ROCK N'ROLL
Pitty lança disco após 7 anos e cobra espaço para o rock de Salvador: “É só olhar”
Cantora falou sobre experimentação, processo criativo e cena soteropolitana


Sete anos depois de Matriz (2019), Pitty retorna com um novo álbum de inéditas que marca um momento de renovação artística. Desta vez, Pitty apresenta ao seu público Pitty: a cantora empresta o próprio nome ao seu sexto disco de estúdio, que chegou às plataformas digitais nesta sexta-feira, 16. A obra conta com 13 faixas que exploram diferentes sonoridades sem abandonar o rock como eixo central de sua identidade musical.
O trabalho nasceu após um período de pausa e reorganização. Em um processo espontâneo e intenso, a artista compôs todas as músicas em apenas dois meses, retomando a criação com o violão, como fazia nos primeiros anos da carreira, quando escrevia em seu quarto, em Salvador. Desta vez, porém, também se aventurou na produção musical, utilizando ferramentas digitais para construir as demos que deram forma ao álbum.
Natural de Salvador, Pitty iniciou sua trajetória na cena musical da capital baiana, antes de se consolidar como uma das principais referências femininas do rock brasileiro. Ao longo da carreira, tornou-se uma das principais referências femininas do rock brasileiro e conquistou admiradores de diferentes idades, incluindo crianças que descobrem sua música atualmente.
Em entrevista exclusiva ao portal A TARDE, Pitty fala sobre o processo criativo do novo álbum, o reencontro com as suas origens musicais, a liberdade para experimentar, a relação com fãs de diferentes gerações e os desafios de dar visibilidade ao rock produzido em Salvador.
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O que esse álbum tem de diferente dos trabalhos anteriores e por que ele despertou essa sensação de recomeço?
Por vários motivos. Primeiro, todas essas canções foram feitas agora, em dois meses, que é um processo que nunca tinha acontecido comigo. Geralmente, eu revisito escritos, pego umas coisas que ficaram. E, dessa vez, foi tudo de agora.
Sabe o famoso “manda foto de agora”? É um retrato desse momento. Eu fui fazendo, sem nem saber que estava fazendo um disco. Eu só comecei a escrever, e começou a vir. Era uma, era outra, duas por dia, três. E, de repente, eu pensei: “Gente, meu Deus, o que está acontecendo?”. Eu fui tomada por esse rolê. E, quando vi, tinha um monte de música.
Eu falei: “É, eu estava fazendo um disco sem saber”. Meio que inconscientemente. A diferença é essa: o fato de ser tudo muito fresco, muito de agora.
Acabou tendo essa narrativa, dessa urgência ali do começo do disco e das coisas que vão atravessando, de um meio um pouco mais reflexivo, melancólico. Eu não estava pensando sobre ela no momento em que estava escrevendo. Eu só estava escrevendo. Quando fui montar as peças, achei que tudo se encaixou.
O álbum nasceu depois de um período de pausa e reorganização, e você voltou a compor sozinha com o violão, como fazia no início da carreira. O que mudou no seu processo criativo ao longo desses anos e o que você reencontrou nessa maneira de compor?
Foi uma coisa também inconsciente. Não foi assim: “Ah, eu vou voltar para aqui”. Não. Eu só fui sentindo e fui indo. E, quando vi, a minha banda estava cada um para um canto. E eu estava aqui sozinha. Eu, meu violão. E um monte de coisa querendo sair de mim através de palavras e textos.
E eu digo: “Gente, eu vou ter que fazer, né? Está vindo um negócio. Eu vou ter que botar para fora isso aqui”. E, como estava cada um para um canto, eu sentei aqui na frente do software e fui aprender, mexer. Já sabia mexer um pouco, mas precisei me empenhar um pouco mais. E a tecnologia me ajudou muito.
Porque eu abro o meu software, consigo samplear coisas. Consegui produzir todas as músicas desse jeito, sampleando e tocando o que eu conseguia. Pegando no banco de sons do software que eu uso, que é incrível, tem um monte de sons de instrumentos reais.
Isso possibilitou que eu conseguisse fazer esse disco desse jeito. Porque fiz todas as demos do jeito que está no disco. Se você ouvir as demos, é praticamente a mesma coisa.
Depois, mostrei para a minha banda. Quando a gente conseguiu se reunir, eles falaram: “Tá bom. E agora? A gente faz o quê?”. Eu falei: “Agora, vocês tocam ao vivo. Não é? Agora vocês gravam ao vivo”. Mas foi vindo.
Tem essa coisa de voltar para essa essência do violão. Porque eu fui inconsciente e caiu para mim uma ficha. Que é assim: “Cara, eu não preciso de muito. O que me empoderava naquela época? Quando eu pegava o violão e, com três acordes, o dois, o um, eu conseguia me expressar”.
É a simplicidade. É a volta para o simples, que bate, que emociona. É buscar essa simplicidade até nas palavras, às vezes. Não ficar tentando complicar muito o rolê. Aquela história de uma câmera na mão, ideia na cabeça.
Tem a ver com a filosofia do punk rock, que é de onde eu vim. Na real, do hardcore. Que é essa coisa do faça você mesmo. Se sua banda não está aí, você vai lá e faz. É a retomada dessa consciência e essência. De tipo: 'Cara, eu estou aqui. Eu vou fazer o que der para fazer com minha cara de pau, meu software, meu violão'. E aqui estamos.
O rock continua no centro do disco, mas músicas como Armadura, DESOBEDIENTE e Sobriedade Seletiva exploram outras sonoridades e ritmos. Como foi experimentar essas possibilidades sem perder a identidade que o público reconhece na sua música?
Isso é que eu vou saber quando o disco for para o mundo, porque, desde o começo, eu sempre gostei de experimentar. Sempre, sempre, sempre. As pessoas acham que: “Ah, porque é roqueira, só ouve não sei o quê”. Não. É tão amplo para mim.
Rock não é um rótulo que você bota ali, uma estampa, que você fala: “Rock”. Não. Tem coisas que são muito mais rock and roll do que algumas coisas que se dizem rock and roll.
Por exemplo, eu amo blues, eu amo jazz, eu amo Nina Simone, eu amo Etta James. Nina Simone, para mim, é tipo assim: eu ouço e, se aquilo não é rock and roll, eu não sei o que é. Tem coisas que eu ouço de Luiz Gonzaga que me tocam profundamente, da mesma forma que Black Sabbath. Da mesma forma que Dead Kennedys.
Tem coisas na música brasileira e no blues, no jazz, em outros estilos, no hip-hop, que me tocam mais do que algumas coisas que se colocam sob o rótulo de rock and roll. Para mim, não é sobre o rótulo. É sobre a energia da música.
Produzimos recentemente uma matéria sobre crianças que gostam de rock and roll e, durante as entrevistas, várias delas citaram você como uma de suas referências. Você já percebe esse interesse das novas gerações pelo seu trabalho? Pensa na possibilidade de desenvolver algum projeto voltado especificamente para esse público?
Não, não pensei. Mas eu vou te falar um negócio: a vida é longa, né? Mas eu não pensei, não. Porque, assim, nunca diga nunca. Mas, no momento, não.
Meu disco não é para criança. Mas elas gostam, e eu acho isso o máximo, na verdade. Porque sabe o que acontece? Elas vão entender dentro do contexto do repertório delas. Elas vão entender dentro da bagagem que elas têm.
O adulto vai entender de um jeito, a criança entende de outro. Eu fico fascinada de saber que crianças gostam do meu som, porque eu não faço música para elas e, mesmo assim, elas gostam. Assim como gente mais velha, assim como gente de todo tipo.
Eu acho massa. Acho fantástico isso. Você vai absorver com o que você tem, com a sua vivência, né? Vai bater para você diferente do que bate para o outro. E essa é a grande beleza da música.
É por isso que eu estava até falando outro dia que eu não gosto de ficar explicando letra, porque acho que quebra essa magia de: “Escute aí. Sinta o que você quiser sentir, sinta o que sentir para você e vai fazer sentido para você”.
Quando a gente explica, é meio que explicar piada. Assim, tipo: se você tem que explicar piada, é porque ela é ruim, né?
Você começou sua trajetória musical em Salvador e construiu uma carreira que ultrapassou as fronteiras da Bahia. Como você enxerga o cenário do rock em Salvador hoje? O que mudou desde o início da sua carreira e o que ainda falta para fortalecer a cena local?
Está rolando uma cena massa. Porque tenho conversado com minhas amigas e meus amigos daí, mas não tenho tido muita notícia, na verdade.
Então, acho que você vai saber até melhor do que está rolando por aí, porque estou procurando me inteirar das coisas. Mas não sei se estão rolando bandas novas. Preciso dar uma olhada melhor nisso, porque estive trabalhando tanto que realmente não sei. Aí você me avisa.
Desde aquela época, a visibilidade era praticamente nula, né? A gente saía fazendo do zero. Voltando para a história do “faça você mesmo”: era a gente colando flyer no meio da rua, distribuindo panfleto, no boca a boca, para conseguir fazer a cena acontecer. Porque é isso.
Eu sou muito grata hoje, por exemplo, por conseguir falar com um veículo grande de Salvador, porque espero que seja uma conquista não só para mim, mas para toda a cena.
Hoje, estar falando com você, poder falar com um veículo grande... Quando me lembro de como a gente começou e de todas as bandas que faziam parte da minha cena e que fazem parte da cena hoje, espero que isso aqui sirva para que a mídia dê mais visibilidade para a cena de Salvador. Porque a gente tem coisas incríveis. É só olhar.
Depois de mais de duas décadas de carreira, com tantos discos lançados e experiências vividas, o que ainda move você a criar, compor e subir aos palcos?
Se eu não fizer isso, estou morta. Eu morro. Isso é minha vida, é minha nota de alma. Eu não tenho outra opção, eu sou movida a isso. É o que me faz realmente me sentir viva. Útil. Presente. É o que me dá borboleta no estômago até hoje.
O título do álbum leva seu próprio nome. Depois de tantos anos escrevendo sobre o mundo, as relações e diferentes experiências, lançar um disco homônimo representa uma forma de olhar mais diretamente para quem você é hoje?
Eu acho que, quando isso vai para o coletivo, é para todo mundo. Porque eu não faço arte para mim. Qual o sentido? Se fosse dessa forma, então eu guardaria o disco na gaveta. Eu quero compartilhar isso com o mundo. Quero entender como essas músicas se comportam no mundo.
Eu pensei em muitos, muitos títulos, nomes de trabalho. “Ah, pode ser isso, pode ser aquilo”. E, no fim das contas, falei: “Eu nunca tive um disco homônimo”.
Eu estou brincando que é o meu Black Album. Porque também nunca fiz um. Pensando nos Black Albums clássicos da história da música e tal. E porque é isso. Ele é muito visceral. Eu estou muito aberta. Mas, ao mesmo tempo, não é só sobre mim. É contraditório. Estou entendendo tudo à medida que vou conversando com as pessoas.
Seu trabalho atravessa diferentes gerações, e hoje você encontra fãs que cresceram ouvindo suas músicas e outros que estão descobrindo sua obra agora. Como é perceber que suas canções continuam fazendo sentido para pessoas de idades e experiências tão diferentes?
Eu me sinto muito grata. De verdade. Porque acho que isso é uma bênção. Isso é raro. E eu dou muito valor a isso. De verdade.
Eu sou muito grata por isso, pelas pessoas que gostam do meu som, entenderem, acompanharem, entenderem as minhas fases e virem juntos nas fases, entenderem as mudanças, os ciclos e caminharem juntos, de alguma forma, até aqui.
Ao longo da carreira, você construiu uma identidade artística muito própria, mas continua buscando novos caminhos. Existe alguma expectativa ou ideia sobre quem Pitty deveria ser artisticamente que você sente que já não precisa mais atender?
Eu não penso sobre isso, porque, senão, vou ficar performando. Que trabalho danado. A gente já tem tanta coisa para pensar na vida, né? Já tem tanta coisa acontecendo ao nosso redor.
Olha o mundo como está. Olha tudo como está. Olha o planeta. Olha tudo em volta. Não é sobre nós, né? É sobre tudo que está ao redor da gente. Eu nem penso sobre isso. Eu vou indo. Vou indo e sentindo em minha intuição. E tentando me integrar com as pessoas.
Eu vou viver o momento que eu sentir que preciso viver. E eu só posso te prometer uma coisa: ele sempre vai ser de verdade. Com certeza, nem todo mundo vai entender. E não é sobre isso. Nem todo mundo precisa entender as coisas.
Temos que estar felizes na nossa pele. A gente tem que estar o máximo possível dentro do caos que a gente é, como ser humano. Dentro de todas as nossas angústias, felicidades, contradições, certezas, dúvidas. Procurar esse lugar de estar o máximo possível confortável na nossa pele.
Olhando para a Pitty que começou a compor em Salvador e para a artista que lança este novo álbum, o que você diria que mudou mais em você, e o que permanece exatamente igual?
Nada permanece exatamente igual. Mas existe essa retomada dessa essência do “vamos fazer”. Faça. Vamos fazer do jeito que der, que foi como eu comecei.
Eu não tinha ideia do que ia acontecer quando fiz aquelas músicas lá no meu quartinho em Salvador, com meu violão capenga. Com meus três acordes. Eu não tinha ideia. Eu só tinha muita vontade. Muita garra. E coragem para dizer não para as coisas que ninguém nunca viu.
Porque os sins que eu dei, todo mundo viu. Mas ninguém viu os nãos. Eu acho que isso permanece. De uma outra forma, claro, com a bagagem que se tem hoje. Depois de tudo que foi vivido: maternidade, casamento.
De toda essa história também dentro da música. Experimentando através dos discos. De me permitir experimentar outros estilos dentro do rock. Mas tentando manter essa identidade, que também não é uma coisa de “ah, é preciso”.
Isso rola naturalmente quando a gente não se preocupa tanto. E o que mudou é essa consciência de que precisa passar por tudo isso e, de repente, olhar um pouco lá, mas saber que você não permanece naquele lugar. Você mantém aquela essência. Mas nessa mulher de hoje, de 2026.


