ARTE
Quem foi Agnaldo Manoel dos Santos? Galeria resgata legado do escultor
Novo espaço cultural público em Vera Cruz leva o nome do escultor Agnaldo Manoel dos Santos


Ao perguntar sobre uma figura marcante da Ilha de Itaparica, não é incomum que os habitantes locais citem imediatamente João Ubaldo Ribeiro (1941- 2014). Nascido no território, o renomado escritor transformou a ilha e seu povo em fonte de inspiração para diversas de suas histórias, encantando leitores no Brasil e no exterior com sua literatura.
Se Ubaldo conquistou públicos nacionais e internacionais por meio da palavra, Agnaldo Manoel dos Santos (1926 - 1962) foi outro artista itaparicano responsável por encantar pessoas de diferentes partes do mundo com suas esculturas.
Ainda hoje, suas obras integram importantes coleções de museus e instituições culturais no Brasil e no exterior, consolidando seu legado como um dos grandes nomes da arte brasileira.
Como forma de homenagear o artista em sua terra natal, a Prefeitura de Vera Cruz, por meio da Secretaria de Economia Criativa, Cultura e Turismo, inaugurou, no último dia 11 de junho, a Galeria Agnaldo Manoel dos Santos. O novo espaço expositivo público está instalado no Complexo Cultural de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica.
A abertura da galeria foi marcada pela exposição Isto é Bahia, do artista alemão Hansen Bahia, realizada em celebração aos 50 anos da Fundação Hansen Bahia. A mostra reúne obras que dialogam com a identidade cultural, a ancestralidade e as tradições do povo baiano, permanecendo aberta à visitação até 19 de julho, de terça a domingo, das 10h às 15h.
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Segundo o secretário de Economia Criativa, Cultura e Turismo, André Reis, além de preservar a memória de um artista cuja obra alcançou reconhecimento nacional e internacional, o novo equipamento cultural nasce com a missão de promover exposições, ações educativas, formação artística e atividades de difusão cultural.
A proposta é ampliar o acesso da população às artes visuais e fortalecer o turismo cultural na região.
“Ao incorporar sua história às ações culturais e pedagógicas do município, estaremos criando oportunidades para que crianças, jovens e adultos conheçam sua obra, compreendam sua importância para a arte brasileira e reconheçam o valor dos talentos surgidos em nosso território”, afirma.
Firmado no tempo
Nascido na Ilha de Itaparica, Agnaldo Manoel dos Santos construiu uma trajetória singular na arte brasileira. Escultor autodidata, teve seus primeiros contatos com a escultura enquanto trabalhava como vigia no ateliê do artista Mário Cravo Júnior, em Salvador.
Nesse ambiente, desenvolveu uma produção marcada por temas ligados à religiosidade, à maternidade, às relações familiares e ao cotidiano popular.
Embora tenha morrido precocemente, aos 35 anos, em 1962, Agnaldo deixou uma obra que ultrapassou fronteiras e conquistou reconhecimento nacional e internacional.
Durante sua trajetória, circulou entre importantes nomes da cultura brasileira, como Lina Bo Bardi, Carybé, Jorge Amado e Pierre Verger, inserindo-se de forma ativa no cenário da arte moderna baiana de então.

A história de Agnaldo chamou a atenção do artista plástico, professor da rede pública e pesquisador Fernando Bernardes, por volta de 2008. Ele conta que o interesse pelo escultor surgiu ainda durante a graduação, a partir de uma atividade proposta por um professor de História da Arte.
Na época, os estudantes deveriam pesquisar um artista brasileiro e relacionar sua produção a determinado contexto histórico ou cultural. Foi durante esse processo que Fernando teve o primeiro contato com a obra do escultor itaparicano.
“Eu descobri Agnaldo por um acidente. Joguei o termo 'arte afro-brasileira' no Google e me vieram as esculturas dele, mas sem eu saber quem era, sem eu ter dimensão do território e tudo mais”, conta.
O fato de Agnaldo ser natural de Vera Cruz, município da Ilha de Itaparica, despertou ainda mais o interesse de Fernando pelo artista. À época, o pesquisador já mantinha uma relação próxima com o território e, anos mais tarde, passaria a viver na ilha.
Ao longo dos anos, a investigação transformou-se em um trabalho de resgate histórico e afetivo, aproximando o pesquisador de familiares, amigos e moradores que conviveram com o escultor.
A curiosidade inicial se transformou em um longo percurso de pesquisa. Interessado pelas relações entre arte negra, ancestralidade e cultura afro-brasileira, Fernando aprofundou seus estudos sobre a vida e a produção de Agnaldo, tema que mais tarde se tornaria objeto de sua especialização em Arte-Educação pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e, posteriormente, daria origem ao livro Agnaldo Manoel dos Santos: uma ilha que ganhou o mundo (Dialética, 60 páginas, R$ 59,90).
A obra pode ser adquirida no site da editora Dialética ou diretamente com o autor.
Mais que artista popular
Para Bernardes,a produção do escultor vai além das classificações que frequentemente marcaram a leitura de artistas negros no Brasil, como o rótulo de ‘artista popular’ ou ‘primitivo’. “Eu observei que Agnaldo, tal qual outros artistas na época, vinha sendo exposto muito mais como um artista popular”, afirma.
Segundo ele, essa interpretação acabou obscurecendo a complexidade de sua produção artística. “O que me chamou a atenção depois é que Agnaldo teve influência da arte africana, teve influência da arte popular, teve influência da arte sacra brasileira e do próprio povo brasileiro”, destaca Bernardes.
O livro de Fernando procura justamente reposicionar Agnaldo no debate sobre a arte brasileira, ao mesmo tempo em que resgata memórias familiares e aspectos pouco conhecidos de sua trajetória. “Não só me interessei por escrever sobre a obra ou sobre a trajetória, mas para mim o aspecto familiar dentro dessa obra é muito relevante”, explica o pesquisador.
Durante o processo de investigação, Bernardes também buscou compreender o contexto social em que o artista viveu. Segundo ele, antes de ser reconhecido por suas esculturas, Agnaldo enfrentou dificuldades comuns a muitos trabalhadores baianos do período.
“Ele não foi para Salvador na época buscar viver de arte. Ele foi para Salvador viver de lenhador, viver de engraxate, viver de carvoeiro”, relata. O encontro com Mario Cravo aconteceria somente depois, abrindo caminhos para que sua produção artística ganhasse visibilidade. “Ele já era artista. Faltava oportunidade”, resume.
Preservação da memória
Na avaliação de Fernando Bernardes, a inauguração da Galeria Agnaldo Manoel dos Santos representa um passo importante para evitar que a trajetória do escultor permaneça restrita aos acervos e às instituições culturais.
“Dentro do sistema da arte baiana, ele estava esquecido”, afirma. “Ele estava reconhecido na instituição, mas não estava sendo visto”, nota.
Para o pesquisador, a criação do espaço marca um momento importante para a circulação da obra e da história do artista em seu território de origem. “Foi um avanço muito grande o fato de criar essa galeria. Isso vai trazer Agnaldo para a modernidade”, avalia.
A iniciativa também integra um movimento mais amplo de fortalecimento das políticas culturais do município. Segundo André, a galeria foi criada a partir da compreensão de que a cultura deve ocupar um papel estratégico no desenvolvimento social, educacional e turístico da cidade.
A expectativa é que o espaço mantenha uma programação contínua, reunindo exposições temporárias, oficinas, palestras, intercâmbios culturais e ações voltadas à formação artística.

Para Fernando, o reconhecimento institucional de Agnaldo em sua terra natal possui um significado que vai além da homenagem a um artista. "Quando eu falo uma ilha que ganhou o mundo, não penso apenas na ilha como território, eu penso na ilha e todo o povo”, diz.
Ao revisitar a trajetória do escultor, o pesquisador vê na história de Agnaldo uma referência para as novas gerações da Ilha de Itaparica.
“Eu trago essa mensagem, inclusive, para a nova juventude, que eles são capazes de conquistar novos horizontes, de ganhar outros caminhos também”, exorta.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


