EM PAUTA
Revolução na medicina: como IA e novas terapias mudam o combate a doenças graves
Conheça os marcos históricos que estão transformando a saúde


Impulsionada por novas tecnologias, como Inteligência Artificial (IA), edição genética (técnica que permite alterar, adicionar ou remover trechos específicos do DNA) e imunoterapia (estímulo do sistema imunológico para destruir células cancerígenas), a ciência médica vem alcançando marcos históricos nos diagnósticos que, antes, significavam sentença de morte, e no tratamento de doenças em diversas áreas, como Oncologia, Infectologia, Neurologia e Cardiologia. O cenário atual, na opinião de médicos, professores e pesquisadores, sinaliza avanços promissores para patologias desafiadoras, como o Alzheimer e câncer.
Um dos progressos anunciados, em agosto deste ano, foi a vacina personalizada de mRNA contra melanoma, com resultados positivos de fase 3 (etapa em que um tratamento é testado em grande número de pacientes antes de uma possível aprovação) para o imunizante terapêutico intismeran autogene.
Também foi divulgado, entre outras boas novas, a aquisição pelo Sistema Único da Saúde (SUS) da tecnologia para produzir o principal remédio contra o HIV, o antiretroviral Dolutegravir. Vinculada ao Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concluiu a transferência de tecnologia para produzir esse medicamento, desenvolvido pela biofarmacêutica GSK.
O médico Gabriel Schnitman, chefe da Unidade de Gestão de Pós-Graduação do Hospital Professor Edgard Santos (Hupes), instituição ligada à Universidade Federal da Bahia e gerida pela estatal HU Brasil, considera que o momento atual é de “virada de chave na Medicina”. Tratamentos que antes pareciam ficção científica, diz, hoje são possíveis de se imaginar.
“Muito desse salto tem a ver com a inteligência artificial. Sem dúvida, essa ferramenta tem o potencial de mudar a maneira como a inovação na área médica ocorre”. Ele, que também é professor assistente do Departamento de Anestesiologia e Cirurgia da UFBA, observa que a IA está encurtando caminhos, ajudando a identificar alvos para novos medicamentos, a prever como uma proteína vai se comportar, a escolher quais mutações de um tumor devem entrar em uma vacina personalizada.
“Vamos ver diagnósticos mais precoces, tratamentos mais personalizados e pacientes mais bem informados sobre a própria saúde. Mas a tecnologia só serve quando vem junto com o cuidado humano e compromisso com o acesso”, ressalta.
No dia a dia do hospital, afirma o Dr. Gabriel, já é possível ver a IA como apoio médico. “Nas nossas pesquisas na Bahia, temos visto que modelos atuais de IA conseguem raciocinar sobre casos clínicos de um jeito surpreendente, porém essa tecnologia deve ser entendida como uma ferramenta extraordinária, e não como uma solução para tudo”, pontua, completando que os modelos atuais erram e produzem vieses inerentes à maneira como são construídos.
“A IA aprende com os dados que recebem e estes são originados, majoritariamente, de populações de países ricos. Por isso, o resultado pode não servir tão bem para o paciente do interior baiano.”
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O pesquisador afirma que existe, também, a questão da privacidade das informações de saúde. “Na minha vivência na universidade existe um risco mais sutil e perverso que está se desenvolvendo: o dos futuros médicos deixarem de pensar criticamente, em função da máquina. Por isso, o desafio não é tecnológico, é humano e ético”.
Segundo ele, é preciso formar médicos que saibam usar a IA, mas que entendam seus limites e que continuem sendo responsáveis pela decisão final. Outra coisa “é a necessidade de políticas públicas para que tudo isso chegue ao SUS”. “De que adianta uma terapia revolucionária, por exemplo, para a anemia falciforme, tão presente na Bahia, se custar milhões, ficando restrita a uma minoria?”, reflete.
O médico Carlos Brites, professor titular de Infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia e pesquisador coordenador do Laboratório de Pesquisa em Virologia do Hupes-UFBA/HU Brasil, destaca que, apesar dos progressos em áreas específicas, muitas doenças continuam necessitando de novas abordagens e de melhoria nos tratamentos existentes. Como exemplo ele cita a malária, “que tem sido uma das áreas em que coisas novas aconteceram, mas a doença ainda está sendo uma causa importante de mortalidade.”
Para outras doenças, como a AIDS/ HIV, o pesquisador aponta “um grande avanço em termos de medicamentos”, mas a principal questão, ao seu ver, é a ausência de vacinas como prevenção.
“Elas poderiam mudar o jogo dessa patologia. De qualquer forma, temos, hoje, muitos tratamentos novos, eficazes, seguros e medicamentos para prevenir a transmissão. Estamos avançando muito na simplificação do tratamento, com remédios injetáveis, embora ainda não disponíveis para a população em geral devido ao alto custo ou à dificuldade de licenciamento”, relata.
Ainda na área da Infectologia, o Dr. Carlos Brites destaca que o avanço mais importante foi a pesquisa que está sendo finalizada na Universidade Federal da Bahia, mostrando, pela primeira vez, que medicamentos antiretrovirais utilizados no tratamento do HIV, como o Dolutegravir, podem ser efetivos para tratar pacientes com HTLV, uma infecção que pode causar doenças crônicas degenerativas incapacitantes, como a paraparesia espástica, e doenças graves, com alta mortalidade, como a leucemia de células T.
“Esse nosso estudo já foi publicado em duas revistas importantes, com o editorial apontando que, provavelmente, esta é uma nova era para essa doença que atinge entre oito e 20 milhões de pessoas no mundo inteiro”, diz, com a expectativa positiva de que em cerca de um ano os dados da citada pesquisa sejam confirmados e o medicamento possa ser disponibilizado na rede pública.
Alzheimer: novas medicações
A médica neurologista Roberta Kauark, também da equipe do Hupes-UFBA/HU Brasil, vê “com expectativa e otimismo” o avanço dos tratamentos do Alzheimer, enfermidade neurodegenerativa caracterizada pela morte progressiva de neurônios, especialmente em regiões como os lobos frontal e temporal, onde se localiza o hipocampo, estrutura fundamental para a memória.
“Hoje em dia, a gente fala em pré-diagnóstico, em fases mais precoces, em fases pré-sintomáticas da doença. Temos biomarcadores que foram desenvolvidos para facilitar esse diagnóstico de forma mais precoce e entender melhor a progressão da doença, o que leva a tratamentos mais precisos e eficazes.”
De acordo com a Dra. Roberta, existem vários tratamentos sendo testados pela indústria farmacêutica ao redor do mundo. “Entraram no mercado brasileiro, em abril de 2025, os medicamentos antiamiloides, que são anticorpos monoclonais e que atuam sobre para remover placas da proteína beta-amiloide do cérebro”, diz, citando o primeiro antiamiloide, o Donanemab, aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Agora, ressalta, está chegando o Lecanemab, desenvolvido por uma parceria internacional entre as farmacêuticas norte-americana Biogen, a japonesa Eisai e a sueca BioArtic.
“São medicações novas, com vida real de, no máximo, cinco anos. Então, a gente precisa de mais tempo de evolução nesses estudos, que já estão conseguindo frear a progressão da doença em cerca de 37%. A novidade atua no mecanismo de ação da doença e contendo a evolução não só os sintomas, como também a evolução clínica dessa doença”, afirma a neurologista.
Dados do Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, divulgado em 2024, indicam que cerca de 8,5% da população brasileira com 60 anos ou mais convivem com a doença, o que equivalente a, aproximadamente, 1,8 milhão de pessoas. A projeção é que, até 2050, o número pode alcançar 5,7 milhões de diagnósticos no país.





