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ESPECIAL SAÚDE 360º

Aos 70 anos e cheias de planos: o segredo da longevidade com autonomia

Histórias de idosas na Bahia revelam como a mente ativa e o voluntariado garantem saúde

Miriam Hermes
Por Miriam Hermes
| Atualizada em
A prática regular de exercícios e a mente ativa garantem a autonomia e a saúde integral na maturidade
A prática regular de exercícios e a mente ativa garantem a autonomia e a saúde integral na maturidade - Foto: Ilustrativa / Magnific

Manter o corpo e a mente ativos e o espírito em paz são indicativos de pessoas 60+ que valorizam a saúde 360º por proporcionar mais qualidade de vida, entendendo que ela significa conviver em harmonia, colaborando de alguma forma com seu grupo familiar, as amizades e suas comunidades. Para evidenciar a temática, ao reconhecer o envelhecimento como prioridade global de saúde, a OMS declarou a Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030).

Em comum, estas senhoras e estes senhores que querem ter uma saúde 360º mantem atividades de cunho beneficente em uma ou mais áreas de atuação, agregando pessoas para construção de projetos e execução de planos. Independente de religião, cultivam a espiritualidade e acreditam no poder do bem e da positividade.

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Longe de estereótipos, a professora Marilde Guedes, 70, reúne atributos apontados como fundamentais para manter o vigor físico e mental depois de sete décadas vividas em ritmo de alta produtividade. Orfã de pai ainda na infância, conta que a mãe, apesar de analfabeta, era rigorosa com os estudos dos filhos, que criou com trabalho duro e criatividade, despontando como liderança comunitária.

Enquanto ela descreve a genitora, fica claro de quem herdou a facilidade de se relacionar com as pessoas e liderar grupos com finalidades construtivas. Professora aposentada, mas ainda com vínculos com a Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), é pós doutora em Educação e como escritora preside a Academia Barreirense de Letras (ABL).

“Aprendi com minha mãe educação financeira, trabalhar com ética e valorizar o conhecimento”, disse, pontuando que exerceu diferentes profissões antes de se formar no magistério. Depois seguiu carreira na educação, ocupando cargos das salas de aula à direção da Uneb/Barreiras.

Atualmente mantem atividades físicas com pilates e caminhadas, a rotina diária de casa e da academia de letras, além de outros grupos de atuação e da atenção dispensada aos familiares e amigos. “Sempre fui assim”, disse, acrescentando que tem o desejo de permanecer neste ritmo. “Acho que vou morrer com isso, porque estas coisas não cansam”, revelou.

Dentro de casa ela tem no companheiro, Jenivaldo Guedes dos Reis, com quem é casada há 52 anos, todo o apoio para seguir em plena atividade e sempre em movimento. E, embora confesse ter dificuldade com terapias que exigem concentração como meditação e ioga, através da leitura e escrita cultiva sua vivência interior.

Marilde Guedes, professora aposentada, pós-doutora em Educação, escritora e presidente da Academia Barreirense de Letras - ABL
Marilde Guedes, professora aposentada, pós-doutora em Educação, escritora e presidente da Academia Barreirense de Letras - ABL - Foto: Arquivo Pessoal

Ao pontuar que para ela o céu é o limite, destacou que tem como preocupação com a velhice apenas “o medo de perder a cognição”. Como mensagem ela salientou que a educação é uma referência na sua vida e que contribuir com as outras pessoas é uma dádiva, sem esperar o reconhecimento e sem ofuscar o brilho dos outros. “Todo dia agradeço por todas as oportunidades que tive na vida e sigo sempre com o pé no chão”, asseverou.

Paz interior

A paranaense Lucia Weizenmann, 70 anos, segue à risca os preceitos recomendados para o ser humano desfrutar da saúde dentro do conceito 360º. Como máxima, ela aconselha que as pessoas busquem autonomia, tanto os próprios idosos, quanto as famílias e a sociedade com casas e cidades que priorizem o bem-estar para todas as idades.

“Nunca devemos ficar estagnados, só esperando o tempo passar”, ensinou, pontuando que as pessoas devem buscar sempre coisas novas e afazeres prazerosos. Na sua rotina, ela faz atividades físicas no grupo de ginástica do bairro e participa ativamente como voluntária de uma associação dos portadores de parkisson.

Ao ressaltar que as energias trocadas são boas para quem recebe e para quem atua nos projetos beneficentes, ela afirmou que este trabalho é gratificante “muito bom também para nossa saúde”. Como regra prioritária para uma vida tranquila, a aposentada sugeriu que as pessoas deixem de se preocupar demasiadamente com problemas, principalmente quando não lhes dizem respeito.

“Aprendi com o tempo que nunca devo perder o sono, seja com meus problemas ou questões alheias”, afirmou, acrescentando que as pessoas devem sim buscar soluções ao que lhes preocupa, mas que o sono e o descanso é fator determinante para a saúde do corpo e da mente. Cuidadosa com a horta, as flores, filhos, netos e os muitos amigos, tem como um dos afazeres a costura, onde cria peças com diferentes utilidades, dando vazão à criatividade.

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Viúva, ela disse que embora os idosos devam manter sua autonomia física e financeira na medida do possível, é fundamental que tenham uma rede de apoio para dividir os momentos tristes e alegres. Também apontou importante o auxílio de pessoas próximas para evitar que idosos entrem em um clima baixo astral e não se preocupem dia e noite com suas doenças, “porque fica difícil de curar, se a pessoa se entrega ao desânimo, aos pensamentos negativos”.

Para Weizenmann, a vida é melhor desfrutada pelas pessoas que pensam bem antes de agir, porque evitam arrependimentos que podem perturbar sua vivência e prejudicar a saúde física e mental. Enfatizou ainda que a paz interior é condição básica para viver em plenitude em qualquer época da vida.

Vivência plena

Médica especialista em medicina de família e comunidade, pós-graduada em Geriatria, Adelle Nóbrega apontou que a Organização Mundial da Saúde define saúde não apenas como ausência de doença, mas como o estado de bem-estar físico, mental e social. “No envelhecimento, isso pode ser ainda mais verdadeiro”, disse enfatizando que um idoso pode conviver com uma doença crônica bem controlada e ter ótima qualidade de vida; outro pode não ter ‘nada diagnosticado’ e estar profundamente isolado, triste e dependente.

Para ela a diferença está na capacidade de manter autonomia, ter raciocínio que permita responder por si e tomar as decisões acerca da própria vida, além de manter sua mobilidade, sem depender de outras pessoas. “Assim, a pessoa idosa será capaz de fazer o que dá sentido à vida, de acordo com suas prioridades e escolhas”, destacou.

Segundo a médica não é o número de doenças que define como alguém envelhece, mas o quanto esta pessoa consegue viver com independência, autonomia, dignidade e felicidade. Ela explicou que na geriatria, a pessoa é avaliada de forma ampla: função, cognição, humor, nutrição, medicações, rede de apoio, contexto social. Nela o profissional enxerga o idoso como um todo, e não como uma lista de diagnósticos.

A médica salientou que é urgente o combate ao etarismo “que faz muitas pessoas tratarem o envelhecimento como decadência inevitável”, afirmou, dizendo que esse é um erro muito comum. “Atendo pacientes com mais de 100 anos de idade com muito boa saúde, raciocínio e memória invejáveis, cheios de amigos dentro e fora do núcleo familiar, felizes”, revelou, pontuando que por outro lado, “algumas pessoas muito mais jovens estão debilitadas, muito fragilizadas e adoecidas. Com isso quero dizer que a idade cronológica nos fala muito pouco sobre nossos idosos ou sobre quem seremos no futuro”.

Outro ponto abordado é a falta na prevenção e promoção de saúde de verdade com movimento físico regular, alimentação e hidratação adequadas, sono, estímulo cognitivo, vínculos afetivos, propósito de vida. “Muitos idosos adoecem mais por solidão e isolamento do que por doenças em si”, lamentou.

Adelle Nóbrega ressaltou ainda a necessidade da população cuidar preventivamente da saúde de forma integral durante toda a vida, e, em relação aos idosos disse que falta, na sociedade a valorização da sua autonomia e dignidade. “Ouvi-lo, incluí-lo, dar-lhe lugar de fala”, asseverou, lembrando que o envelhecer bem é um projeto coletivo: de família, da comunidade, dos profissionais de saúde e das políticas públicas.

Por fim, ela aconselhou as pessoas buscarem informações confiáveis sobre tratamentos seguros, “para que a sociedade pare de trocar saúde por estética, como tem sido infelizmente tão comum”. Ao pontuar que beleza é importante, mas nunca deve se sobrepor à saúde como um todo, disse ser fundamental “que paremos para buscar melhores informações e refletirmos melhor sobre nossas escolhas”, concluiu.

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