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FLORESTA COMO NEGÓCIO

Cerveja, cacau e arte: como indígenas baianos transformam a floresta em renda coletiva

Saberes milenares movimentam a economia sustentável no interior da Bahia

Bianca Carneiro
Por
Otto Payayá produz a Kauin Etê, uma cerveja artesanal indígena feita com insumos nativos da Chapada Diamantina
Otto Payayá produz a Kauin Etê, uma cerveja artesanal indígena feita com insumos nativos da Chapada Diamantina - Foto: Reprodução | GOVBA

Atribuída ao químico Antoine Lavoisier, a famosa frase "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" sintetiza a Lei da Conservação da Massa, um pilares do conhecimento humano. Mas muito antes do teórico francês decretar isso no século XVII, já existia um grupo que entendia essa premissa muito bem: os povos indígenas. Não como teoria científica, mas como modo de vida. Nas aldeias espalhadas pelo interior da Bahia, a floresta não é apenas cenário e moradia, é matéria-prima, farmácia, despensa e geração de renda. É bioeconomia praticada há séculos, muito antes de ganhar esse nome. E com uma diferença fundamental em relação ao capitalismo convencional: o que a terra produz não vai para o bolso de um só. O lucro volta não só para a comunidade inteira, mas também para a própria terra.

Caminhando pelas matas da Chapada Diamantina, nos arredores da sua aldeia em Cabeceira do Rio, no município de Utinga, Otto Payayá acha de tudo. Mangaba, manga-papo-de-rola, manga-espada, jaca, cambuí, puçá, jabuticaba nativa, jatobá, alecrim-de-vaqueiro, jambuí (o parente baiano do jambu paraense), ervas com efeito estimulante como o paratudo e a clitoriana, além de flores que tingem bebidas de cores que encantam quem bebe. Ao todo, ele e outros indígenas da comunidade já mapearam 75 espécies de ervas medicinais, mais de 45 espécies de sementes nativas e cerca de 25 espécies de frutas da Chapada.

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Com 72 anos de idade, Otto é uma das principais lideranças do povo Payayá, guardiões ancestrais daquela região do sertão baiano. Além de coletar e processar ervas para tinturas, garrafadas, chás, pomadas e bebidas fermentadas, ele é o responsável por um produto que surpreende quem vê pela primeira vez o rótulo: a Kauin Etê, uma cerveja artesanal indígena feita com insumos nativos da Chapada Diamantina.

A natureza 'tá' aí de graça. É como se Deus estivesse dizendo: 'tô' aqui, me use

Otto Payayá - produtor da Kauin Etê

A cerveja não é novidade para os povos originários. O Kauin, bebida fermentada de mandioca consumida pelos povos tupi desde antes da colonização, é o ancestral direto dessas criações. "Todos os povos, de uma forma ou de outra, fazem as suas beberagens. Cada um dá um nome diferente, mas todo mundo faz isso", explica Otto. A Kauin Etê é a versão contemporânea dessa tradição: feita com malte industrial e lúpulo comprado fora, mas temperada com o que a Chapada oferece na estação. Já saiu com sabor de licuri, de cambuí, de jaca e de manga. "No final do gole, você sente um leve sabor da fruta”.

Kauin Etê é vendida entre R$ 15 e R$ 18 a unidade
Kauin Etê é vendida entre R$ 15 e R$ 18 a unidade - Foto: Arquivo pessoal

A cerveja é fabricada na cozinha comunitária da aldeia, hoje equipada com bancadas de inox, mas que por anos funcionou em panelas de alumínio. A Kauin Etê é vendida entre R$ 15 e R$ 18 a unidade, e chega aos consumidores principalmente via eventos regionais. Otto estima que poderia produzir até 250 litros por dia se houvesse demanda e estrutura logística. Em escala máxima, isso representaria até 15 mil garrafinhas por mês. O problema é a burocracia: sem o Serviço de Inspeção Municipal (SIM), ele não pode vender em bares, lojas ou redes de distribuição. "Se eu passar a comprar produto demais, os caras já começam a me mapear. Começo a incomodar alguém", diz.

A renda gerada pela cerveja e pelos demais produtos como geleias de puçá, doces de manga, sachês de ervas medicinais e queijo de cabra artesanal não pertence a nenhum dono individual: ela circula dentro da aldeia como bem coletivo. O que entra paga a conta de água, a conta de luz, o combustível para chegar às feiras e os insumos para a próxima rodada de produção. O excedente é distribuído entre quem participou do processo.

"Isso dá dignidade pra gente. A gente não fica esperando o governo dar cesta básica", afirma Otto. A lógica é deliberada: a comunidade recusou o modelo em que o lucro sobe sozinho para o topo. Aqui, cada garrafa vendida é uma fração de autonomia para cada família da aldeia. E o retorno não é só financeiro: parte dos recursos é reinvestida diretamente na recuperação da calha do rio. Ao coletar sementes em raio de até 200 quilômetros, a aldeia as germina e as replanta na beira dos cursos d’água durante o período chuvoso, devolvendo ao território o que o território deu. Economia sustentável e preservação ambiental, integradas como manda a tradição Payayá: o que se tira da natureza, se devolve.

A cozinha comunitária do povo Payayá
A cozinha comunitária do povo Payayá - Foto: Arquivo pessoal

Sombra que protege e sustenta

A cerca de 350 quilômetros do povo Payayá, o povo Tupinambá de Olivença também retira da terra, ou das árvores, mais precisamente, o lucro que ajuda no sustento da Aldeia do Mamão, no município de Ilhéus, no sul da Bahia. Como explica o cacique Reinildo Jaçanã, de 60 anos, a plantação de cacau cabruca é o carro-chefe da produção local. O sistema cabruca é um método tradicional de cultivo sombreado, em que os pés de cacau crescem sob a proteção das árvores nativas da Mata Atlântica, sem derrubar a floresta.

Reinildo começou a plantar cacau há dez anos, durante o processo de retomada do território indígena. "A gente chegou e não tinha nada plantado. Resolvemos plantar uns pés de cacau para ver se saía bem. O pessoal foi gostando e começou a cultivar", conta. Hoje, aproximadamente 25 das 65 famílias da Aldeia do Mamão estão envolvidas no cultivo. O território Tupinambá de Olivença abrange três municípios: Ilhéus, Una e Buerarema, e é composto por 23 comunidades, cada uma com seu cacique.

O modelo produtivo da Aldeia do Mamão carrega uma tensão familiar a muitas comunidades indígenas: o ideal coletivo convive com a realidade individual. "A gente tenta fazer um trabalho coletivo, mas tem pessoas que não levam a coisa a sério. Aí cada um acaba fazendo o seu", explica Reinildo. Na prática, cada família planta, cuida e colhe sua parte. No ano de 2024, o cacique sozinho colheu 42 arrobas de cacau. Outros produtores da aldeia variaram entre 15 e 30 arrobas. Mas o cacique deixa claro que isso não é o destino, e sim, o ponto de partida. "Para poder crescer, o coletivo é mais vantajoso. É mais alegre para a comunidade", diz. A associação indígena da aldeia, sem fins lucrativos, já funciona como elo entre as famílias: é ela que registra os rótulos, organiza a venda da farinha e do mel, e acessa editais públicos em nome de todos.

Cacique Reinildo (no centro) quer que a Aldeia do Mamão passe a produzir chocolate
Cacique Reinildo (no centro) quer que a Aldeia do Mamão passe a produzir chocolate - Foto: Arquivo pessoal

O projeto de fazer chocolate fino, por exemplo, prevê que a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) integre não um produtor, mas a comunidade inteira. Em 2024, o preço chegou a R$ 800 por arroba, alta histórica provocada por pragas que devastaram lavouras africanas, principais fornecedoras mundiais da commodity. Em 2025, o preço caiu para R$ 220 a R$ 240 por arroba, trazendo incerteza à renda das famílias. "O forte ainda é a cultura do cacau, porque você leva um quilo e vende. Se levar mil quilos, vende do mesmo jeito", pondera Reinildo.

Por enquanto, a aldeia vende o cacau in natura e o mel de cacau, subproduto extraído da polpa branca que envolve as amêndoas, de sabor adocicado e com alto valor de mercado. O mel já tem rótulo registrado pela associação indígena local. O próximo passo é o chocolate: o cacique planeja fazer o curso de cacau fino, desenvolvido em parceria com a Uesc, que já mantém uma fábrica de chocolate e busca integrar comunidades produtoras. "Primeiro a gente precisa tomar o curso, aprender a fazer o cacau fino. Depois a gente começa a agregar mais valor", explica.

Além do cacau, a aldeia produz farinha de mandioca e beiju, processados pelas mulheres da comunidade. Um projeto recente, conquistado via associação, financiou a reforma da casa de farinha, modernizando a infraestrutura de produção. "A gente precisa de políticas públicas para melhorar. Precisamos de tecnologia, de máquinas para arar a terra. E as estradas estão precárias: quando chove muito, os carros não conseguem sair e a gente perde a janela para vender", aponta Reinildo.

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A arte que brota da terra

Para além do alimento, a terra e as árvores também emprestam a sua beleza para o artesanato, carro-chefe da aldeia Kariri-Xocó, localizada em Entre Rios, no litoral norte baiano. Lá, dez famílias do povo Kariri-Xocó vivem há nove anos, mantendo viva uma tradição que aprenderam desde crianças na aldeia mãe, em Alagoas. O cacique Paruanã, de 48 anos, é o guardião dessa produção.

Os homens fabricam cocares, arcos e flechas, maracás e colares. As mulheres dominam a cerâmica e também produzem bijuterias com sementes nativas. O valor do artesanato está intrinsecamente ligado ao tempo, a métrica mais valiosa do negócio: um tradicional cocar de penas leva de seis a oito meses apenas para juntar as penas, coletadas de aves que vivem na região ou recebidas de parentes da Amazônia. Depois, mais um dia inteiro de trabalho manual para montar a peça, que reúne cerca de 83 penas.

"A gente não mata mais os pássaros. A gente vai juntando as penas que caem", explica o cacique Paruanã. O preço varia conforme a raridade das penas: um cocar de penas de carcará e de garça pode custar entre R$ 500 e R$ 600. Feito com penas de arara vindas da Amazônia, o valor sobe para R$ 1.000 a R$ 1.500.

"O preço também depende da colheita. Nós temos uns cocares que vendemos bem baratinho. Por quê? Porque depende da colheita. No inverno, por exemplo, tem bastante e caem muitas penas. Quando os indígenas vão plantar arroz, os pássaros vêm comer e deixam muita pena. No inverno, a gente tem bastante pena. Aí a gente passa uma ou duas semanas juntando para fazer quatro ou cinco cocares. Depende da safra e do tempo. Tem cocar que é mais caro e tem cocar que é mais barato. Quando temos muita pena, o preço é um. Agora, no verão, aparece pouca pena, aí a gente aumenta o preço", completa o líder indígena.

O maracá, instrumento feito de coco verde, demora de dois a três dias para ser finalizado. É preciso retirar a casca, esvaziar a água, remover toda a polpa e então deixá-la absorver a "energia do sol".

Maracá, instrumento feito de coco verde, demora de dois a três dias para ser finalizado
Maracá, instrumento feito de coco verde, demora de dois a três dias para ser finalizado - Foto: Arquivo pessoal

As peças chegam a clientes em São Paulo, onde há compradores ligados ao universo do xamanismo que reconhecem o valor do artesanato original. Já houve envio até para a França, e o cacique ri ao contar que reza antes de cada postagem para o cocar atravessar a fronteira sem ser barrado pela alfândega. Em meses de movimento intenso, como quando um grupo de turistas visita a aldeia, a renda coletiva pode superar R$ 10.000. Em meses fracos, oscila entre R$ 2.000 e R$ 3.000.

O mecanismo de distribuição é simples e eficaz com a ajuda da tecnologia: as peças são anunciadas pelas redes sociais e negociadas em plataformas como Instagram e Whatsapp. Cada artesão vende o que fez, mas o lucro não fica guardado para um só.

A gente vende, e se não tiver a mistura, que é a proteína, compra e traz pro coletivo

Cacique Paruanã - da aldeia Kariri-Xocó

A carne, o feijão, o material de construção, tudo que a aldeia não produz passa pelo mesmo caminho: do bolso individual para a mesa compartilhada. É uma economia circular que dispensa banco, mas garante que nenhuma família fique sem comer quando o mês fecha no negativo.

A competição com produtos industrializados vendidos em lojas de artesanato em Salvador é um dos maiores obstáculos. "Tem loja que vende coisa parecida muito mais barata. Mas a nossa peça passa três, quatro anos, a do outro não chega a seis meses. Porque a nossa tem amor, tem energia", retruca o cacique. Outro entrave burocrático atinge diretamente o artesanato de penas: a exigência de licença de cativeiro pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) impede a comercialização de peças em lojas físicas. "A gente vem da floresta. Como é que a gente vai ter cativeiro?", questiona.

Floresta em pé como modelo de negócio

O que une a cerveja de jaca de Otto, o cacau cabruca de Reinildo e o cocar de penas de Paruanã vai além da origem indígena: todos são exemplos concretos de bioeconomia e economia sustentável em que o lucro e a preservação ambiental não são forças opostas, e sim, a mesma.

Nos três casos, a produção depende da floresta em pé, da biodiversidade preservada e do conhecimento ancestral sobre o manejo dos recursos naturais. E o benefício gerado não se concentra: ele retorna para a comunidade como um todo, na forma de alimento compartilhado, infraestrutura coletiva e território cuidado. É um modelo que inverte a lógica extrativista convencional: quanto mais saudável a floresta, mais próspera a aldeia, e quanto mais próspera a aldeia, mais recursos ela tem para cuidar da floresta.

Otto é enfático sobre o impacto ambiental da sua coleta: "O que eu tiro da natureza é tão insignificante, que é um grão de areia. Se eu fosse lá e tirasse grandes quantidades, não. Eu vou lá e tiro nada”. Enquanto recolhe ervas e frutas para seus produtos, a comunidade Payayá simultaneamente refloresta as margens do rio com sementes coletadas na própria Chapada. Uma operação que é, ao mesmo tempo, extrativismo sustentável e restauração ecológica.

No caso do povo Tupinambá de Olivença, o cacique Reinildo vê no sistema cabruca uma ferramenta de reflorestamento. Neste método, o cultivo do cacau cresce protegido sob a sombra de grandes árvores nativas. A cobertura das copas mais altas filtra a luz solar, regula a temperatura e retém a umidade do solo, criando o clima ideal para o cacaueiro, e formando um verdadeiro corredor ecológico, já que ao manter a estrutura vertical da floresta, o sistema garante refúgio, trânsito seguro e alimento para pássaros, mamíferos, insetos e polinizadores endêmicos. A lógica é inversa à do agronegócio convencional: a árvore nativa não é obstáculo para a lavoura, mas condição para ela.

O cacau cabruca incentiva que você não desmate. Ele valoriza o território, os pássaros, os bichos. Tudo faz parte desse manejo. E a gente ainda fala para a comunidade: não desmate as nascentes dos rios

Cacique Reinildo - do povo Tupinambá, da Aldeia do Mamão

Para o povo Kariri-Xocó, a relação com a natureza é indissociável do processo produtivo e espiritual. As sementes do meiru, por exemplo, enquanto alimentam os colares, fortalecem o solo. As penas, coletadas de aves vivas, registram a biodiversidade da região. Cada peça é uma espécie de inventário da mata ao redor da aldeia, e claro, também alimentam o espírito de cada indígena que as usam durante os seus tradicionais rituais.

"Não se pode prejudicar o meio ambiente. Esse material que a gente tira, por exemplo, nós temos uma semente que se chama meiru. Ela dá em abundância; quanto mais você a planta, mais ela dá. E aí, a gente vai tirando só o cachinho dela, e ela fica. Porque ali ela vai fortalecendo a terra. É uma planta que fortalece o solo. As folhas dela caem e, às vezes, quando a gente não pega a semente, ela cai e já nasce. Então não prejudica o meio ambiente, porque são coisas naturais, diferente desse negócio de tinta que tem na cidade", afirma o cacique Paruanã.

Muros invisíveis

Se os recursos naturais estão disponíveis e o saber fazer é centenário, por que o empreendedorismo indígena ainda enfrenta tantas barreiras? A resposta se repete nas três aldeias: as regras do Estado foram desenhadas para outros modelos de produção.

O caso mais emblemático é o do SIM (Serviço de Inspeção Municipal). Para vender alimentos processados legalmente, o produtor precisa do selo, que exige adequações físicas e sanitárias dos espaços de produção. Ocorre que as exigências foram pensadas para indústrias, não para cozinhas comunitárias. "A cozinha tá toda no azulejo, toda no inox. Mas o processo de legalização foi engavetado. A Câmara de Vereadores não aprovou", conta Otto. Resultado: a Kauin Etê é vendida na informalidade, sem poder chegar a bares, supermercados ou eventos com CNPJ, apenas em feiras indígenas, onde precisa ser descrita como "bebida indígena" e não como cerveja.

A logística é outro nó. Aldeias localizadas na Chapada Diamantina ou no Extremo Sul da Bahia dependem de veículos próprios, muitas vezes, inadequados, para escoar a produção até os centros consumidores. "Aqui tem uns carros que atendem a comunidade, tudo velho, tudo acabado. A Bahia teve 80 eventos no ano passado e a gente não conseguiu participar nem de 20", lamenta Otto.

Reinildo aponta para o mesmo problema: "Quando chove muito, as estradas ficam intransitáveis e a gente perde a janela para vender o cacau”. A concorrência desleal com artesanato industrializado, a taxação na exportação de peças de penas e a falta de linhas de crédito específicas completam o quadro. No caso do povo Kariri-Xocó, a exigência de licença de cativeiro do Ibama para comercializar peças com penas de aves chegou a travar encomendas por meses.

Otto Payayá fala sobre a produção da cerveja Kauin Etê:

Iniciativas promissoras, mas ainda isoladas

O peso desses desafios se agrava quando confrontado com a magnitude demográfica e territorial das comunidades. Dados do último Censo do IBGE mostram que o Brasil tem 1.693.535 pessoas indígenas, distribuídas entre 391 povos ou etnias. A Bahia ocupa a segunda posição no ranking nacional de população indígena: 191.950 pessoas se autodeclararam indígenas no estado. Mais de 90% vivem fora de territórios oficialmente reconhecidos, e o estado registra 138 localidades indígenas fora de terras tradicionais, cerca de 68,3% do total nacional. São dados que revelam, ao mesmo tempo, a presença expressiva dos povos originários na Bahia e a precariedade dos direitos territoriais que sustentam suas economias.

O Sebrae reconhece os avanços e os limites do cenário. Em nota à reportagem, a entidade avaliou que "o cenário atual para o empreendedorismo indígena apresenta avanços no reconhecimento do valor da identidade cultural, dos saberes ancestrais e da produção tradicional como diferenciais". Ao mesmo tempo, reconheceu que a produção indígena, por sua natureza artesanal e territorial, "distancia-se de uma lógica industrial e escalonável", o que, embora seja uma estratégia de proteção contra a descaracterização, "pode limitar a inserção desses produtos em mercados convencionais".

Cachimbos produzidos pelo povo Kariri-Xocó
Cachimbos produzidos pelo povo Kariri-Xocó - Foto: Arquivo pessoal

Sobre as barreiras sanitárias, o Sebrae informou que o Estado da Bahia tem promovido avanços por meio do SUSAF-BA (Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte), que permite a comercialização de produtos em todo o território baiano com processos de licenciamento simplificados. Há também mecanismos de equivalência entre o SIM municipal e o SISBI-POA federal para produtos de baixo risco sanitário como leite, mel e ovos.

O Sebrae atua junto às comunidades indígenas por meio do Programa Plural, iniciativa nacional de inclusão produtiva com foco em identidade cultural e sustentabilidade, oferecendo cursos, atendimento técnico e orientações sobre formalização e gestão. O atendimento pode ser acessado pelas 30 agências do Sebrae na Bahia ou pelo 0800 570 0800 (WhatsApp 24h).

A Superintendência de Políticas para Povos Indígenas (SPPI), ligada à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia (Sepromi), reconheceu não dispor de dados consolidados sobre quantas comunidades têm a comercialização de produtos da sociobiodiversidade como principal fonte de renda. A explicação é a dinâmica do setor: o cenário "vem se modificando constantemente em razão dos investimentos e apoios destinados ao fortalecimento das atividades produtivas". Segundo a própria superintendência, aldeias que há pouco tempo produziam apenas para consumo interno hoje abastecem municípios vizinhos.

É o caso da Aldeia Tuxá, no município de Muquém do São Francisco, que após investimentos em mecanização agrícola, preparo do solo e assistência técnica passou a vender frutas e hortaliças para fora do seu território. No Extremo Sul da Bahia, comunidades do povo Pataxó avançaram para etapas mais complexas da cadeia produtiva, beneficiando produtos da Mata Atlântica para fabricar essências, sabonetes e shampoos que hoje chegam a mercados internacionais. Para a SPPI, "os povos indígenas da Bahia têm apresentado avanços significativos no campo da produção e da geração de renda".

Parte desses avanços a superintendência atribui ao modelo adotado pelos programas Bahia Produtiva e Bahia que Produz e Alimenta: editais específicos para povos indígenas nos quais são as próprias comunidades que definem quais atividades e estruturas querem fortalecer. O projeto é então elaborado de forma participativa, com apoio de consultoria técnica. Entre os investimentos financiáveis estão veículos para escoamento da produção, um dos principais gargalos apontados pelos produtores ouvidos nesta reportagem, além de máquinas e equipamentos para produção e comercialização. O objetivo é "promover a segurança alimentar e nutricional das comunidades" e construir "maior autonomia econômica, sempre com respeito aos saberes, práticas tradicionais e modos próprios de produção de cada povo indígena".

Há mais exemplos que apontam caminhos. Em 2026, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) anunciou a instalação de um sistema de irrigação movido a energia solar na Aldeia Patiburi, comunidade Tupinambá localizada no município de Una, a mesma etnia do cacique Reinildo. A iniciativa fortalece a produção agrícola local de forma autônoma e sustentável, reduzindo a dependência de insumos externos. Em 2025, um programa de crédito voltado a indígenas da Bahia passou a financiar a recuperação da Mata Atlântica por comunidades do sul do estado, unindo renda, reflorestamento e soberania territorial. Também em 2025, o etnoturismo do povo Pataxó, desenvolvido na Reserva da Jaqueira, em Porto Seguro, ganhou destaque nas plenárias da COP30, em Belém, como exemplo de turismo sustentável que combina cultura, conservação e geração de renda.

São iniciativas promissoras. Mas os próprios produtores ouvidos nesta reportagem as desconhecem em parte, e dizem que o acesso a elas ainda depende de redes de informação que não chegam a todas as aldeias. Quando chegam, a burocracia para acessar os editais pode ser um obstáculo novo.

A reportagem procurou o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Funai para obter dados e posicionamento sobre o empreendedorismo indígena na Bahia, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Próximos passos

O cacique Paruanã, da aldeia Kariri-Xocó, localizada em Entre Rios
O cacique Paruanã, da aldeia Kariri-Xocó, localizada em Entre Rios - Foto: Arquivo pessoal

Apesar das barreiras, os três líderes ouvidos nesta reportagem olham para frente. Otto Payayá sonha em legalizar a Kauin Etê e transformar a cerveja artesanal em vetor de visibilidade para o povo Payayá. "Enquanto é impossível legalizar, eu vou fazendo o possível com ela artesanal", resume.

Reinildo quer ver a Aldeia do Mamão produzir chocolate fino a partir do cacau cabruca, agregando valor a toda a cadeia e garantindo renda mais estável às 25 famílias produtoras. Para o cacique Tupinambá, o futuro da aldeia está na profissionalização coletiva, sem abandonar o manejo sustentável que preserva a Mata Atlântica. "O cacau cabruca valoriza o território, os pássaros, os bichos. Tudo faz parte desse manejamento", diz.

O cacique Paruanã, da aldeia Kariri-Xocó, quer uma oficina de artesanato para ampliar a produção e a formação das novas gerações. Já viu crianças de dez anos se tornarem artesãos habilidosos. Para ele, o artesanato é mais do que renda: é terapia, espiritualidade, resistência cultural. "Quanto mais você faz, vêm ideias para criar. Vem ideia na mente. E o artesanato pra gente é uma terapia, pra não ficar pensando em besteira", conta, rindo.

Os três concordam em algo essencial: a autonomia econômica começa pelo território. Sem terra demarcada, sem água garantida, sem estradas e sem normas sanitárias que reconheçam suas realidades, o empreendedorismo indígena segue sendo uma potência represada. Mas a floresta, por enquanto, continua oferecendo o que os mercados ainda não aprenderam a dar: a resposta já está lá, no chão da mata, esperando ser colhida.

Como resume Otto Payayá, com a sabedoria de quem caminhou a vida inteira pela Chapada Diamantina: "O que a gente tira da natureza é um nada. É um nada mesmo. Mas esse nada nos dá dignidade, nos dá sobrevivência, nos dá identidade. E nos dá a certeza de que, dentro do nosso território, a gente sabe como se virar”.

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