ECONOMIA
Supermercados fechados aos domingos mudam hábitos e pressionam varejo; entenda
Redes supermercadistas ajustaram horários, reforçaram equipes e intensificaram o uso de tecnologia para evitar filas e falta de produtos


Ir ao supermercado no domingo virou coisa do passado para milhares de capixabas. Desde março de 2026, as portas fechadas no último dia da semana mudaram hábitos de consumo, reorganizaram escalas de trabalho e obrigaram grandes redes do varejo a redesenhar toda a operação para evitar prejuízos e filas lotadas.
A mudança, que já provoca reflexos no comportamento dos consumidores e reacende discussões em todo o país sobre jornada de trabalho no comércio, foi definida na Convenção Coletiva de Trabalho 2025–2027, firmada entre a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo e o Sindicato dos Comerciários.
Acordo acabou com funcionamento dominical do setor
Com a nova regra, supermercados, hipermercados, atacarejos, mercearias, minimercados, hortifrutis e lojas de material de construção que dependem de funcionários contratados deixaram de funcionar aos domingos desde 1º de março deste ano. A medida vale, inicialmente, até outubro de 2026, quando os impactos serão analisados novamente pelas entidades responsáveis.
A convenção alterou diretamente a rotina dos trabalhadores. O modelo de folgas rotativas foi modificado para garantir descanso fixo aos domingos, mudando completamente a dinâmica de quem antes folgava em dias alternados durante a semana.
O acordo ainda prevê punições para empresas que descumprirem a regra. A multa estipulada equivale a um salário do empregado para cada domingo trabalhado de forma irregular, além do pagamento das horas extras com adicional de 150%.
Espírito Santo revive modelo que já existiu no passado
O fechamento dominical não é novidade no estado. Entre 2009 e 2018, os supermercados capixabas já haviam adotado sistema semelhante. O modelo foi interrompido após o setor ser considerado atividade essencial pelo governo federal.
Agora, em meio à dificuldade de contratação e ao baixo índice de desemprego registrado no Espírito Santo, a discussão voltou com força. Em 2025, o estado registrou taxa de desocupação de apenas 3,3%, a menor da série histórica da Pnad Contínua do IBGE.
Antes da entrada definitiva da medida, houve uma exceção temporária durante o verão 2025/2026, permitindo o funcionamento das lojas aos domingos até o fim da temporada.
Sábado virou o principal dia de compras
Sem a possibilidade de comprar no domingo, consumidores passaram a concentrar as compras principalmente aos sábados. O resultado foi um aumento expressivo no fluxo das lojas no fim de semana e maior movimentação também nas segundas-feiras, quando muitos clientes voltam para repor itens que faltaram em casa.
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Os números ajudam a explicar por que o setor decidiu apostar na mudança. Dados da Secretaria de Estado da Fazenda mostram que, em 2025, os supermercados faturavam, em média, R$ 102 milhões aos sábados, enquanto os domingos registravam apenas R$ 25,9 milhões, o menor desempenho da semana.
Redes reforçaram equipes e ampliaram horários
Para suportar a nova demanda, grandes grupos supermercadistas precisaram reorganizar horários, equipes e logística.
O Grupo Coutinho, responsável pelas bandeiras Extrabom, Extraplus e AtacadoVem, ampliou o funcionamento de parte das unidades, abrindo mais cedo e fechando mais tarde nas sextas e sábados. Os Supermercados BH também ajustaram horários em lojas do estado.
Outras redes, como Carone, Sempre Tem e Assaí, preferiram manter o funcionamento tradicional durante os demais dias da semana. Já o Grupo Carrefour Brasil informou que não faria mudanças adicionais além do fechamento dominical.
Tecnologia virou aliada contra filas e falta de produtos
Além das mudanças nos horários, o varejo intensificou o uso de ferramentas de gestão para tentar evitar problemas nos dias de maior movimento. Indicadores de fluxo, previsão de demanda e sistemas de controle de estoque passaram a ter papel central na operação das lojas.
Entre as principais estratégias adotadas pelas redes estão:
- reforço de caixas, empacotadores e repositores aos sábados;
- atenção redobrada à reposição de mercadorias nas segundas-feiras;
- contratação de funcionários para horários específicos;
- redistribuição das folgas da escala 6×1 para períodos de menor movimento.
Com consumidores obrigados a antecipar compras e empresas tentando adaptar a operação ao novo cenário, o fechamento dos supermercados aos domingos transformou a rotina do Espírito Santo e colocou o estado no centro de uma discussão que pode se espalhar para outras regiões do país.


