EDUCAÇÃO
Profissionais da educação garantem ensino em áreas remotas da Bahia
Motoristas, merendeiras e equipes de apoio são essenciais para a permanência escolar


No Dia Nacional dos Profissionais da Educação, celebrado nesta quinta-feira, 6, a homenagem vai para quem faz a escola acontecer muito antes do primeiro sinal tocar. Motoristas, merendeiras, porteiros, auxiliares e educadores enfrentam estradas de terra, calor intenso e desafios logísticos para garantir que estudantes indígenas, quilombolas e de áreas rurais permaneçam na escola.
São profissionais que raramente aparecem nas estatísticas da educação, mas sustentam diariamente o funcionamento das escolas estaduais espalhadas pelos 27 Territórios de Identidade do estado (NTEs).
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Longe dos grandes centros urbanos da Bahia, essa atuação ganha contornos ainda mais desafiadores. Em áreas indígenas, quilombolas, ribeirinhas e do Semiárido, a permanência dos estudantes na escola depende muito mais do que da sala de aula. O transporte, a alimentação escolar e o respeito às especificidades culturais sãoparte essencial do processo de ensino-aprendizagem.
Na Terra Indígena Tuxá, em Ibotirama, no território de identidade Velho Chico, o Colégio Estadual Indígena Marechal Rondon atende estudantes de comunidades vizinhas. Não há ônibus escolar. O deslocamento é feito por um único veículo que percorre diariamente estradas de terra para buscar os alunos.
Há sete meses na função, o motorista Pedro Henrique dos Santos Cardoso, 19 anos, transporta oito estudantes pela manhã e outros seis à tarde. O maior desafio, segundo ele, está nas condições da estrada.
"Durante o período de chuvas, a estrada de terra pode ficar com lama e escorregadia, dificultando o transporte. Já na seca, a poeira e os buracos podem ser um problema. Nessas situações, é preciso redobrar a atenção e reduzir a velocidade para garantir a segurança dos alunos", relatou.
O transporte escolar é outro fator decisivo para garantir o acesso às escolas, especialmente em comunidades tradicionais. Entre 2023 e 2025, a Bahia investiu R$ 837 milhões na oferta de transporte escolar de qualidade, beneficiando mais de 146,5 mil estudantes da rede estadual, entre eles cerca de 35 mil pessoas com deficiência.
A realidade é semelhante no Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro de Tempo Integral, em Buerarema, onde 214 estudantes são atendidos da Educação Infantil ao Ensino Médio, com curso técnico em Agroecologia. Para a diretora Magnólia Jesus da Silva, a dedicação dos profissionais é determinante para que a rotina escolar aconteça, apesar das dificuldades de acesso à comunidade.
"Os motoristas são de muita importância porque levam os alunos até a escola com responsabilidade e compromisso, mesmo enfrentando estradas de chão sem manutenção. As merendeiras também têm um papel fundamental. Servimos café da manhã, lanche, almoço e outro lanche à tarde. Nossa merenda é uma marca registrada da escola. Os alunos gostam muito porque, além de cumprir o cardápio, elas aproveitam frutas e alimentos frescos produzidos na própria aldeia. Todos os profissionais fazem sua parte para que a escola funcione e a comunidade se sinta acolhida”.
Atualmente, a rede estadual serve cerca de 30 milhões de refeições por mês. Nas escolas de tempo integral, os estudantes recebem até cinco refeições diárias, elaboradas por nutricionistas e adaptadas às características de cada território, com o objetivo de garantir segurança alimentar e favorecer a permanência dos alunos na escola.

Segundo a merendeira Viviane Rosineide da Silva Mariano, do Colégio Estadual Indígena Marechal Rondon, a rotina começa cedo. Às 6h, ela já está preparando o café da manhã. Em seguida, inicia o almoço para os estudantes do turno matutino e, logo depois, para os alunos da tarde. "Faço com muito amor e dedicação", resumiu.
No Colégio Estadual Quilombola de Tempo Integral da Matinha, em Feira de Santana, inaugurado em 2026, a nutricionista Aline Santos Carqueija explicou que a elaboração do cardápio vai além das recomendações nutricionais.
"O planejamento da alimentação escolar em uma unidade quilombola deve considerar a cultura alimentar da comunidade, seus hábitos, tradições, costumes e práticas religiosas. Esses aspectos são fundamentais para elaborar um cardápio que respeite a identidade cultural e valorize os alimentos tradicionalmente consumidos”, disse.
Segundo ela, produtos como aipim, banana-da-terra, batata-doce, feijão, farinha, beiju, frutas e polpas produzidos pela agricultura familiar fazem parte da alimentação oferecida aos estudantes. Um dos pratos mais aguardados é a feijoada, símbolo da cultura quilombola. "A oferta desse prato fortalece o vínculo dos alunos com suas raízes culturais, promovendo o reconhecimento e a preservação do patrimônio alimentar da comunidade”, destacou.
A preocupação com o pertencimento também orienta o trabalho pedagógico nas escolas indígenas. Para Gislaine Fonseca Rezende, diretora do Colégio Estadual Indígena Marechal Rondon, em Buritirama, a educação indígena possui características que vão além do currículo tradicional.
"A educação indígena se diferencia das escolas das cidades porque busca respeitar e fortalecer a cultura, a língua, os conhecimentos e o modo de vida de cada povo indígena”.
Ela explicou que o calendário escolar acompanha as festividades da comunidade e que o aprendizado acontece tanto dentro da sala quanto no território. "O estudante aprende observando a natureza, produzindo artesanato e ouvindo as narrativas dos mais velhos”, afirmou.
Nos 27 Territórios de Identidade da Bahia, políticas como alimentação escolar regionalizada, transporte e acompanhamento nutricional procuram reduzir desigualdades e garantir que crianças e adolescentes permaneçam estudando, inclusive nas áreas mais distantes dos centros urbanos. Longe dos holofotes, as histórias desses trabalhadores reforçam que a escola é construída diretamente por muitas mãos.


