CULTURA
Websérie inédita eterniza a trajetória de mestres da cultura da Bahia
Saberes do Recôncavo Baiano ganham as telas em novo documentário sobre heróis populares


A cultura popular da Bahia, construída nos terreiros, nas rodas de samba, comunidades pesqueiras, oficinas de artesãos e nas tradições transmitidas de geração em geração, ganha um novo registro audiovisual com a websérie Heróis e Heroínas Populares – A cultura de um povo.
A produção, que homenageia 15 mestres e mestras responsáveis por manter vivos saberes ancestrais será lançada amanhã, às 18h, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), durante a abertura da 8ª edição do ‘Rede Capoeira’, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes.
Idealizada por Mestre Sabiá e realizada pelo Projeto Mandinga, por meio do Ministério da Cultura, a série reúne 15 episódios dedicados a personagens reconhecidos por sua atuação em manifestações como capoeira, samba de roda, artesanato, construção de berimbaus, renda de bilro e outras expressões da cultura popular.
As gravações percorreram Salvador, a Ilha de Itaparica e municípios do Recôncavo Baiano, registrando histórias que, em muitos casos, nunca haviam sido documentadas em audiovisual.
Os episódios apresentam personagens que se tornaram referências em diferentes expressões da cultura popular baiana. Na capoeira, são homenageados Mestre Bigo e Mestre Nô, de Itaparica; Mestre Felipe e Mestre Carcará, de Santo Amaro; e Mestre Fernando, de Saubara.
O samba de roda é representado por Dona Dalva, de Cachoeira; Dona Maninha e Mestre Ecinho, de Acupe; Mestre Aurino, de Maracangalha; Mestre Domingos Preto, de Santiago do Iguape; e Dona Rita da Barquinha, de Bom Jesus dos Pobres, distrito de Saubara.
A série também destaca Dona Lindaura, juíza perpétua da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, e Teresa, das Ganhadeiras de Itapuã, além da rendeira Maria Rendeira, de Saubara, e de Mestre Olavo, reconhecido pela fabricação artesanal de berimbaus em Salvador.
Mais do que apresentar trajetórias individuais, a produção busca preservar conhecimentos tradicionalmente transmitidos pela oralidade e ampliar o acesso a esse patrimônio cultural.
Todos os episódios contam com recursos de acessibilidade, incluindo legendas, janela de Libras e audiodescrição textual, e ficarão disponíveis no canal do YouTube @ProjetoMandinga.
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Memória preservada
Segundo Mestre Sabiá, idealizador da websérie e criador do Rede Capoeira, a iniciativa surgiu da preocupação em registrar conhecimentos que, por muito tempo, circularam apenas pela tradição oral.
"A websérie nasceu da necessidade de registrar, valorizar e manter viva a nossa memória. Como muitos saberes das culturas afrodescendentes são transmitidos pela oralidade, o projeto busca preservar essas histórias e legados, garantindo que cheguem às novas gerações", afirma Sabiá.

O recorte territorial da produção também foi uma escolha consciente. Os 15 homenageados foram selecionados a partir da riqueza cultural do Recôncavo Baiano, embora o projeto tenha a intenção de alcançar outros territórios em futuras edições.
Durante as gravações, o que mais chamou a atenção do idealizador foi a força de quem mantém essas tradições apesar das dificuldades. "O que mais me marcou foi a resiliência desses mestres e mestras, que, mesmo diante de tantas dificuldades, seguem mantendo vivas suas tradições e construindo um legado para as futuras gerações", destaca.
Para ele, a websérie representa também um desdobramento dos oito anos de atuação do Rede Capoeira, um projeto cultural que utiliza a capoeira como ponto de encontro entre diferentes manifestações da cultura afro-brasileira.
Ao longo de oito edições, a iniciativa consolidou-se como um espaço de valorização da ancestralidade, reunindo rodas de capoeira, feira criativa, homenagens a mestres e mestras da cultura popular e debates sobre memória, identidade e o combate ao racismo estrutural.
Histórias geracionais
Entre os homenageados está Teresa Conceição Santos, integrante das Ganhadeiras de Itapuã. Aos 73 anos, ela vê o reconhecimento como motivo de gratidão e destaca o simbolismo de representar tantas mulheres que preservam essa tradição.
Sua trajetória no grupo começou em 2004 quando aceitou o convite para participar da formação das Ganhadeiras de Itapuã. A decisão veio de uma relação construída desde a infância com o samba.
"Uma das coisas que eu mais gosto de fazer na minha vida, que está em primeiro lugar, é o samba. Eu nasci dentro do samba. A minha família toda é do samba. Eu cresci vendo minha mãe fazendo samba com meus tios, com minhas tias", conta a ganhadeira.
Para Teresa, manter viva a cultura popular também significa aproximar crianças e jovens dessas manifestações. Ela lembra que incentivou netas e, atualmente, uma bisneta a participar das apresentações do grupo.
“Minha bisneta Helena entrou com 6 anos, e ela ama! Você precisa ver ela sambando. Ela samba, ninguém ensinou ela a sambar, mas ela samba direitinho. A cultura não pode morrer de jeito nenhum", resume Teresa.
Patrimônio do Recôncavo
Outra personagem da série é Rita da Barquinha, responsável por preservar uma manifestação tradicional de Bom Jesus dos Pobres. Ela acredita que participar da produção amplia a visibilidade da cultura local e fortalece o reconhecimento de seu trabalho.
"Eu sempre digo que o samba veio desde o ventre da minha mãe. E esse grupo da Barquinha é uma cultura nossa, uma manifestação que os antigos faziam", observa Rita.
Segundo ela, a Barquinha era realizada na noite de 31 de dezembro, quando moradores percorriam as ruas sambando e carregando uma embarcação de papelão. Durante o cortejo, a comunidade depositava presentes, como sabonetes e perfumes, na barca, que era levada à meia-noite em agradecimento às águas e em um pedido por fartura, proteção aos pescadores e prosperidade para o ano seguinte.
Com o passar do tempo, a tradição foi perdendo força, o que motivou Rita a resgatá-la. "Eu resgatei para não deixar morrer, e hoje eu faço parte, criei um grupo e continuo, com muito orgulho, a levar a cultura do meu Recôncavo, da minha cidade pra onde for", afirma.
Assim, a série registra trajetórias que ajudam a compreender a formação cultural da Bahia por meio de personagens que mantêm vivas manifestações transmitidas entre gerações.
Para Mestre Sabiá, o principal resultado será ampliar o reconhecimento desses guardiões da cultura popular. "Espero que o público leve aprendizado, inspiração e reflexão, reconhecendo a importância desses mestres e mestras e compreendendo o valor de preservar e transmitir seus saberes às futuras gerações".
Lançamento da websérie Heróis e Heroínas Populares / 6 de agosto / 18h / Museu de Arte Moderna (MAM)
*Sob supervisão do editor Eugênio Afonso


