EM PAUTA
Como grandes empresas do país estão cuidando da saúde mental antes das multas da NR-1
Conheça os programas de prevenção adotados por empresas referência no mercado


A obrigação legal das empresas de gerenciar e prevenir riscos psicossociais permanece em vigor, embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha interrompido, temporariamente, a aplicação de multas e sanções administrativas da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). Organizações atentas a esse compromisso continuam executando programas de prevenção e cuidado dos transtornos físicos e mentais relacionados ao trabalho. A NR-1 estabelece as disposições gerais, o campo de aplicação e as diretrizes de Segurança e Saúde no Trabalho no Brasil referentes aos fatores estressores ocupacionais.
Na Braskem, empresa petroquímica com cinco mil colaboradores, “essa jornada vem sendo construída ao longo dos últimos anos e ganhou impulso durante a pandemia de Covid-19, período em que a companhia precisou lidar com diferentes realidades de trabalho”, como contextualiza a gerente de Pessoas e Organização da companhia no Nordeste, Ana Luiza Salustino.
Entre as iniciativas desenvolvidas, destaque para o “Check-in”, uma ferramenta que permite compreender como cada pessoa chega ao trabalho, e o “Termômetro do Bem-Estar”, para acompanhar aspectos da relação entre trabalhador, liderança e organização.
“Mais do que coletar informações, o objetivo passou a ser utilizar esses dados para orientar ações de cuidado. A experiência também levou à busca por instrumentos estruturados de avaliação dos fatores psicossociais”, ressalta a gestora, citando a adoção do questionário desenvolvido pelo Health and Safety Executive (HSE), do Reino Unido, para avaliar diferentes dimensões relacionadas aos riscos psicossociais no trabalho.
A iniciativa, enfatiza a gerente, demonstra que as precauções podem começar antes da instalação de um quadro de adoecimento.
“A prevenção não se resume a orientar o trabalhador a descansar ou desenvolver estratégias individuais de autocuidado. Envolve, também, olhar para as condições em que o trabalho acontece. Sobrecarga, falta de autonomia, conflitos de relacionamento, baixa clareza sobre o papel profissional, mudanças organizacionais malconduzidas, ausência de reconhecimento e dificuldades na relação com a liderança podem contribuir para o sofrimento relacionado ao trabalho”, enumera.
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Ainda de acordo com Ana Luiza, a Braskem vem investindo em capacitação de lideranças, campanhas de conscientização, rodas de conversa e ações de psicoeducação sobre saúde mental.
“Os temas abordados incluem preconceito e estigma relacionados aos transtornos mentais, identificação de sinais de alerta, segurança psicológica e estratégias de cuidado. A saúde mental, na empresa, passou a integrar a estratégia corporativa e é acompanhada pela alta liderança por meio dos Comitês de Saúde Integral”. Mais do que um programa específico para prevenir Síndrome de Burnout e outros transtornos relacionados ao trabalho, a gestora afirma que “se trata de construir a cultura do cuidado, na qual a tomada de consciência é o primeiro passo e a responsabilidade pela saúde é compartilhada entre trabalhadores, lideranças e organização”.
Especialista em Medicina do Trabalho, com formação em Psiquiatria e atuação ligada às iniciativas de saúde mental e ocupacional da Braskem, Kamyla Lêdo Matos ressalta as evidências científicas recentes em Psiquiatria sinalizando que os transtornos mentais não podem ser compreendidos apenas sob a perspectiva neuroquímica.
“A presença de doenças crônicas associadas à inflamação sistêmica, como obesidade, diabetes mellitus tipo 2 e síndrome metabólica, tem sido correlacionada ao aumento do risco de depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos”, enaltece.
A promoção da atividade física regular, acrescenta Kamyla, tem se consolidado como uma das intervenções não farmacológicas mais eficazes na prevenção e no tratamento adjuvante dos transtornos mentais. A mesma importância ela aponta para a alimentação saudável, que possui um papel na modulação dos processos inflamatórios e metabólicos relacionados à saúde mental.
“Nesse contexto, a Braskem apresenta linhas de cuidados que incentivam a saúde integral, além de investimento na Atenção Primária à Saúde (APS). A lógica é simples: cuidar da saúde mental também significa cuidar das condições que sustentam o bem-estar físico, emocional e social.”

Diagnóstico e saúde
Para o Grupo Sabin, afirma a diretora Administrativa e de Pessoas da empresa, Marly Vidal, cuidar das pessoas está no centro da estratégia da empresa e se traduz em uma cultura pautada por iniciativas que estimulam a prevenção, o cuidado contínuo, a adoção de hábitos saudáveis e a valorização da vida. Uma das principais frentes, segundo a gestora, é o Programa Saúde em Dia, lançado em 2021, que reúne ações voltadas à saúde emocional e cardíaca, ao controle de peso, aos cuidados específicos para pessoas acima de 40 anos e ao acompanhamento pré-natal.
A empresa, complementa Marly Vidal, também incentiva a prática de atividades físicas e a integração entre as equipes por meio do Clube de Corrida Sabin, além de manter espaços de acolhimento e relaxamento, como o Cantinho da Serenidade, na sede, em Brasília.
“Essa jornada é ampliada pelo aplicativo Flowing, que oferece uma experiência personalizada a partir da ‘Roda da Vida’, considerando aspectos como saúde emocional e física, autodesenvolvimento, relacionamentos e bem-estar para indicar conteúdos e sugestões de acordo com as necessidades de cada colaborador”, explica.

Já na Polo Salvador, indústria baiana de vestuário com sede em Salvador, foi implementado o Sesi Saúde Acolhe, por meio de uma parceria de Atenção Primária à Saúde com o Serviço Social da Indústria (Sesi) Bahia, incluindo a criação de uma clínica in company no Condomínio Bahia Têxtil, no Bairro do Uruguai, onde estão instaladas a Polo e outras empresas.
“O programa atende o trabalhador da indústria. É como se fosse um plano de saúde da família integrado, que atende questões física, psicológica e nutricional. Os funcionários são acompanhados por profissionais, com consulta presencial ou virtual”, afirma o diretor da Polo Salvador, Hari Hartmann.
Desde a implantação do programa na Polo Salvador, ressalta o gestor, os resultados têm sido positivos, especialmente entre os funcionários com problemas de pressão alta e diabetes.
“Nosso colaborador recebe atendimento médico, nutricional e psicológico e, caso seja necessário, é encaminhado para outras especialidades, dentro do Sesi Saúde Acolhe”, diz, ressaltando que a Polo Salvador conta, também, com o apoio interno do setor de Recursos Humanos (RH) nos cuidados com a saúde mental, a partir de “uma escuta ativa e um acolhimento personalizado.”


