SAÚDE EM PAUTA
Aumento de câncer colorretal na população mais jovem acende alerta entre médicos
Câncer de intestino em adultos jovens cresce 7,6% ao ano


Poliana Leite tinha apenas 36 anos quando descobriu um câncer de intestino. Mas, até chegar ao diagnóstico, atravessou uma gravidez com fortes dores, muitos vômitos e fezes finas, escuras e com sangue.
“Sou uma pessoa esclarecida, mas nunca imaginei que estaria com essa doença, pois na minha idade era raro, embora atualmente não mais, e havia acabado de fazer exames para a fertilização em vitro”. Com medo de seu médico considerar a interrupção da gestação se soubesse dos seus sintomas, decidiu não contar.
“Eu só pensava em ter o meu filho, que era o meu sonho”. Hoje, ao lado do pequeno Raul, 4 anos, e com seu livro “Mais forte que o câncer” publicado, a gerente de Negócios da Natura e Avon entende que sua história tem o propósito de ajudar outras pessoas e mostrar que o câncer “é um capítulo para enxergar a vida com outros olhos.”
O aumento na incidência do câncer colorretal na população mais jovem (entre 25 e 49 anos) vem acendendo um alerta na comunidade médica sobre prevenção e rastreamento precoce. A mudança no perfil epidemiológico desse tipo de câncer, que figura entre os mais prevalentes no Brasil e no mundo, ganhou repercussão na mídia com a morte da cantora Preta Gil, em 2025, aos 50 anos.

Neste Setembro Verde, campanha voltada à conscientização do câncer de intestino, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e o Ministério da Saúde reforçam a atenção para o aumento médio anual de 7,6% de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos. O Instituto Nacional do Câncer estima 53.810 novos casos para o triênio 2026-2028.
A médica oncológica Anelisa Coutinho explica que ainda não há uma clareza absoluta em relação aos determinantes do crescimento do número do câncer de intestino em jovens, mas se sabe que a doença é multifatorial. “Dentre os possíveis fatores de risco, a obesidade é um dos mais relevantes e estima-se que o excesso de peso contribua como fator promotor em, aproximadamente, 30% dos casos novos em adultos jovens”.
Além disso, sedentarismo, consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e de carnes vermelhas, açúcares refinados, bebidas adoçadas e alcoólicas e tabagismo estão associados a fatores de risco em todas as idades.
“Outras causas, como alterações do microbioma (flora bacteriana) intestinal, uso indiscriminado de antibióticos e processos inflamatórios crônicos, ainda estão em investigação”, diz a Dra. Anelisa, destacando que fatores hereditários e síndromes genéticas são determinantes em torno de apenas 10% dos casos em jovens, “apesar de as mutações gênicas germinativas serem encontradas duas a três vezes mais em adultos jovens do que em pessoas com idade superior a 50 anos.”
Justamente por não estar nessa faixa etária, Poliana Leite não considerou um câncer de intestino. “Fui muitas vezes à emergência e ouvia dos profissionais que estava tudo bem com o bebê e que minhas dores eram psicológicas”, recorda.
Aos oito meses de gestação, seu obstetra diagnosticou pré-eclâmpsia e uma cesárea precoce foi realizada. Mas a descoberta da doença só veio depois de dois meses do parto, quando expulsou um pedaço do tumor pelo reto, com muito sangramento. “Aí senti que não tinha nada de normal em mim. Fui com meu marido a um proctologista, que me encaminhou com urgência para a colonoscopia e veio a confirmação”, conta Poliana, que, na época, deixou Feira de Santana, onde mora, para fazer o tratamento cirúrgico e quimioterápico, em Salvador.

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Sintomas
A médica coloproctologista Fernanda Coelho, do Itaigara Memorial, explica que os sintomas de câncer de intestino podem variar. “Os mais comuns são sangue nas fezes, alteração persistente do hábito intestinal, como diarreia ou constipação, mudança no formato das fezes, dor ou desconforto abdominal, anemia, perda de peso sem explicação e sensação de evacuação incompleta”, enumera, ressaltando que, no início, a doença é assintomática.
Mas essas manifestações, afirma a médica, não significam, necessariamente, a presença do câncer. “Sangue nas fezes pode ocorrer por causas benignas, como hemorroidas e fissuras anais. O que merece atenção é quando esse sangramento é persistente, recorrente ou aparece associado a outros sintomas.”
A recomendação, diz Dra. Fernanda, é procurar um médico diante de qualquer sangramento, reforçando que, quando o câncer colorretal é descoberto em fase inicial, as chances de cura são muito altas, podendo ultrapassar 90% nos estágios mais precoces.
“Por isso, detectar cedo faz tanta diferença”, reitera, ressaltando a importância da colonoscopia, exame que permite examinar o reto, o intestino grosso e o final do intestino delgado, feito com sedação, sob cuidados do anestesiologista, com um aparelho flexível, o colonoscópio, que é introduzido pelo ânus e toda a mucosa do intestino é avaliada. Os pólipos, crescimento anormal que surge na parede interna do intestino ou o reto, não são, em sua maioria, câncer, explica a especialista, mas alguns tipos podem sofrer alterações ao longo dos anos e se transformarem em um tumor maligno.
“Quando encontramos pólipos no exame, conseguimos retirá-lo. É justamente aí que está o grande valor preventivo da colonoscopia: permite interromper a evolução de um pólipo benigno para o câncer. A melhor terapêutica é evitar que a doença apareça ou fazer o diagnóstico o mais cedo possível”, orienta a coloproctologista, destacando que o tratamento depende, principalmente, do local do tumor, estágio da doença e características individuais do paciente, podendo envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, isoladamente ou combinadas.

Como médica gastroenterologista do Memorial Itaigara, Alice Cairo considera importante destacar que sangue vivo nas fezes, alterações persistentes do hábito intestinal, como diarreia ou constipação, dor abdominal recorrente, perda de peso inexplicada, fadiga e anemia não significam necessariamente câncer, mas precisam ser investigados por um especialista.
“Na verdade, não devemos esperar o aparecimento de sintomas para cuidar da saúde intestinal. Prevenção, rastreamento adequado, diagnóstico precoce e seguimento individualizado podem salvar vidas”, diz, enfatizando que “uma alimentação equilibrada, rica em fibras, frutas, verduras e legumes, associada à prática de atividade física e ao controle do peso, contribui para a prevenção do câncer de intestino.”
Colonoscopia
Para o rastreamento do câncer de intestino, a oncologista Anelisa afirma que a colonoscopia é o exame mais eficaz e, conforme as diretrizes mundiais mais recentes, deve ser feita em adultos assintomáticos a partir dos 45 anos, repetindo com uma periodicidade de um a dez anos, a depender dos achados, do grau da displasia, do tamanho da lesão polipóide, do histórico familiar, entre outros fatores.
“É considerada padrão-ouro, pois, através do colonoscópio, é possível percorrer e visualizar o interior de todo o intestino grosso”, explica a médica, frisando que em um estádio I da doença estima-se que 90% dos pacientes estarão vivos após cinco anos do diagnóstico, com elevada chance de cura.
A Dra. Alice Cairo reforça que a indicação do exame, a idade de início e periodicidade para realizá-lo “devem ser individualizadas, considerando histórico familiar, sintomas, achados de exames anteriores, presença de pólipos, doenças intestinais e outros fatores de risco”. Em pessoas com maior risco, reitera a médica, o rastreamento pode precisar começar mais cedo e ser acompanhado mais de perto.

Outra forma de diagnóstico do câncer colorretal é o “FIT”, um teste imunoquímico fecal que detecta hemoglobina humana nas fezes. “É mais acessível, já existente há muitos anos, mas que foi adotado pelo Ministério da Saúde e formalmente incluído na tabela SUS (Sistema Único de Saúde) em agosto deste ano, como um exame de referência inicial para o rastreio do câncer de intestino”, explica a Dra. Anelisa. Este exame, ressalta, é recomendado para pessoas assintomáticas entre 50-75 anos e funciona como uma “triagem” em larga escala. “Sem dúvida, é uma incorporação de grande benefício para a Rede SUS.”
Dicas sobre saúde intestinal
Será que meu intestino está saudável?
Fique atento(a) - À regularidade das suas evacuações, à consistência das fezes (devem ser macias e fáceis de eliminar), a dores ao evacuar e a gases que causem desconforto ou inchaço abdominal.
Autocuidado - Beber quantidade de água adequada (35 x peso em kg) para manter as fezes hidratadas e facilitar a evacuação; consumir fibras diariamente, como frutas, legumes, verduras e cereais integrais; e praticar exercícios físicos para estimular o trânsito intestinal.
Sinais de alerta - Mudanças drásticas como prisão de ventre (constipação) ou diarreia que duram muito tempo; sintomas incômodos, como excesso de gases, dor abdominal recorrente ou barriga muito inchada; e presença de sangue, muco visível nas fezes ou perda de peso sem motivo.
Devo prestar a atenção em que mudanças no intestino?
Fique atento(a) - A estufamento e gases em excesso, dando a sensação de barriga inflada, mesmo após comer pequenas porções; eliminação frequente de secreções esbranquiçadas ou gelatinosas junto com as fezes e fadiga e alterações de humor.
Autocuidado - Alimentação balanceada, evitando embutidos, alimentos ultraprocessados e excesso de açúcar ou adoçantes artificiais; hidratação adequada, prática regular de exercícios físicos; e controle do estresse, com momentos de descanso e noites bem dormidas.
Sinais de alerta - Sangue nas fezes, mudança persistente no hábito intestinal, fezes muito finas, perda de peso inexplicável, dor abdominal severa ou persistente e sensação de evacuação incompleta.
Posso estar com intestino preso?
Fique atento(a) - À frequência reduzida de evacuações (menos de três vezes por semana); às fezes alteradas; à força para eliminar as fezes; à sensação de que o reto não esvaziou totalmente; ao inchaço abdominal; aos gases frequentes e à dor abdominal.
Autocuidado - Envolve o aumento do consumo de fibras e água, além da prática regular de exercícios físicos
Sinais de alerta - As evidências que exigem investigação médica imediata incluem sangue nas fezes, perda de peso sem motivo aparente e dor abdominal intensa
Tenho trânsito intestinal lento?
Fique atento(a) - Ao número de vezes por semana que evacua; se as fezes estão muito duras e ressecadas; se faz esforço excessivo; se tem a sensação de evacuação incompleta; se está com distensão abdominal crônica e excesso de gases; e se sente mal-estar após se alimentar.
Autocuidado - Ingestão de kiwi, ameixa seca, mamão, psyllium (fibra), iogurte natural, kefir e kombucha para acelerar o trânsito intestinal e fortalecer a microbiota; diminuir consumo de alimentos ultraprocessados, açúcares refinados e frituras; beber quantidade de água adequada; fazer atividade física para estimular o peristaltismo; não segurar a vontade de ir ao banheiro; controlar o estresse; e incluir pausas para respiração diafragmática, meditação ou yoga.
Sinais de alerta - Mudança súbita e persistente no hábito intestinal, sangue nas fezes, dor abdominal intensa ou progressiva, vômitos frequentes ou incapacidade de reter líquidos e perda de peso inexplicável e fadiga extrema.
Tenho que me preocupar com câncer de intestino?
Fique atento(a) - Se tiver mais de 45 anos, ao histórico familiar e a sintomas intestinais que duram mais de algumas semanas.
Autocuidado - Envolve hábitos de vida saudáveis para prevenção, como boa ingestão de fibras; equilibrar o consumo de carnes vermelhas e evitar as processadas (salsicha, bacon, presunto, mortadela); reduzir consumo de álcool; e inserir atividade física na rotina diária, além de manejo dos sintomas e apoio emocional durante e após o tratamento.
Sinais de alerta - Sangue nas fezes, diarreia ou prisão de ventre que duram mais de três semanas; alteração no formato das fezes; dor ou cólica abdominal persistente; sensação de evacuação incompleta; vontade constante de ir ao banheiro sem conseguir esvaziar o intestino por completo; perda de peso sem causa aparente; cansaço extremo; e anemia inexplicável.
Tratamento - Depende do estágio da doença, do tamanho e da localização do tumor. As principais opções são cirurgia, quimioterapia e radioterapia.
Fonte: nutricionista e terapeuta Beatriz Vieira (CRN 5 21802), Clínica Escola Nutrindo Almas


