TEATRO
Montagem inspirada em Shakespeare chega a Salvador com nova temporada
Espetáculo transforma os bastidores de uma cerimônia política em reflexão
Uma cerimônia preparada para empossar o governante de uma jovem república é interrompida por uma notícia inesperada: o líder morreu antes mesmo de assumir o cargo.
A partir dessa situação, o espetáculo 'CÃO' constrói uma narrativa que mistura humor, crítica social e metateatro para discutir as relações de trabalho e os mecanismos de poder no Brasil contemporâneo.
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Após temporadas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, a produção desembarca em Salvador para a última etapa de sua circulação promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). As apresentações acontecem entre os dias 18 de junho e 6 de julho, no CineTeatro 2 de Julho, na Federação.
Resultado da primeira parceria entre os grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, o espetáculo reúne duas trajetórias consolidadas do teatro brasileiro contemporâneo em uma obra que parte de questões sociais atuais para desenvolver sua dramaturgia.
Bastidores viram centro da narrativa
Em cena, o foco não está nos líderes políticos, mas nos trabalhadores responsáveis por fazer a máquina funcionar. Técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, seguranças, mestres de cerimônia e operários passam a ocupar o centro da história depois que a morte inesperada do governante obriga todos a reorganizar uma nova posse.
Entre ordens contraditórias, protocolos improváveis e pressões constantes, o grupo tenta manter a estrutura funcionando enquanto enfrenta uma sequência de desafios que transformam os bastidores em palco principal.
A partir desse contexto, o espetáculo discute a rotina de profissionais que sustentam grandes eventos e instituições, mas que frequentemente permanecem invisíveis dentro das estruturas de poder.
Inspiração em Shakespeare e olhar para a América Latina
Livremente inspirado na tragédia shakespeariana 'Coriolano', o espetáculo não busca reproduzir a obra clássica. A proposta é utilizar elementos do texto para refletir sobre questões contemporâneas ligadas a conflitos de classe, manipulação política e precarização do trabalho.
A dramaturgia foi construída a partir de uma pesquisa sobre o Brasil atual e desenvolvida durante cinco residências artísticas realizadas em Natal, Recife e Rio de Janeiro.
“O processo da montagem foi muito natural. Fomos descobrindo, juntos, onde estavam as fraturas do presente, e daí nasceu ‘CÃO’”, destaca Fernando Yamamoto, diretor e coautor da dramaturgia, ao lado de Giordano Castro.
Para o diretor Luiz Fernando Marques, o Lubi, o interesse da pesquisa rapidamente se voltou para aqueles que sustentam as estruturas sociais. “Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas”, reforça.
Humor como ferramenta crítica
Embora trabalhe com elementos de comicidade, a montagem utiliza o humor para ampliar o debate sobre temas relacionados às condições de trabalho e ao desgaste provocado por jornadas exaustivas e instabilidade constante.
A peça acompanha personagens submetidos a pressões permanentes enquanto tentam responder a demandas cada vez mais contraditórias. Nesse processo, a comicidade surge como recurso para expor situações que dialogam com discussões presentes na sociedade brasileira.
Yamamoto ressalta que o espetáculo cria um riso que, ao mesmo tempo em que diverte, faz refletir sobre temas urgentes e profundos. O humor, em “Cão”, não alivia a crítica, mas a expõe.
Teatro também olha para seus próprios bastidores
Além de abordar o universo do trabalho de forma ampla, o espetáculo direciona seu olhar para o próprio setor cultural. Em CÃO, os bastidores do teatro deixam de funcionar apenas como cenário e passam a ser tratados como espaço político.
A montagem evidencia as estruturas que tornam possível a realização de uma produção artística e levanta questionamentos sobre as condições enfrentadas pelos profissionais da cultura.
“A cultura é um campo em que a precarização aparece de maneira gritante. E é justamente nesse campo que seguimos criando, resistindo e nos reinventando”, completa Lubi.
Temporada terá recursos de acessibilidade
A temporada em Salvador contará com apresentações acessíveis ao público. Haverá intérpretes de Libras nos dias 21 e 28 de junho e audiodescrição em 5 de julho. Também está previsto um bate-papo aberto ao público sobre a obra ao longo da circulação.
No elenco estão Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz.
A montagem tem direção de Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (Lubi), dramaturgia musical de Ernani Maletta, design de som de Gabriel Gianni, iluminação de Ronaldo Costa, cenário de Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques e Rogério Ferraz, figurino de Maria Esther e direção de produção de Talita Yohana.
CÃO — espetáculo do Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE)
- Quando: 18 de junho a 06 de julho
- Quinta a sábado, às 20h
- Domingo e segunda, às 19h
- Onde: CineTeatro 2 de Julho — Federação, Salvador (BA)
- Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
- Classificação indicativa: 16 anos
- Duração: 115 minutos