está justamente na capacidade de João Ubaldo de traduzir uma cultura local sem reduzir sua complexidade.
A relação dos baianos com a sexualidade, a música, a crença e a vida comunitária aparece no texto como parte de um universo particular, mas capaz de dialogar com experiências humanas mais amplas.
“A Bahia tem muito a ensinar ao mundo. A relação do baiano com a sexualidade, a música e a crença é muito diferente do resto do País, e o Ubaldo traduz isso um pouco nos Budas”, avalia Fernanda.
O retorno a Salvador também desperta lembranças pessoais. Na última passagem da peça pela cidade, Fernanda passou um fim de semana inteiro ao lado de João Ubaldo, na casa de Paula Lavigne e Caetano Veloso, no Morro Vermelho.
Agora, a atriz está mais próxima da idade da personagem. João Ubaldo e Domingos de Oliveira já morreram, mas continuam presentes no modo como ela conduz o texto e compreende a montagem.
“Eu mudei muito, mas continuo igual. Estou mais perto da idade da personagem, e Ubaldo e Domingos já não estão comigo, a não ser em pensamento”, comenta Fernanda.
Texto e microfone
A economia de elementos é uma das marcas do espetáculo. A cena não depende de grandes mudanças de cenário, efeitos visuais ou movimentações. A força da montagem está no encontro entre atriz, texto e público.
A mesa reúne poucos objetos, entre eles dois pequenos budas envolvidos em um ato sexual e o livro Nossa Vida Sexual, de Fritz Kahn, como se os elementos pertencessem à biblioteca do avô da personagem.
Sustentar a narrativa durante todo o espetáculo exige domínio do texto e respeito ao ritmo da protagonista. Depois de mais de duas décadas, Fernanda afirma conduzir as palavras como uma partitura.
“É preciso muita calma e clareza. Hoje domino o texto como uma partitura. Mesmo com plateias mais duras, não costumo perder o centro nem tento acelerar para acabar logo. Respeito o tempo dela, da baiana”, pontua Fernandinha.
A atriz já passou períodos de dois anos ou mais sem interpretar a personagem. Quando retorna, encontra um público renovado, formado inclusive por pessoas que ainda não haviam nascido quando a peça estreou.
Fernanda não pretende retomar longas temporadas ou percorrer diversas cidades. Prefere realizar apresentações pontuais, mantendo a obra como parte de um repertório ao qual pode voltar sempre que desejar.
Depois de 23 anos, a baiana libertina continua ocupando o palco para defender o prazer e a imaginação. Para Fernanda, retornar ao texto é mais do que revisitar um sucesso da carreira. “Os Budas são minha missa, meu Satisfaction”.
A casa dos budas ditosos / Teatro Castro Alves / 31 de julho, 1 e 2 de agosto / horários variados
*Sob supervisão do editor Eugênio Afonso


