EM PAUTA
Afroturismo ganha protagonismo na Chapada
Comunidade quilombola em Lençóis consolida-se como referência em turismo de base comunitária


Na comunidade quilombola de Remanso, os visitantes têm diversidade de experiências, desde os passeios de barco no minipantanal Marimbus, a trilhas e banhos no rio Roncador. Além das festas tradicionais e religiosas, tem a hospitalidade da população e uma culinária típica com peixes e outros alimentos da agricultura familiar.
A cerca de 20 km da cidade, com parte do percurso em estrada de chão, a comunidade é oficialmente reconhecida como quilombola e, em 2025, passou a integrar o Guia do Afroturismo no Brasil, lançado pelo Ministério do Turismo junto com a Unesco. O projeto mapeia territórios negros com potencial turístico, que tenham importância histórica e cultural.
O reconhecimento resultou do trabalho, iniciado há quase 20 anos, de valorização das belezas cênicas e da comunidade pelos conhecimentos ancestrais. Tudo foi organizado para tornar o local um atrativo turístico de base comunitária, que, em julho passado, recebeu uma média de 2.300 pessoas.
A localidade mantém manifestações como jarê, reisado, capoeira, samba de roda e a celebração do padroeiro, entre setembro e outubro, com a Festa de São Francisco, que conta com o tradicional Samba da Noite dos Pescadores. Em maio, acontece o Samba do Mato, mais voltado para a comunidade, que também recebe visitantes, de acordo com a presidente da Associação Quilombola de Remanso, Araceli Dias.
Além das manifestações populares e religiosas, também as atividades do dia a dia, como a pesca artesanal, chamam atenção dos turistas, que conhecem o artesanato e a agricultura familiar, bases econômicas locais.
O visitante pode se hospedar e conhecer a história da comunidade com os mais velhos, explicou a líder da comunidade, listando algumas possibilidades: “Aprender a lavar dendê, acompanhar um pescador e aprender com ele sobre o rio, os peixes, as plantas e as tecnologias sociais desenvolvidas para pesca”. Ela acrescentou que o turista também pode “aprender sobre as ervas com as moradoras mais velhas, a fazer farinha e ouvir um bom forró com Tio Aurino (músico local)”.
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Araceli enfatizou que o passeio de barco (R$ 300 para 4 pessoas) é realizado majoritariamente por homens. “É um passeio de beleza única, silencioso, com uma diversidade de aves no percurso, flores aquáticas e Mata Atlântica preservada na margem do rio”, descreveu, salientando que todos os guias e outros serviços são executados pelas pessoas da comunidade. As mulheres são responsáveis pelas hospedagens, alimentação e vivências, completou.
A secretária de Turismo de Lençóis, Laura Garcia, disse que o município apoia iniciativas ligadas à valorização da cultura afro-brasileira, apontando como principais as áreas de gastronomia, artesanato, produção cultural, música e turismo de base comunitária. “O principal case é justamente a comunidade quilombola do Remanso, cuja organização transformou o turismo em importante fonte de geração de renda e valorização da identidade local”, frisou.
Laura acrescentou que, este ano, o município foi selecionado pelo Ministério do Turismo como única cidade do Norte-Nordeste a representar o Brasil na disputa pelo prêmio Melhores Vilas Turísticas. Promovido pela ONU Turismo, a iniciativa valoriza destinos que preservam identidade cultural, promovem sustentabilidade e fortalecem as comunidades locais.
Para a secretária, outro ponto favorável ao turismo é a projeção através da literatura e das artes. “O universo cultural da Chapada Diamantina, especialmente a tradição quilombola e o Jarê, inspirou o enredo ‘Torto Arado: sobre a terra há de viver sempre o mais forte’, da escola de samba Unidos de Vila Isabel (do Rio de Janeiro) para o Carnaval de 2027”, disse ela, animada com a repercussão.
A pesquisa para produção do desfile aproximou a escola das comunidades tradicionais da região, incluindo o Quilombo do Remanso. “Este reconhecimento externo reforça uma característica fundamental de Lençóis: nossa cultura não é uma representação construída apenas para o visitante, mas uma expressão viva da história e da identidade das comunidades locais”, ressaltou.


