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Tragédia em Gaza: peça em Salvador questiona silêncio no genocídio

Espetáculo do grupo TECA denuncia o genocídio palestino e propõe reflexão sobre a desumanização, unindo depoimentos reais e criação coletiva

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Espetáculo Cartas para Gaza propõe um novo olhar para a tragédia
Espetáculo Cartas para Gaza propõe um novo olhar para a tragédia - Foto: Divulgação

Em meio aos números de mortos, feridos e desaparecidos que dominam as manchetes sobre Gaza, o espetáculo Cartas para Gaza propõe um outro olhar: o das histórias e rostos por trás das estatísticas. A peça estreia nesta sexta-feira, 7, no Teatro Molière, na Ladeira da Barra, e segue em cartaz todas as sextas-feiras do mês, sempre às 19h30.

Com direção de Sérgio Farias e texto de Camilo Fróes, a montagem é uma realização do Grupo TECA Teatro, em parceria com o Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade (GIPE-CIT), da Escola de Teatro da UFBA, integrando o projeto “1, 2, 3, Salve Todos!”.

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O espetáculo combina documentos e depoimentos reais a cenas criadas a partir de pesquisas e percepções sobre os acontecimentos recentes na Palestina. O objetivo do espetáculo é denunciar, informar e sensibilizar o público diante da destruição da infraestrutura local, do genocídio em curso e do sofrimento do povo palestino.

“Vamos apresentar uma peça de teatro para o público, mas também abordar um tema que é considerado, não só por nós do elenco e do grupo, mas por muitas pessoas, como algo urgente: o genocídio na Faixa de Gaza, promovido pelo Estado de Israel”, afirma o diretor Sérgio Farias.

A dramaturgia de Cartas de Gaza se constrói sobre um mosaico de referências. O texto parte do artigo “As Arabs See the Jews” (“Como os árabes veem os judeus”, em tradução livre), escrito em 1947 pelo rei Abdullah, da Jordânia; do livro Sumud em tempos de genocídio, publicado em 2024 pela psiquiatra palestina Samah Jabr; e de trechos dos Monólogos de Gaza, cartas escritas em 2010 por adolescentes do Ashtar Theatre Palestine. Somam-se ainda ao material o noticiário atual e relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU).

O resultado é uma colagem de cenas e reflexões sobre o arcabouço ideológico que sustenta a violência e a desumanização vividas pelo povo palestino. Segundo o diretor Sérgio Farias, a inspiração inicial do espetáculo veio justamente dos depoimentos desses jovens palestinos do Ashtar Theatre.

“Em 2009, houve uma grande ofensiva de Israel sobre Gaza, sob o pretexto de combater os chamados terroristas, termo usado para qualquer pessoa que enfrenta o domínio sionista. No final de 2008 e início de 2009, uma série de bombardeios devastou o território, e os adolescentes que participavam das oficinas de teatro passaram a relatar suas experiências durante esses ataques”, explica.

As entrevistas com os estudantes, jovens de 14 a 16 anos, deram origem a relatos comoventes sobre “bombardeios caindo como uma chuva”, “a noite com suas inquietações” e “tudo em Gaza chora”. Essas cartas aparecem na montagem intercaladas com cenas que tratam de outros aspectos do conflito no Oriente Médio.

A composição do texto do espetáculo ficou a cargo de Camilo Fróes, responsável por criar a linha condutora que amarra os diferentes materiais. Além de ator, é graduado em Ciências Sociais na Ufba e estudioso das questões pertinentes ao Oriente Médio, especialmente Palestina: “Eu não diria que eu sou um estudioso das questões do Oriente Médio, eu diria que eu sou um viciado nessas questões”.

Camilo explica que possui muitos materiais sobre o tema, como livros, história em quadrinhos e reportagens. “Não consigo ficar sem ler sobre essas coisas, então esse conhecimento acumulado que me dá a base, me dá a vontade de querer participar de projetos assim”, afirma.

Segundo ele, compreender o presente exige um mergulho nas ideologias que o sustentam. “Um genocídio só é possível se há uma ideologia que o defende, e dentro dessa ideologia está a desumanização”, afirma Fróes.

“Esse processo está presente no governo Netanyahu e em outras experiências históricas. Dividimos o espetáculo em cinco eixos: ideologia, raça, ocupação, genocídio e crime de guerra. Em cada um deles, refletimos sobre como esses conceitos se articulam para tornar possível a destruição e, ao mesmo tempo, a passividade do resto do mundo diante disso”, completa.

Criação coletiva

Após a definição do material base, o GIPE-CIT, representado por Farias, e o Grupo TECA ofereceram uma oficina de teatro com 60 participantes, realizada entre junho e julho deste ano na Ufba.

“Depois da oficina, quem desejou seguir no projeto participou de leituras, seminários e experimentações cênicas. O texto foi sendo escrito e testado com improvisações e discussões, até ser finalizado entre agosto e setembro”, conta Farias.

Os ensaios começaram em outubro, com a formação do elenco de 25 artistas, muitos vindos dessa oficina. “Eles passaram por todo o processo: da pesquisa à criação das cenas. Foi um caminho de estudo, escuta e construção coletiva até chegar à estreia em novembro”, completa o diretor.

Dentre os 25 artistas em cena, está o estudante de Psicologia Roberto Clovis, que também fez parte da oficina de teatro ministrada por Sérgio. “Participei da oficina e, ao final, foi apresentada a proposta da peça. Perguntaram quem gostaria de continuar, e eu fui um desses. A partir daí, começamos o processo de criação de Cartas de Gaza”, conta Roberto.

Roberto, que interpreta um rei no espetáculo, destaca o papel fundamental da preparação conduzida por Farias para a construção do personagem e do elenco como um todo. “Ele nos preparou para atuar de modo geral. É muito bom nesse sentido de preparação cênica. Quando a peça começou a tomar forma, o trabalho dele, junto com o roteirista, foi essencial para que nos sentíssemos prontos para esses papéis”, afirma.

Roberto reconhece a grande responsabilidade de representar pessoas reais, que vivem uma situação delicada. “Fizemos leituras de cartas escritas por quem viveu esse momento, assistimos a vídeos sobre o que está acontecendo. Tudo isso ajudou a despertar mais empatia pelo público que representamos”, explica.

Para ele, atuar em Cartas de Gaza exige não apenas técnica, mas consciência e sensibilidade. “Existe uma responsabilidade enorme em representar pessoas que passam por uma situação tão difícil. Precisamos estar atentos e ser o mais empáticos possível ao falar sobre esse tema”, conclui.

O poder da arte

Para Sérgio Farias e Camilo Fróes, Cartas de Gaza reafirma a potência transformadora da arte. Ambos acreditam que o teatro, ao provocar emoção e reflexão, pode contribuir significativamente para a conscientização sobre questões políticas, culturais e humanas.

“A experiência estética acontece a partir do contato, desse toque entre o espectador e a obra. É daí que nasce a imaginação, as emoções e o prazer estético que fica marcado na história de quem vive essa experiência”, explica Sérgio.

“Esse prazer não atua apenas no campo emocional, mas também no cognitivo, quando a pessoa compreende e reflete sobre a obra. Todo processo artístico que estabelece uma relação com o público é, também, um processo educativo”, acrescenta.

Camilo destaca que a arte tem o poder de romper o escudo das ideologias e restituir humanidade aos corpos e histórias desumanizados. “A arte tem o poder de tornar as pessoas humanas e de transmitir sentimentos para além do racional. Ela encontra brechas no escudo que a ideologia cria”, afirma.

Para ele, ao falar da Palestina, a obra fala também do Brasil e de outras geografias marcadas pela violência e pela desumanização.

“Quando a gente fala de lá, fala de cá também. O teatro quase sempre fala para a humanidade inteira. A arte pode devolver a humanidade às pessoas sobre as quais estamos falando, e talvez essa seja a coisa mais importante que ela pode fazer”, conclui Camilo.

Serviços

➡️ Cartas de Gaza

▪️Data: Às sextas-feiras de novembro (7, 14, 21 e 28),

▪️Horário: 19h30

▪️Local: Teatro Molière, Aliança Francesa

▪️Ingressos: R$ 40 e R$ 20

▪️Vendas: na bilheteria do teatro a partir de uma hora antes das apresentações e no Sympla

▪️Classificação indicativa: 14 anos

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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