Busca interna do iBahia
HOME > CULTURA
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

CÊNICAS

Sem uma única fala, espetáculo baiano desafia o teatro tradicional em Salvador

Espetáculo é releitura da peça do escritor austríaco, Nobel de literatura, Peter Handke

Eugênio Afonso
Por Eugênio Afonso

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves
Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves - Foto: Sora Maia | Divulgação

Sem nenhuma fala em cena, o espetáculo inédito A hora em que não sabíamos nada da gente está em cartaz no Teatro Martim Gonçalves até 31 de maio, sempre de quinta-feira a sábado, e integra as comemorações dos 70 anos da Escola de Teatro da Ufba e os 80 anos da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Para celebrar as datas, o diretor baiano George Mascarenhas optou por montar uma releitura da peça do escritor austríaco, Nobel de literatura, Peter Handke, 83, sem texto verbal e com a proposta de ser uma experiência cênica sem narrativa linear e personagens fixos.

Tudo sobre Cultura em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Segundo Mascarenhas, o propósito do espetáculo é contar histórias de pessoas e passagens muito diferentes. “Quando a gente começou a montagem, o meu desejo nunca foi traduzir para a cena as indicações do dramaturgo, mas construir essas imagens de modo que nós, aqui de Salvador, enfim, da Bahia, também, pudéssemos reconhecer elementos da nossa cidade, da nossa cara, do nosso povo”.

Com assistência de direção e preparação de elenco de Deborah Moreira, cerca de 20 atores – estudantes, professores, artistas convidados e integrantes da comunidade externa – transformam o palco em um território de travessias, imagens e múltiplas histórias possíveis acontecendo ao mesmo tempo.

“O espetáculo está muito conectado com a contemporaneidade e traz o desejo forte de muitas conexões com o público. Quer tocar, provocar, estimular o pensamento, as sensações, as emoções. Espero que o espectador, com sua subjetividade, vá completando as narrativas”, pontua Deborah.

Tudo se passa em uma praça, onde figuras surgem, desaparecem e deixam rastros de histórias fragmentadas. Um verdadeiro espaço de atravessamentos que ganha contornos contemporâneos com referências da Bahia e de Salvador, aproximando a obra de um repertório local.

“A praça é um espaço intensamente povoado por histórias, encontros, desencontros, pela imaginação, pelas conversas. Ela é povoada por pessoas que a gente poderia reconhecer na rua, mas também por seres da nossa imaginação. É um espaço que dá para ter um contato profundo com as narrativas, o humor, a emoção, as trajetórias de passagem de tantas pessoas”, detalha George.

Leia Também:

Corpo encena

Ancorada na mímica corporal, linguagem que coloca o corpo como eixo central da construção cênica, a montagem aposta na potência do gesto, da fisicalidade e da composição visual como elementos principais da narrativa.

George conta que, durante o processo de direção, privilegiou, em primeira instância, o ator e sua inteireza corporal. “Sua presença, emoção, gesto, olhar. E com isso, também os seus imaginários, porque todas as imagens da peça foram sendo construídas justamente a partir das histórias, vivências, memórias desses atores e suas experiências em praças diversas”.

O texto quer valorizar o corpo como linguagem e propõe uma experiência estética que transita entre o poético, o cotidiano, o absurdo e o sensível. A ideia é dialogar com o tempo presente, marcado pelo excesso de informação e pela fragmentação das relações. A partir daí, o espetáculo oferece uma experiência de contemplação e reconstrução do olhar.

Recheada de seres desiguais, a peça aborda inúmeras histórias pessoais. Adrián Araújo, 25, um dos atores em cena, conta que seu personagem, por exemplo, é “um monte de coisas, um amontoado de memórias, é o passar do tempo através das estações do ano. É simplesmente a vida acontecendo no cotidiano”.

Ele diz ainda que consegue, sem falas, passar para o público as intenções do personagem acessando o estado de cada intenção, cada momento. “Fazendo uma espécie de garimpo até encontrar a potência de cada ação para conseguir utilizar da melhor forma possível. O público vai se sentir conectado ao que está acontecendo, ainda que não haja falas diretamente”.

Já para Letícia Conde, 31, que também está no elenco, os personagens que interpreta são muitos.

“Faço a bombeira, a criança, uma pessoa que brinca, alguém bem triste. A ideia são as micronarrativas criadas através dos muitos personagens que passam na praça”.

Encenar um espetáculo em que não há texto para ser dito não incomoda Letícia, já que, para ela, a primeira linguagem de uma atriz não é a fala. “A gente usa o corpo como instrumento para falar através de imagens. O nosso corpo é muito expressivo. Então, a gente passa as intenções do personagem através do estado que a gente coloca em cena. Apesar de não ter fala, tem muito som na peça”.

O baile

Por fim, Mascarenhas afirma que não encontra tantas semelhanças entre a peça e o filme O Baile (1983), do italiano Ettore Scola (1931-2016), que também trabalha com a corporeidade e sem diálogo falado.

“Com certeza, alguns pontos de contato a gente pode estabelecer. Tanto no filme quanto na peça, a cena acontece num espaço específico. A praça, no caso da peça, e o salão de baile no caso do longa”, exemplifica o diretor.

“A segunda característica que talvez pudesse ser um ponto de aproximação é o fato de que em ambos a relação entre os personagens acontece pela atitude corporal, pelo gesto, pela emoção e sem o uso da palavra falada”, arremata.

Mas George lembra que isso também é uma característica muito presente em diversas obras, tanto na dramaturgia teatral quanto na cinematográfica. “E um terceiro ponto que talvez seja um ponto de distinção é que enquanto em O Baile a gente consegue acompanhar a trajetória de alguns personagens, no caso da peça acompanhamos fragmentos de personagens muito diversos que, inclusive, não se repetem”, conclui o diretor.

A hora em que não sabíamos nada da gente é definida como uma peça em que a história não está pronta, o que existe são passagens, imagens e presenças que convidam o público a construir seus próprios sentidos.

Também fazem parte da equipe, Zuarte Jr., responsável pelo figurino, Eduardo Tudella, na cenografia, e Luciano Salvador Bahia, na direção musical, dentre outros profissionais do teatro baiano.

A hora em que não sabíamos nada da gente / até 31 de maio - De quinta a sábado às 20h e domingo às 19h / Teatro Martim Gonçalves - Escola de Teatro da UFBA / Gratuito

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Tags:

teatro baiano

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas

A tarde play
Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves
Play

Baiana, filha de Jimmy Cliff e estrela em Hollywood: a vida de Nabiyah Be

Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves
Play

Cultura afro ganha destaque com Zebrinha na Bienal Sesc de Dança

Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves
Play

É possível tocar em meteoritos na Bahia! Saiba onde viver experiência única

Montagem inédita transforma silêncio em protagonista no Teatro Martim Gonçalves
Play

Salvador ganha novo espaço para grandes eventos com a inauguração da ARENA A TARDE

x