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ENTREVISTA

"O fazer artístico é uma luta por sobrevivência", diz Luciana Souza

Atriz detalha sua trajetória dos palcos baianos para a tela do cinema

João Paulo Barreto  | Especial A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE
Luciana Souza sobre protagonismo em filme premiado: "Uma missão de dar uma nova vida a mim mesma"
Luciana Souza sobre protagonismo em filme premiado: "Uma missão de dar uma nova vida a mim mesma" - Foto: Divulgação

Dona de uma longa trajetória no cinema e no teatro, Luciana Souza é um dos rostos mais conhecidos do cinema brasileiro na atualidade. De participações em filmes como O Paí Ó (2007), Bacurau (2019), A Matriarca (2023) e Inabitável (2020), pelo qual recebeu o Kikito de Melhor Atriz no festival de Gramado, passando por diversos trabalhos no teatro e na televisão, Luciana está com um novo filme.

Após ser premiado na Berlinale, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, da diretora Janaína Marques, acaba de estrear no Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. No papel enérgico de Dalva, que divide uma viagem pelas estradas do interior do Ceará ao lado da filha, Rosa (Verônica Cavalcanti), Luciana traz uma presença magnética. Filmado durante a pandemia, a produção representou um respiro para todas as pessoas envolvidas na criação.

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Com temas importantes de resgate de um afeto familiar, bem como de uma denúncia contra o feminicídio, a obra traz ao espectador uma viagem onírica de dor, mas, também, de redenção.

Nessa entrevista ao jornal A TARDE, Luciana Souza falou sobre a produção, sobre os aspectos aprofundados pelo roteiro e pela construção de sua personagem, além de abordar os caminhos de sua longeva carreira. Confira!

Sua personagem em Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, apesar de todo denso drama que ela traz em sua trágica trajetória de vida, possui muito de uma liberdade cômica em sua construção. Como foi esse processo de mesclar esses dois pesos ao dar vida à Dalva?

Interessante você falar de desse lado cômico, né? Eu agora estou pensando aqui nesses momentos cômicos. Porque eu também tive um certo entendimento sobre a liberdade da personagem. Isso me deixou um tanto à vontade. Tivemos uma preparação com Armando Praça, diretor e preparador de elenco também do Ceará com encontros virtuais. Na época, eu não conhecia Janaína e nem Verônica e ficamos um bom tempo nessa preparação, com encontros constantes e bastante substanciosos, estudando, analisando o roteiro e as personagens. Isso foi dando um tom para a construção da personagem, porque como era uma relação intensa de duas personagens e Armando provocava essa intimidade entre mim e Verônica eu ia ali entendendo melhor o contexto. Quando eu encontro pessoalmente com Verônica e Janaina e toda equipe, inclusive de caracterização, já emendamos direto com o início das gravações.

Então o laboratório a partir daí foi no processo do fazer. Janaína também atuou como uma diretora que sabia o que queria e poder estar direto com Verônica, onde trocamos muitas ideias e experiências facilitou muito nossa intimidade, algo que é fundamental na história. Então, a construção vinha muito do que saia desses encontros. E eu penso que Dalva, sendo também uma construção da imaginação de Rosa, ela vai para um caminho da liberdade, já que a mente, o pensar, o sonhar, a utopia lhe permite muitas coisas, muitas possibilidades. Então, eu trouxe para mim, também, esse tom de ser uma personagem livre, ainda que ela tenha uma história de assassinato, tendo ficado encarcerada um tempo. Mas no pensamento de Rosa, sua filha, Dalva é uma mulher livre. Um fato que foi também importante pra mim foi eu ter pintado o cabelo.

Eu nunca tinha pintado o meu cabelo de vermelho. É interessante porque é uma coisa externa, mas que contribui, que dá um tom de transformação. Então, foi muito isso das coisas que iam acontecendo. O conhecer espaços e paisagens tão diversas e incríveis do Ceará me transmitiu uma certa liberdade. Eu fui muito por essas impressões que aconteciam, mesmo vivendo uma história dramática, a personagem é livre a partir do seu olhar diante da diversidade que se apresenta no seu caminho.

Como o roteiro, que é assinado por duas mulheres, a Tais Monteiro junto com Xenia Rivery, ao lado de Pedro Candido e Pablo Arellano, chegou até você? O texto te ganhou de cara?

A produção entrou em contato me convidando para fazer o filme, a gente conversou de forma virtual e depois de um tempo eu recebi o roteiro. Toda vez que eu recebo um convite de um trabalho, eu fico contente, sabe? Contente por poder interpretar uma nova personagem, uma nova faceta. Poder mergulhar em outras personalidades. Eu me preocupo em atender ao propósito da direção, do roteiro, mas uma proposta de criar personagem me soa como uma missão de dar uma nova vida a mim mesma. É um roteiro que lida com temas que perpassam pela nossa história de gênero, feminismo, feminilidade, feminicídio, sobre todos esses temas que nos atravessam, então é um roteiro que traz temas familiares e que nos pegam de imediato.

Imagem ilustrativa da imagem "O fazer artístico é uma luta por sobrevivência", diz Luciana Souza
Foto: Divulgação

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Como um dos seus temas principais, o filme traz a questão do feminicídio para uma discussão muito importante. Quando você leu o roteiro e percebeu essa temática no texto, foi algo que também lhe atraiu para o papel?

Você sabe que eu sou uma atriz também de teatro. E eu sempre me envolvi, na maioria das minhas participações em teatro, em trabalhos voltados para questões que dizem respeito à cidadania, emancipação, à libertação, à compreensão de coisas que impede a gente avançar para uma melhoria coletiva, mas também pessoal e individual. Então, eu fiz trabalhos na minha vida que seguiram uma militância e que passam por essas questões. Eu fiz uma peça em 2008 com Edvana Carvalho, Gal Sarkis e Waldélia Diaz que se chama Quem é ela? E era um momento em que a sociedade não estava, ainda, discutindo tanto essas questões da violência contra a mulher, da violência doméstica, como hoje. E ali nós já trazíamos essas questões, em depoimentos de nossas próprias experiências e também com textos de Machado de Assis e de José de Alencar que tinham essas referências em histórias mais longínquas.

Hoje, estamos com esses assuntos mais em pauta, mas na minha trajetória de trabalho e lutas por cidadania, essas questões estiveram sempre presentes. E ao ter a oportunidade de fazer essa personagem que também está inserida nesse contexto, a base que trago de vivências, estudos e discussões me deram mais liberdade ainda de poder desenvolver a personagem e querer dar vida com muito gosto a essa história.

Sua trajetória profissional, tanto em curtas metragens quanto em longas, passando pela TV e pelo teatro, denota um perfil que, como espectador, gosto de chamar de atriz/operária. Queria lhe perguntar sobre esse perfil que representa muito essa luta constante de tentar sobreviver dentro de sua arte.

Eu já usei algum tempo também essa expressão. Que eu era uma operária da arte. Porque a arte vem para mim primeiramente como um ofício. Eu me identifico com a arte desde criança. Só que no processo da minha vida, com todo esse histórico de classe popular, de que você tem que estudar e trabalhar para conseguir ser alguma coisa na vida, não passava por mim que a arte seria uma oportunidade de trabalho, de realização. Então, eu fui trilhando outros caminhos trabalhando e estudando, mas praticando arte: teatro, dança, música, capoeira. Fiz a primeira graduação em filosofia.

Trabalhei em diversas coisas, mas, em paralelo a isso, eu fazia o teatro. Mesmo trabalhando em coisas diferentes, eu me mantive fazendo aquilo que eu gostava. Apesar de que, se eu tivesse me concentrado mais nisso, talvez eu estivesse em melhores condições hoje (risos). Quando eu vou me encontrar com os grupos de teatro, e eu falo do teatro porque é ele que me leva para o cinema e para a TV, mas quando eu vou para os grupos, encontro lá pessoas que na sua maioria têm realidades um tanto semelhantes à minha: origem na classe popular, afro descendente, família grande, matriarcal, baixo poder aquisitivo etc. E ali eu começo a perceber que o fazer artístico é uma luta por identidade, por sobrevivência, por ocupação de espaços de direito em uma sociedade racista, machista e com todas essas questões problemáticas que já conhecemos. Permanecer na arte, fazer teatro e ir para o cinema, é como se essas coisas me empurrassem junto para uma experiência de vida mais intensa e consciente do meu papel e de minha realidade. São essas coisas que me levam.

Eu fiz um tempo teatro infantil, onde eu aprendi muito, também. Além disso, fiz teatro de rua, fiz teatro em empresas. Recebi esses conhecimentos que também me prepararam, mas o que vai levar para buscar uma compreensão melhor sobre como sobreviver nessa sociedade, como poder seguir na direção daquilo que eu gostaria de ser, é esse fazer artístico mais politizado, sabe? Mais consciente. Trazer personagens também que muitas vezes não estavam tão representados nas diversas produções. E graças a Deus vou encontrando pessoas que são atraídas pelo trabalho e vamos tendo esses encontros.

Eu estou fazendo agora uma novela em que eu faço uma empregada e que é uma artesã, também. Uma pessoa que trabalha com a arte do tear. É uma novela que beira à comicidade. Mas eu estou ali, o meu posicionamento, é com o meu corpo que é impregnado dessa luta. Da luta contra esses padrões que a gente ainda tem na nossa sociedade e que dificultam a nossa passagem para uma liberdade maior. É interessante porque eu comecei a falar com você sobre liberdade da personagem e é essa mesma luta que a gente leva consigo para estar no mundo, para fazer as coisas que quer fazer. Então, é sempre com muita garra. É sempre de uma forma aguerrida, eu diria.

Cinco anos depois de sua gravação, o filme tem sua primeira exibição nacional no Olhar de Cinema de Curitiba após passar pelo festival de Berlim. Sensação boa, né?

Sim. Ir para Berlim foi fantástico. Uma experiência linda. Interessante que o Eu Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha é um filme que foi feito há tanto tempo, e depois dele eu fiz outros. Inclusive, dois deles são filmes feitos no Ceará. Esses filmes vieram depois e tiveram estreias já há algum tempo. Eu Fiz um Foguete é um filme que estava um tanto guardado, sabe? E aí quando vem essa estreia em Berlim, poxa, para mim foi uma coisa triunfal. Um filme que eu não tinha criado tanta expectativa e quando ele vem, vem dessa forma. Com uma estreia num festival tão importante, político, que é a Berlinale. Tivemos uma recepção muito calorosa, com ricos debates, uma agenda bem recheada e eu fui muito feliz por lá e acredito que no festival Olhar de Cinema também será assim.

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